A Música per se

“Sem música, a vida seria um erro.” – F.W. Nietzsche

Não é à toa que esse filósofo recém-redescoberto faz uma afirmação tão forte, que chega a nos lembrar da máxima épica – e muitas vezes mal usada – “Deus está morto”. Nietzsche era um dos muitos filósofos e pensadores que elevavam a música a um patamar de expressão humana superior, talvez, que às “demais” artes.


A música tem uma relação muito íntima com o comportamento humano. Desde os primeiros rituais animistas, religiosos, a música desempenha um importante papel, inegavelmente, alterando comportamentos e sensações. Segundo as filosofias orientais, a música – assim como outras sensações – influencia no fluxo de energia do corpo, e, por isso, altera o comportamento humano. É fácil perceber isso. Entretanto, nos dias de hoje, a música se tornou muito mais popular e, conseqüentemente, banalizada. De toda maneira, nada disso altera seu poder.

Talvez isso já tenha passado pela cabeça de muitos: “como é abstrato ler um símbolo de uma nota musical e imaginar um som”. Entretanto, se você é capaz de ler e compreender esse texto aqui escrito, você está abstraindo muito mais do que se estivesse lendo uma partitura. Letras se relacionam a sons, que se relacionam a outras letras para formar palavras, que representam conceitos, que você consegue entender. Como uma partitura é diferente disso? Em nada. Se cada nota é um som, sons juntos formam músicas. Então qual a diferença entre um texto e uma música?


Uma palavra se associa a um conceito, que você abstrai e compreende. Isso é responsabilidade do lado esquerdo do seu cérebro, o racional, a máquina de encontrar padrões. Uma música, entretanto, não possui um conceito em si. Por isso é uma arte. Pessoas diferentes podem interpretar a mesma música com sentimentos completamente diferentes. Isso, de qualquer maneira, não significa que um texto não possa afetar seus sentimentos – e como podem. Essa ligação, todavia, é indireta, pois, ao ler uma palavra, você associa a um conceito, e esse conceito está relacionado a uma memória no seu cérebro, que traz o sentimento.

É possível chegar à conclusão, então, que uma palavra é associada a um conceito e a música, a um sentimento. Claro que é possível – e praticamente inevitável – a partir de um conceito, sentir um sentimento e vice-versa.

Vale ressaltar também a relação íntima que a música tem com as demais artes. A mais particular, em minha opinião, é com a pintura. É impressionante como alguns artistas conseguem abstrair uma música a tal ponto de conseguir representá-las (músicas, não letras, não poemas) em forma de imagem. Como Israel Pedrosa descreve genialmente no seu livro Da Cor à Cor Inexistente, os sons correspondem à cores. Não é por acaso que as músicas possuem harmonias tonais, e as pinturas também (apesar de ser chamada de harmonia cromática, normalmente). Um tom de uma música, um tom de uma cor. Existe um tipo de nota em teoria musical chamada de nota cromática. Compor uma tela ou uma música. Quanto mais semelhanças são necessárias?

Devido a pouco conhecimento, não sei muitos exemplos disso. Entretanto, posso citar Vangelis, que compôs músicas baseadas em quadros de El Greco, que, se escutada a música e vistos os quadros, a sensação é a mesma. Dá pra se ter uma idéia por esse vídeo. Cada movimento dessa música de Vangelis deve corresponder a uma série de quadros ou a um quadro só.

 

Você pode fazer essa correspondência indiretamente, entretanto. Ao ouvir uma música, sentir, digamos, agitação, e compor uma pintura com uma harmonia correspondente.
Enfim, a música per se, é uma forma de expressão única. Desperta sentimentos facilmente, quer o ouvinte queira, quer não. Pode despertar reações, estímulos – ou seria coincidência os tambores de guerra, os trompetes? – de maneira, por vezes, incontroláveis. Pode aumentar drasticamente sua produtividade, ou lhe deixar extremamente irritado. E vai muito além disso. Músicas são obras de arte atemporais em sua essência. Logo, pense duas vezes antes de falar que o que você faz com seu violão é música. 

Por Eduardo Souza

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8 thoughts on “A Música per se

  1. Uau, mas que bela estréia nós temos aqui! Meus parabéns pelo texto, cara! Extramemente bem escrito e um tema realmente muito interessante.

    Música é uma arte, é fonte de expressão, algo abstrato, concreto (já que são ondas sonoras) e a-temporal – por mais que seu emprego seja distinto em várias épocas.

    As notas de menores comprimentos de onda realmente têm uma característica de acalmar, tanto que muitos psicólogos usam essa técnica musical – tanto na questão de animais “cantarolando” como com o uso de instrumentos eruditos – para deixar o corpo menos tenso.

    Por mais que cada estilo, cada instrumento, cada acorde ou vibração tenha sua respectiva função. Que no geral, é causar sentimentos de qualquer magnitude.

    De fato, muito boa essa postagem, cara!

  2. Como Itinho falou no post anterior, o Animus sofreu um acréscimo de mais de 100% por cento, com toda certeza.
    Achei genial a junção de música, Nietzche e pintura num texto só.
    Parabéns pelo post excelente, cara. *-*

  3. Valeu, gente 😀
    Fico feliz de ter sido bem recebido assim!

    Fato é que eu sou bem suspeito por ter relacionado logo com a pintura :~ HEAUHAEUEAHUAE
    Mas, de verdade, é bem interessante essa relação tão íntima.

    E ainda tem toda essa dimensão física do som, como Italo disse, que eu sequer mencionei no texto.
    E o foda de música é quando você associa um sentimento muito forte a ela, conscientemente ou não. Aí é que é fode tudo mesmo :~
    Eu já li sobre como o funk, por exemplo, com aquelas batidas, alteram o comportamento das pessoas que frequentam os bailes. Por isso, as coisas ficam ainda mais “primitivas” ali. Porque mexe com as energias do chakra raiz – o vermelhinho lá na foto – que tá associado aos instintos mais básicos.

  4. Essa questão da banalização da música é o fim mesmo. Não é dado mais o mesmo valor à música como era dado antes. Nem por quem escreve, nem por quem consome. Mas, ainda bem, toda regra tem sua exceção, né?

    “Pessoas diferentes podem interpretar a mesma música com sentimentos completamente diferentes.” É aí que eu percebo cada vez mais sentido naquela frase: “há várias formas de se ver o mesmo quadro”. Quando você escuta uma música, há um universo dentro de você (e ele é único e somente seu) e a música penetra nele, encaixando-se, confundindo, mexendo, embaralhando, consertando… Enfim.
    O poder da música é algo assustador, de fato.

    E esse vídeo se encaixou perfeitamente. 🙂

    Ótimo teeexto, Eduaardo! :}

  5. Sim, Gabs! 😀
    E as pinturas também têm isso! HAEUUAEHAE
    Claro que há sentimentos e/ou sensações que são meio universais, como a gestalt, que é o estudo de como as coisas influenciam as pessoas, estuda. As cores, os sons, os objetos, e assim por diante, tem o caráter psicológico e emocional. Há “regras genéricas” para essas coisas, tipo, vermelho dá fome e agita, saca?
    Mas quando parte pra experiência própria, de fato, cada um é um universo.

    Brigado, Gabs 😀

  6. que lindo, isso… 🙂

    muito bom, é incrível como toda a arte toca a pessoa de uma forma diferente, se você se deixar levar ao observar um quadro, uma foto, escutar uma música, assistir (ql é a regencia de assistir mesmo???) um filme… até provar uma comida, você termina sendo levado pra'onde o artista quer e isso é fantástico(!)

    muito bom, o texto

  7. Não tirando o mérito dos fantásticos modos de expressão artística, mas particularmente a música é o mais fabuloso em pra mim. música é mais que um conceito, é mais que palavras, é mais que pintura,sentimento e técnica, música pra mim é um conjunto de tudo isso que no final ganha um nome novo, e não existe palavras que consiga definir. Essa frase de Nietzsche é uma das frases mais bonitas que um ser humano podia escrever. tonão seu post foi muito foda, forte abraço!

  8. muito certo, toda vez que compõe uma música, coscientemente claro, o compositor deve pensar nos efeitos que as notas tem sobre as pessoas; acordes maiores produzem músicas mais alegres, em quanto acordes menores produzem músicas mais tristes.
    Como se estivesse pintando, o compositor tem que ter cuidado com as “cores” que usa. Cores demais ou de menos, extragam qualquer composição.
    Mas, acima de tudo, música é sentimento, é impressionante como é bom canalizar emoções em acordes músicais.

    abraço.

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