Tempo, Arte e Braid

O que é o tempo? Há várias repostas corretas e excludentes. Tempo físico e tempo psicológico, por exemplo. Ambos são “tempos”, mas a concepção deles, na sua essência, é completamente dissonante. Quem nunca passou por aquele único segundo que pareceu se prolongar por minutos?

Todos sentimos o tempo diferentemente, em situações diferentes. Entretanto, o tempo passa para todos, da mesma maneira. Acredito que a passagem do tempo é uma das maiores provas que o pensamento pode alterar a realidade, ou seja, que a realidade não é uma só. Há uma realidade singular para cada um que faz parte dela. A realidade é absoluta e relativa, simultaneamente, como eu falei que são os Perpétuos, em Sandman. Sim, os perpétuos podem servir de símbolos para a realidade.

O que nos lembra, como eu falei no post sobre arte, que cada pessoa percebe a arte de forma singular, única. O que nos leva à conclusão de que arte é uma realidade. Criar arte é criar realidades. O artista é um mago, que, segundo seus sentimentos, altera e cria realidades fantásticas, como Gaiman em Sandman.
A partir disso, quero conceituar aqui um jogo – sim, um videogame – como arte. O que faz de uma obra, uma obra de arte? Sentimento, vínculo afetivo, estética? Um jogo possui tudo isso e mais algo. Se cinema é uma arte – que, por sinal, envolve as demais – como um jogo não o é, também? Ademais, um jogo tem um elemento que lhe é inerente e muitíssimo peculiar: a interatividade, que torna muito mais propícia a imersão do usuário. Sim, as demais artes tem, cada uma a seu modo, interatividade – acredite ou não –, mas, nos jogos, isso se torna muito mais evidente.
Quando no início dos videogames, era fácil notar como cada jogo era feito quase que artesanalmente, e, quem joga há algum tempo, sabe da sensação de saudosismo que traz um jogo clássico. Com o crescimento absurdo do mercado de games ao redor do mundo, os games tornaram-se, logicamente, muito mais comerciais, uma mídia a mais para divulgação de uma franquia, muitas vezes. Entretanto, com o crescimento desse mercado, veio sua maturidade, e, hoje, eu vejo uma esperança de algo que há algum tempo já imaginava: o reconhecimento de games como arte.
O mais claro exemplo disso veio com jogos recentes, como Braid e Machinarium, por exemplo, que elevam – ou relembram – os jogos a outros ares. Da primeira vez que vi Braid, fiquei abismado com aquele cenário que mais parece uma pintura impressionista, com cores aparentemente escolhidas a dedo para criar uma harmonia única, que eu vi em telas de poucos pintores. Ouvi aquela música acalmante, imersiva, solene, triste. Vi aquele homenzinho correndo, de maneira tão bem feita, que, minha reação foi dizer, espantando “que jogo é esse?!”.
As referências visuais ao clássico – e por vezes reconhecido em demasia – Mario são óbvias: o monstrinho que parece um goomba, uma planta carnívora que sai de um cano verde, um dinossaurozinho. Todavia, as semelhanças param aí.
Você inicia Braid em um cenário de uma cidade escura, deserta, e adentra em uma casa, sem entender muita coisa. Dividida em alguns cômodos, essa casa tem algumas portas, e cada uma delas leva a um quarto completamente composto de nuvens – belíssimas, encantadoras nuvens – e alguns livros, nos quais você vai lendo a misteriosa história de romance do herói com a chamada Princesa. Curiosamente, você começa pelo Mundo 2, quando, aparentemente, Tim – personagem principal – perde a Princesa.
A mecânica do jogo é completamente baseada em quebra-cabeças, puzzles em que você, muitas vezes, precisa parar e pensar durante minutos a fio como resolver. Todavia, você tem consigo uma das melhores armas possíveis para tal: o tempo. O tempo, que, apesar de ajudá-lo em diversas situações, por vezes, atrapalha bastante. O seu objetivo é pegar as peças de quebra-cabeças de cada mundo, para ir montando a história de Tim.

O que mais me faz pensar enquanto eu jogo esse jogo, é como a concepção de uso do tempo – apesar, de em termos newtonianos, não pudermos voltar no tempo – se encaixa conceitualmente com a vida. Por exemplo, em um dos mundos, você precisa se utilizar de uma “sombra” de Tim que aparece quando você volta no tempo. Se nos desvencilharmos da idéia de voltar no tempo literalmente, podemos imaginar como é comum essas sombras do tempo que passou interferir na nossa vida atualmente.
E como não considerar algo assim arte? Quando você conhecer a realidade em Braid – e puder abolir o preconceito de videogames –, tenho certeza de que mudará sua concepção de arte e de jogos. Braid é uma obra de arte desde a sua estética ao game design em si. Espero, então, que a partir daí, possam surgir vanguardas, movimentos artísticos de jogos.

Para fazer o download de Braid via torrent, clique AQUI.

Por Eduardo Souza

Amit Goswami no Roda Viva

Particularmente, tenho um apreço imenso pelo Roda Viva da TV Universitária. O jornalismo que é levado a sério nesse programa nos faz perceber a qualidade dos convidados e da bancada experiente, que em todas as segundas-feiras trazem um debate interessante à tona.
Elogios sem remuneração financeira feitos, e indo diretamente ao ponto, o post de hoje abordará o programa exibido no dia 11 de fevereiro de 2008, que contou com a participação do físico quântico indiano Amit Goswami, cujo reconhecimento surgiu no meio científico pelo trabalho escrito “A Física da Alma” e após a participação no documentário “Quem Somos Nós?” (What a Bleep).

Goswami tenta inovar as teorias da física partindo do preceito de que a matéria não é a base de tudo, mas ao invés dela, a consciência o é. Então, na tentativa de unir ciência e espiritualidade – sim, muitas das suas teorias lembram as da religião espírita de Alan Kardec – o físico indiano tem enfrentado diversos desafios por tentar dar uma outra visão de uma teoria literalmente tão consistente, que é a da física mecânica. Mas não há motivo para pânico, mesmo que Amit esteja certo, não é inteligível incinerar os trabalhos de Leibniz e Newtown.

Parte 02, clique AQUI.
Parte 03, clique AQUI.
Parte 04, clique AQUI.
Parte 05, clique AQUI.
Parte 06, clique AQUI.
Parte 07, clique AQUI.
Parte 08, clique AQUI
Parte 09, clique AQUI.

Embora a física quântica seja uma corrente de estudos extremamente promissora, eu acho uma pena que ela esteja se prostituindo aos poucos. Prostituição no sentido de “se vender”, já que best-sellers falaciosos como “O Segredo” (The Secret) e suas milhares de interpretações têm se aproveitado de conceitos superficiais da física moderna com o único intuito obter lucros. O que seria mais fácil que conceder informações positivas para uma população tão carente emocionalmente?
Em relação a Amit Goswami, posso dizer que concordo com boa parte de suas teorias, o que significa que não concordo com todas elas. O processo de conexão entre as mentes, a interpretação do cérebro frente à realidade visual, a consciência como a base da existência e o fato das ocorrências de eventos acontecerem ser apenas uma questão de probabilidade são extremamente plausíveis.

Para exemplificar o caso das probabilidades, a figura acima retrata uma passagem do filme “What a Bleep“. A situação em questão simboliza as possbilidades que nosso cérebro corrobora para intretar uma imagem real de uma única bola de basquete. Por mais que nós percebamos com os sentidos apenas uma bola, na verdade, várias estão em ação, mas nós canalizamos a figura, ou seja, a representação do mundo pode não passar de uma interpretação cognitiva da mente humana.

Já minhas discordâncias se dão com seus conceitos de vida após a morte, existência de deus e contato com os mortos. Não que seja uma questão de simplesmente duvidar da possível presença da reencarnação ou de deuses, mas eu simplesmentenão achei convincentes os seus argumentos, então eu me mantenho cético. Não confirmo a existência, e muito menos a não-existência (é, eu assumo que tenho uma linha de pensamento bem kantiana).

Para mais explicações sobre o assunto, assista ao filme “Quem Somos Nós” e ao próprio vídeo, além da leitura das obras de Amit Goswami ser extremamente recomendável. A física quântica é muito interessante e requer um debate mais afundo, já que, caso essas teorias vierem a ser realmente algo aceito como lugar-comum, o futuro será irreconhecível para os que vivem hoje, pois a mudança na sociedade será inimaginável.

Por Italo Lins

Arte, Artista e Devaneios

Antes de começar, acredito que esse post será algo muito pessoal, que será tornado universal, o que o tornará muito falho, devido à imaturidade conceitual, profissional e artística que eu tenho.

Eu gosto das histórias de como algumas coisas são criadas. São coisas cotidianas, inocentes, que passam a ter um papel decisivo na vida das pessoas, graças a elas mesmas. Nesses dias, um amigo meu me mandou a transcrição de uma carta de Rainer Maria Rilke, poeta do início do século XX, que era uma resposta a um escritor iniciante. Esse texto pode ser lido – e eu recomendo – AQUI.
A partir dele, devo dizer, eu vou encarar este texto que escrevo e que você lê como uma concepção artística. Ou seja, como Rilke fala na carta, “uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade” e, ao tentar me expressar sobre a arte para vocês, pode nascer uma obra de arte boa. Ou seja, all the words are gonna bleed from me, and I will think no more.
“(…) Relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade.” 
É esse um dos conselhos que Rilke dá ao jovem escritor. O artista não pode, em hipótese alguma, ser indiferente ao mundo. Como Raphael Draccon fala, ou você o ama ou o odeia, mas é preciso que um artista possua uma visão passional do mundo para poder ter os caminhos de expressão abertos para a arte. Como não lembrar, então, do jovem Werther, que, tão dedicadamente descreve as montanhas, o horizontes, as árvores e os lagos que observava em suas caminhadas, apaixonado por Carlota?
Além de tudo, ser um artista é muito perigoso. Refiro-me à acepção conceitual de “artista”, como comportamento. Você se frustrará, sentirá um misto de sentimentos difíceis – ou impossíveis – de serem explicados, e ainda terá que saber usá-los a favor de si. Usá-los como um meio pra entrar mais profundamente em si mesmo, e trazer isso pra fora em forma de arte. Mozart compôs o Requiem dessa maneira; Beethoven, a nona sinfonia; Van Gogh, vários de seus mais famosos quadros. Entretanto, a alegria também fará com que obras geniais fluam. Dalí é um claro exemplo disso, que teve em sua mulher, Gala, muito da inspiração necessária para compor e pintar seus quadros. 
“As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou”. 
Completando eu disse no post sobre a música, há coisas que as palavras não expressam. Sentimentos que conceitos não alcançam. Esse – acredito – deve ser um dos maiores desafios dos escritores. E dos pintores. 
Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas.” 
É difícil classificar arte – principalmente poemas – como bons ou ruins. Afinal, para classificar, é preciso definir. E definir arte é algo impossível. Você pode reconhecer uma boa arte – ou não –, mas não consegue definir. O que diferencia os bons dos ruins, então? Inexplicável. Entretanto, logo depois, Rilke explica como saber se seguir, ou não, esse caminho. 
“Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: ‘Sou mesmo forçado a escrever?’ Escave dentro de si uma resposta profunda.” 
Acredito que todo artista – ou artistas to be, como eu – já passaram por isso. Segundo Alan Moore, um artista é um mago, que distorce a realidade, expressa algo que as outras pessoas não podem jamais alcançar, por estar dentro da alma do criador. E, não importa o quão desencorajador possa parecer, quando alguma coisa de dentro o manda pintar – ou escrever, ou tocar, ou dançar, ou esculpir –, você sabe que, de fato, quer aquilo. Sabe, que, mesmo quando dá um tempo da arte, aquilo está lá, dentro da sua mente, sendo fomentado e se preparando para quando aparecer novamente.
“(…) e depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons.”
E eis as amarras das quais é necessário nos libertar. Entretanto, como seria uma arte apreciada se não for considerada boa? Como atingir a satisfação pessoal, se não importa perguntar se são bons? É aí que um verdadeiro artista transcende a necessidade comum de ser admirado, reconhecido, de ter o ego massageado. Embora isso vá acontecer, não é a preocupação dele. O fazer artístico dele começa e acaba em si, para saciar aquela voz, aquela vontade, e, quando é feita, a consciência acalma, sabe que está em seu lugar. “Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora.”  
Essa, portanto, deve ser a verdadeira humildade. A humildade que Jesus, o homem, possuía. Por isso, que um verdadeiro artista não é cheio de si, não é auto-suficiente, não é arrogante. Não é ególatra. Se a leitura dessa carta, por exemplo, for feita também nas entrelinhas, é possível notar a humildade – não a falsa modéstia – com a qual Rilke trata o escritor iniciante. 
Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde.” 
Esse conselho me parece particularmente interessante. Apesar de a vida e os sentimentos humanos seguirem padrões comportamentais, cada um, ainda assim, é um universo, dentro de suas mentes. O artista é aquele que consegue tocar esses parâmetros imutáveis e adicionar as variáveis individuais, sentindo a vida em si, sem se deixar levar.
Quero adicionar, a capacidade de contemplação que é – acredito que seja – inerente a um artista, embora não seja vantajosa apenas para artistas. Coisas simples, como ver a graciosidade no vôo de um pássaro, a pureza de uma nuvem, a beleza de uma flor solitária, a aspereza de uma folha seca, a variação da cor do céu, a elegância de um gato de rua deitado; coisas que, no dia-a-dia, passam despercebidas, que assumem uma importância notável apenas em sua mente, e torna difícil achar alguém com quem seja possível dividir esses pensamentos de maneira recíproca.
Relendo esse texto, vi que não foi nada do que eu pensei que seria. Entretanto, foi isso que saiu – sem pensar – da minha reflexão sobre a carta. Talvez, depois, eu escreva novamente, fazendo o que eu havia pensado. Talvez não.
Por Eduardo Souza

A Revolução Brasileira de 1930

Eu olho para a história e vejo um conjunto de círculos de tamanhos diferentes. Uns dentro de outros, de maneira tal que haja um ciclo de tangência, fazendo com que um nunca entre em contato com o outro. Já que todos os fatos históricos são singulares, eu escolhi abordar o Brasil no período entre 1930 a 1937.

Alguns devem estar se perguntando por qual motivo escolhi comentar sobre a década de 30 no Brasil. Talvez, tenha sido o período, pelo menos pra mim, onde o país, de fato, começou a viver como uma república. Ano que marca a transição do país de caráter arcaico para o moderno e com a revolução de 1930, surgiria um novo tipo de Estado, um Estado “liberto” do controle das antigas oligarquias, uma sociedade mais complexa, mais heterogênea em seus objetivos, em condições de assumir uma postura mais decisiva em momentos de crise da sociedade brasileira em uma época onde rumores de uma possível Segunda Grande Guerra Mundial vagavam as ruas de grandes países do mundo.

Através da revolução de 1930, Getúlio Dornelles Vargas, advogado e político brasileiro, assume a presidência do Brasil, colocando um ponto final na república velha e depondo o 13º e último presidente, Washington Luís. Na verdade não foi bem um ponto final,  pois Vargas tinha uma capacidade espetacular de fazer política que o fazia transitar entre os interesses da classe econômica dominante, posto assumido ainda pelas oligarquias. Percebam que eles não estavam tão decadentes nem afastados do Estado, e os interesses da grande massa.

Contudo, o passo inicial no crescimento industrial brasileiro, inserido no contexto capitalista dos anos 30 foi marcado por um grande susto na economia mundial, com a queda da bolsa de Valores de Nova York, em 1929. Dessa maneira o Estado passou a assumir os mecanismos que mantivessem o sistema capitalista funcionando. E pra completar, nosso país viu decair com grande intensidade a exportação do café, conseqüência da crise econômica, ficando sem meios para importar produtos manufaturados.

O governo viu a necessidade de desenvolver no país a capacidade de suprir o mercado: desviou capitais do setor agrário que vivia um momento de desestímulo, queimou parte da produção de café, evitando o desemprego, e aproveitou a crise para comprar equipamentos de segunda mão, de grandes indústrias de diferentes nações que tinham falido.

Pronto, dessa maneira o nosso país colocava em prática seu plano de sair da grande crise mundial, olha como podemos perceber, o nosso país tem até um certo gingado em sair sem grandes perdas de períodos de recesso econômico mundial, recentemente passamos por uma outra grande crise na economia mundial, apesar dos motivos assumirem um caráter diferente, mas as conseqüências foram bastante parecidas, espero falar sobre isso em uma outra oportunidade.

O modelo industrial da era varguista contou também com o apoio governamental, visto que o Estado manteve a taxa cambial a um nível baixo, barateando as exportações para o consumidor estrangeiro e aumento no custo das importações, tornando-as “proibitivas” ao consumidor nacional, estimulando, dessa maneira, o consumo do produto interno.

Pois bem, para que haja uma melhor compreensão de um fato diante das necessidades da sociedade da época, economia e a forma que os políticos que controlavam o Estado, não basta apenas pegar um livro, e fixar os olhos apenas nas ações dos governantes e como tal atitude modificava os costumes e as necessidades da época, mas analisar a constituição daquele período ajudar entender quais as obrigações do Estado com o homem e as do homem com o Estado, o que muitas vezes, não passou do papel.

Sancionada em 16 de julho de 1934, com o objetivo de suprir as necessidades do homem de acordo com os costumes daquela época, já que a Constituição Anterior (1891) deixava a desejar. A terceira Constituição Federal manteve uma série de dispositivos que eram herança do estado anterior a 1930, manteve o federalismo, garantiu a anistia, deu poderes ao legislativo para privar o executivo e garantiu as eleições diretas.

No outro lado a Constituição assegurou certas reivindicações como as leis sociais, como a declaração do salário mínimo e o reconhecimento das associações de classe, entretanto o direito de greve não foi criado e nem legitimado, era algo que as classes dominantes dificilmente suportariam naquele momento. Mais uma vez fica claro, a atuação de Vargas, em atuar entre os interesses das classes econômicas.

A nova Constituição longe esteve de solucionar os graves impasses nacionais e garantia dos direitos do homem, em primeiro lugar, não tocou na terra e não cogitou de reforma agrária, acredito que esse fato pode ser interpretado a partir de uma linha de raciocínio onde Vargas não desejava impor pesados tributos às exportações com encargos sociais, visto que eram delas que vinham os recursos para o governo investir em setores industriais básicos que o capital privado não pôde ou não desejou encarar, ou seja no fundo Getúlio teria feito o trabalhador rural sustentar sobre os ombros, o progresso industrial urbano e a modernização econômica.

Tornada virtualmente morta já desde os fins de 1935, com a imposição do estado de sítio para reprimir a intentona comunista a constituição de 1934 arrastou uma existência fictícia até 1937, quando o golpe de estado novo a enterrou, conseqüência da ineficácia demonstrada. Mas isso é assunto para outra conversa.

Por Maurilo Sobral

Tiros em Columbine

Acredito que seja unânime o pensamento de que nós humanos, de uma forma geral, possuímos uma ânsia descomunal por violência. Reprimido ou não, esse instinto animalesco – sim, somos animais! – é descontado em nossa sociedade indiretamente em forma de filmes, jogos eletrônicos, desenhos animados, programas de televisão, que além de serem uma incrível fonte de lucro e expressão de sentimentos, cravam consequências relevantemente negativas e positivas em qualquer nação.
Sim, positivas! Ou afinal, quem nunca ficou mais tranquilo depois de detonar o personagem do seu irmão  mais velho em Street Fighter ou Mortal Kombat? É terapêutico, sem dúvidas!

E como um nexo de causalidade, essa nova forma de demonstrar que pessoas diferentes existem e merecem ser ouvidas com urgência – como disse Aristóteles, “o homem é um animal político” – o massacre de Columbine, ocorrido no dia 20 de abril de 1999, deixou sua marca para o mundo da maneira inadequada.

E percebendo que todos amam tragédias gregas ao melhor estilo de Sófocles ou Ésquilo, o senhor Michael Moore decidiu basear-se na brutalidade de Columbine para lançar seu documentário “Tiros em Columbine“, que até certo ponto merecidamente, recebeu inúmeras premiações cinematográficas.
Sinopse:

O Massacre de Columbine foi liderado pelos estudantes Eric Harris (18 anos) e Dylan Klebold (17 anos), dois everyday normal guys revoltados com o estilo de vida imposto pela sociedade consumista que,  não conseguindo expressar seus sentimentos em arte, mataram treze pessoas e feriram outras vinte. Logo após o extermínio, ambos se suicidaram.

Michael Moore então abre uma discussão acerca da facilidade de adquirir uma arma nos países em que a própria Constituição é conivente com a posse de pistolas e metralhadoras, pois defendem o direto dos “bons cidadãos” manterem o costume de praticar o “esporte” da caça – ah, como se isso mudasse muita coisa, não?
Durante o documentário, um breve glimpse do stand-up comedy do comediante Chris Rock aparece, para que de forma irônica, todos percebam como é fácil e barato estar armado nos Estados Unidos.
Chegando à conclusão de que as armas também são facilmente compradas em países como Canadá e Inglaterra – que possuem um índice de mortalidade extremamente menor que os Estados Unidos – o sr. Moore, munido com Matt Stone e Trey Parker (produtores do desenho South Park) dirigiu um mini-vídeo que conta a história dos ianques.
Por sinal, Matt Stone estudou no Instituto Columbine e pensava de maneira parecida com os assassinos, mas que, ao invés de virar um serial killer, expressou sua raiva de outra forma.
 

O cantor Marilyn Manson aparece no documentário e une-se ao pensamento de Moore, ou seja, manifesta-se contra o armamento indiscriminado. Diretores  de escolas, vítimas – que foram feridas – no Massacre e pensadores pró-armas aparecem no filme, liberando um debate dualista no ar. É fácil perceber que ambas as correntes são defendidas com unhas e dentes, por mais que no final a teoria contra as armas venha a ser mais difundida no documentário.

Crítica:

Tiros em Columbine” foi muito bem dirigido e a temática foi mostrada de uma maneira bem interessante e até certo ponto, dramática. O que me deixa com uma pergunta na ponta da língua: “por que fatos isolados são tratados com tanto remorso, mas acontecimentos gerais são aceitos como normais?” É óbvio que nesse exato momento, a algumas ruas de distância de você – ou nem isso – alguém está estragando sua vida com drogas, sendo estuprado ou até passando por necessidades fisiológicas básicas como se alimentar!

Mas afinal, por que isso não choca a sociedade?

a) Porque somos estúpidos ao achar que as coisas devem ser assim.
b) Porque é uma maneira de tratar uma angústia pandêmica.
c) Porque pessoas pobres morrendo têm um valor inferior.

Art. 5º – Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.”

When I look to myself, what a wonderful world…” e fortes aplausos para a nossa democracia!

É, para tudo tem um jeito quando o chão queima o seu pé. Ainda está pra nascer uma um movimento social que englobe todas as pessoas no conceito de direitos humanos. Revolução Francesa? Bem-vindos ao mundo da burguesia monsieur Voltaire e mon petit Danton!

Mas voltando à temática da causa da violência, eu acredito piamente que esses meios modernos de contato com a o gênero agressivo citados no início não são os únicos elementos responsáveis pelo surgimento dessa espécie. Parece óbvio que os pais têm uma função fundamental na instrução moral dos filhos, já que o mundo hodierno não é um dos mais respeitadores da figura humana – visto que tudo é descartável e as ambições (exemplo: tentar ser famoso) são irrelevantes.
Embora nós não possamos esquecer que um sistema educacional público de qualidade é indispensável quando se pensa em uma vida digna [muito obrigado por isso, pseudo-governantes e ministros da educação deus-ex machina!]

Já passou da hora de acordar pra realidade e fazer alguma coisa, dies geschieht jetzt! Faça serviços comunitários, doe livros, vote com consciência e exija seu direito dos responsáveis! O tempo é de união, mas antes disso, informe-se e seja útil para a história, não apenas mais um copiador de teorias. Como falado no filme Waking Life, “100% ação e 0% teoria não é diferente de 0% ação e 100% teoria”, então vamos deixar de ser lunáticos e fazer algo! Yes, we can! [perdão pelo lugar-comum obamístico, mas é extremamente lógico]

Na questão da posse de armas, para quê você quer se defender em casa se a maior parte da população mora em prédios que já contam com guaritas? Eu sei que a polícia não funciona como deveria e que a criminalidade é absurda principalmente no Brasil, mas pra quê você se tornar refém de sua própria liberdade? Para mim parece claro que violência só alimenta a violência. A função do governo não é apenas desarmar os civis, mas também os bad guys, já que contamos com um sistema jurídico horripilante. E os Estados Unidos não ficam atrás, já que a dupla que detonou a imagem do Instituto Columbine tinha ficha na polícia e receberam apenas 45 dias de serviço comunitário como pena.

Diga-me você então, acha que está tudo certo com o mundo?

Para fazer o download do filme via torrent, clique AQUI.

Por Italo Lins

Sandman e o Sonhar

Aclamado como um dos maiores escritores de língua inglesa, Neil Gaiman é autor de diversas obras fantásticas de fantasia (não pude evitar o trocadilho). Com uma gama de trabalhos extensa que vai desde O Livro da Magia – livro com uma história demasiadamente parecida com Harry Potter, de 1989, de onde Rowling provavelmente tirou diversas idéias – até roteiros de filmes como Beowulf, Gaiman altera, subverte e cria realidades.

Entre suas diversas obras, Sandman é, inquestionavelmente, a que lhe deixou mais conhecido.
Antes de tudo, entretanto, definamos alguns pontos. Primeiro, Sandman se encaixa em um tipo de narrativa chamada de graphic novel. Traduzindo, seria um romance gráfico, não “novela gráfica”. Entendamos esse “romance” como o estilo de narrativa em prosa e esse “gráfico” como uma representação dessa narrativa, misturando, assim, um filme – em que a narrativa é visual – e um livro – em que a narrativa é escrita. Isso se diferencia das histórias em quadrinhos – e dos mangás – primeiro, pelos temas, e, depois, pela narrativa em si – quadrinização e seqüenciação, por exemplo.
Agora, porque o nome Sandman? Esse é um dos nomes dados a uma figura da mitologia dinamarquesa, Ole Lukoeje (Olavo Fecha-olhos), que sopra areia nos olhos das crianças para que elas durmam tranquilamente. Esse é apenas um dos diversos nomes de Sonho, um Perpétuo, que governa o Sonhar. Oneiros, Morfeus, Oniromante, Lorde Moldador, Kai’ckul, são outros nomes que ele recebe, citados ao longo da história; todos nomes de deuses ou figuras mitológicas que controlam os sonhos, advindos de diversas fontes.

Os perpétuos são entidades superiores aos deuses, que, ao mesmo tempo em que controlam a realidade e o universo em si, são também formados pelos pensamentos – em nosso caso – dos humanos. Os sete irmãos, na ordem, são Destiny, Death, Dream, Destruction, Desire, Despair e Delirium (Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio). Eles nasceram no início dos tempos, e só vão parar de desempenhar sua função quando Morte “desligar as luzes”.
Os primeiros volumes constituem um arco da história em que alguns magos tentam capturar Morte para – obviamente – não morrer. Entretanto, eles acabam por capturar Sonho, que passa 70 anos preso em uma prisão de cristal, o que causa diversos distúrbios relacionados a sonhar. Ao longo desse tempo, outras quatro histórias paralelas são contadas, quatro casos de pessoas comuns. Uma delas dorme por 70 anos, até gerando uma filha dessa maneira. Outra, não consegue dormir de maneira alguma. Casos parecidos ocorrem no mundo inteiro. Após esse tempo, Sandman consegue se libertar, e precisa restaurar o reino do Sonhar, recuperando os artefatos em que ele dividiu seu poder –um elmo, um rubi e as areias do sonho – e destruindo os sonhos que desertaram – alterando drasticamente a vida de humanos.
Os arcos da história, entretanto, não se sucedem de maneira linear. Ao longo dessa história principal, há alguns contos que, inicialmente, você acha que não vão alterar em nada, mas depois reaparecem. Um exemplo disto é a história de amor de Sonho com uma mortal, de uma civilização muitíssimo anterior à nossa, que tem um papel importante em desenvolver a psique de Sonho. Outro exemplo é o acordo que Sonho fez com um indivíduo em 1498, de que ele não morreria, mas sempre se encontraria com Morpheus naquele local. Curiosamente, em 1698, Sandman se encontra com William Shakespeare, e lhe pergunta “Você escreveria grandes peças, Will? Criar novos sonhos para alimentar a mente dos homens? É essa sua vontade?”, o que também desenrola em outro arco em que Shakespeare escreve uma peça para os habitantes do mundo das fadas.
Particularmente, eu acho essa obra genial. Primeiro, pela capacidade de mexer com coisas fantásticas e do inconsciente coletivo que Gaiman consegue ter. Depois, diversas pequenas sutilezas que fazem a diferença, sempre me fazem ficar extasiado só de lembrar. Por exemplo, Desejo é um ser andrógino, que vive no coração de uma estátua de si próprio.
Há uma épica cena de um jantar com 6 dos perpétuos, – menos Destruição – em que uma borboleta voa perto deles, e Desejo fala que seu papel é fazer com que coisas desejem outras “como uma borboleta a uma vela”. Desespero a corrige, dizendo que são mariposas. Desejo, então, toca a borboleta e ela voa diretamente para o fogo. Outro fato notável é Desejo e Desespero serem irmãos (ou irmãs, pois Desespero é uma velhinha baixinha gorda e desdentada) gêmeos. Um fato tão simples, que pode nos levar a tantos pensamentos.

Ou então, o fato de Sonho se dar muito bem com Morte e não conseguir conviver com Desejo. Ou Morte ser tão alegre e admirar tanto a vida. Gaiman até altera a mitologia grega, quando sugere – muito de leve – que Orfeu é o filho de Morpheus com a musa Calíope, e não filho dela com Oeagrus, um rei da Trácia.

Enfim, se você decidir ler essa obra só por ler, ela é genial por demais. Entretanto, há infindas referências e sutilezas que deixam essa obra muito mais genial se analisada verticalmente. Se você gosta de fantasia, sonhos, filosofia, imaginação e genialidade, esse é o romance gráfico para você ler. Agora.
Por Eduardo Souza

Mario Puzo – O Poderoso Chefão

Exatamente na ponta do “dedão do pé” da cômica geografia da Península Itálica, mobsters trajados de sobretudos e chapéus pretos extremamente elegantes eram responsáveis por um governo paralelo que exercia forte influência em órgãos públicos, como os tribunais e a polícia. Chegando a uma imagem praticamente mitológica, a Máfia de fato tinha – e há fontes que afirmam ainda ter – um grande poder principalmente na região da Sicília, que mais tarde viria a ser prolongado para os países da América do Norte como Estados Unidos e Canadá.
Sugando essa inspiração do sul italiano, o escritor norte-americano Mario Puzo notificou no ano de 1969 uma obra que viria a ser um clássico tanto no papel, como na película – imortalizada por Marlon Brando no papel de don Corleone. Descrevendo com exímia realidade a sociedade mafiosa, Puzo demonstrou quão verdadeira é a premissa maquiavélica de que “é muito mais seguro ser temido que amado” se você quiser ser respeitado em um meio onde tudo é válido per fas et nefas [por meios lícitos e ilícitos]. 

Sinopse:

“Por trás de toda fortuna, há sempre um crime”, Balzac.

O Pós-Segunda (Grande) Guerra Mundial foi marcado por inúmeros “booms“. O “baby boom” resultou em um incrível aumento de natalidade ao redor do mundo, a explosão do comércio consagrou a sobrevivência do sistema capitalista, que por consequência, levou o socialismo à ruínas.
É nesse cenário de caos e ascensão que Vito Corleone é exilado de sua terra natal – Corleone – e segue destino à terra do Tio Sam. Após uma árdua adolescência e maturação da personalidade, seguindo seu sedento instinto por amizade, Vito transforma-se em don; adquirindo respeito das famílias adjacentes e dominando o negócio de jogos ilegais.
Segundo o Código Siciliano, durante o casamento de sua filha Connie, don Corleone, sempre guiado por seu consigliere (conselheiro) Tom Hagen, não poderia deixar de atender a pedidos pessoais, por mais que aparentemente impossíveis de ser cumpridos. Sempre pedindo a amizade do devedor em troca, o padrinho (Godfather) da família Corleone encarregou seus caporegimes (uma espécie de capanga) a trazerem ao mundo real o que lhe foi alertado fazendo “an offer they can’t refuse” [uma proposta irrecusável].

Semanas após o casamento, Vito recebe em seu escritório um traficante de drogas turco de nome Sollozzo, que pede ao padrinho sua influência para que seu processo de tráfico seja um sucesso. Embora envolvido em jogos ilegais, o godfather considerou imoral o envolvimento com entorpecentes, sendo sua resposta um ríspido “não”.
Mas um “não” não pode sempre ser considerado um “não”.
Então, em uma emboscada, don Vito Corleone é baleado por capangas de Sollozzo, que na verdade estavam aliados à Família Tattaglia, criando uma guerra entre as mais poderosas famílias norte-americanas. O filho de Vito, Sonny Corleone, toma temporariamente o lugar de seu pai como chefe dos Corleone, induzindo a cidade a virar um rio de fluxo continuo de sangue, no qual haverá corpos boiando de ambos os lados.

Crítica:

Não é à toa que “O Poderoso Chefão” é considerado uma das melhores novellas não apenas do século XX mas de todos os tempos da literatura ocidental. Sua capacidade de mencionar termos específicos da sociedade mafiosa da época em questão é espetacular, principalmente quando relacionados aos personagens marcantes e únicos – já que cada um tem uma personalidade perculiar.
Não obstante, a storyline é cativante e imprevisível, fazendo com que você consiga ler as mais de quatrocentas páginas da obra em um só fôlego, deixando inclusive uma vontade de reler no mesmo momento em que as últimas palavras se vão.

Sem dúvidas, ler esta obra “it’s an offer you can’t refuse

Por Italo Lins