Chico Buarque de Hollanda – Budapeste

Quando se pensa na figura do carioca Francisco Buarque de Hollanda, inúmeros personagens florescem em nossa mente: o Chico que fora exilado na época da ditadura, o Buarque que produziu a poética canção “Construção”, o Hollanda que na verdade é essencialmente de natureza brasileira.
Chico Buarque, mestre perante a língua portuguesa, penetrou o mundo da literatura com Estorvo (1991), emendando quatro anos depois a obra Benjamim, ambas bastante criticadas pelos leitores e pela mídia.
Em seu terceiro trabalho de escrivaninha – Budapeste – o poeta fluminense apresenta ao público a fictícia história do ghost-writer José Costa, cujo ofício é escrever, permanecendo na penumbra, artigos, discursos políticos e até mesmo livros completos.

Sinopse:

Em sua volta ao Brasil durante um congresso de escritores anônimos sediado em Istambul, o piloto do avião no qual José estava sendo transportado se vê obrigado a fazer um pouso de emergência na Hungria, mais precisamente na cidade de Budapeste, pois a aeronave havia recebido um aviso de que um homem-bomba estava abordo e prestes a detonar o aeroplano. Passando a noite apenas  transpassando os canais da televisão húngara, o escritor apaixona-se pela língua nativa, criando um forte vínculo afetivo com a mesma.

De volta ao Rio de Janeiro, Álvaro Cunha, seu amigo da época de faculdade e agora sócio de uma agência literária, informou a José que ele possuía uma autobiografia erótica a ser produzida sobre o alemão residente em terras canarinhas, Kaspar Krabbe. Aceitando o cargo prontamente, o livro, intitulado como “O Ginógrafo” foi um sucesso de vendas.

Sucesso tão grande que fez Vanda, sua esposa e apresentadora de um telejornal nacional, ler e reler sua obra, não sabendo que seu próprio marido a escrevera. Atordoado pelo fato de sua mulher não dar valor às suas obras, José, somando seus ciúmes do interesse de sua mulher pelo livro sobre  Kaspar Krabbe, quebra o sigilo de sua autoria e em um ato de coragem parte para a Hungria.

Em Budapeste, José encontra problemas no hotel à lá Holden Caulfield do livro “O Apanhador no Campo de Centeio” do escritor J.D Salinger por enfrentar marginais em seu quarto. Saindo para a rua, mais precisamente em uma livraria, tentando achar um livro que o ensinasse a língua húngara, José encontra Kriska, que vira sua professora e amante.

Entre idas e vindas, Zsoze Kósta – como dizia Kriska – arrumou um pífio emprego como gravador de palestras na livraria onde encontrou sua atual namorada, já que sua conta bancaria havia expirado sem motivos aparentes. Em suas adaptações das vocalizações ao papel, José percebe-se como um grande poeta. Grande poeta este a ponto de emprestar mais uma vez suas palavras como ghost-writer aos já consagrados escritores da Hungria.

Por via da ironia, a história do ghost-writer José Costa relatada no livro foi escrita por um dos literatos húngaros com o qual ele havia mantido uma relação profissional. Vendo-se então como um produto de seu próprio texto com sua imagem refletida no espelho metafórico (como mostra a contra capa da edição real do livro de Chico Buarque), o brasileiro se vê dentro de sua  própria autobiografia, percebendo que depois de tanto escrever sobre as outras pessoas, seu trabalho tornou-se sua vida.

Crítica:

Budapeste me faz concluir que as plumas do cão – que na verdade é o rio Capibaribe – do poema de João Cabral de Mello Neto foram parar nas mãos de Chico Buarque, já que sua capacidade de produzir narrativas é sensacional e única. Embora a história pudesse ter prosseguido – não se sabe o que acontece aos personagens brasileiros após o desfecho – e ter sido inclusive mais arrebatadora, Budapeste acaba sendo apenas um passatempo, dando total margem de razão ao escritor português José Saramago quando afirmou “não crer enganar-se dizendo que algo de novo aconteceu no Brasil com este livro”.

Por Italo Lins

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2 thoughts on “Chico Buarque de Hollanda – Budapeste

  1. Cacete!
    Tava ansioso já pra ler esse livro! Agora, toh mais ainda. Chicho Buarque num me parece um cara que mete a mão onde num sabe não.
    Uma vez, ele disse que a música é a arte da juventude, e a literatura é a arte da maturidade. Se for assim, ele passou e está passando por ambas fases muito bem.
    Lê-lo-ei.

  2. É um livro muito bem escrito, velho. A história em si eu achei um pouco boba, mas Chico tem o dom da palavra que consegue deixar bem cativante. Só não vá com tantas expectativas assim hehe

    Curioso eu tô pra ver o filme também.

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