Sandman e o Sonhar

Aclamado como um dos maiores escritores de língua inglesa, Neil Gaiman é autor de diversas obras fantásticas de fantasia (não pude evitar o trocadilho). Com uma gama de trabalhos extensa que vai desde O Livro da Magia – livro com uma história demasiadamente parecida com Harry Potter, de 1989, de onde Rowling provavelmente tirou diversas idéias – até roteiros de filmes como Beowulf, Gaiman altera, subverte e cria realidades.

Entre suas diversas obras, Sandman é, inquestionavelmente, a que lhe deixou mais conhecido.
Antes de tudo, entretanto, definamos alguns pontos. Primeiro, Sandman se encaixa em um tipo de narrativa chamada de graphic novel. Traduzindo, seria um romance gráfico, não “novela gráfica”. Entendamos esse “romance” como o estilo de narrativa em prosa e esse “gráfico” como uma representação dessa narrativa, misturando, assim, um filme – em que a narrativa é visual – e um livro – em que a narrativa é escrita. Isso se diferencia das histórias em quadrinhos – e dos mangás – primeiro, pelos temas, e, depois, pela narrativa em si – quadrinização e seqüenciação, por exemplo.
Agora, porque o nome Sandman? Esse é um dos nomes dados a uma figura da mitologia dinamarquesa, Ole Lukoeje (Olavo Fecha-olhos), que sopra areia nos olhos das crianças para que elas durmam tranquilamente. Esse é apenas um dos diversos nomes de Sonho, um Perpétuo, que governa o Sonhar. Oneiros, Morfeus, Oniromante, Lorde Moldador, Kai’ckul, são outros nomes que ele recebe, citados ao longo da história; todos nomes de deuses ou figuras mitológicas que controlam os sonhos, advindos de diversas fontes.

Os perpétuos são entidades superiores aos deuses, que, ao mesmo tempo em que controlam a realidade e o universo em si, são também formados pelos pensamentos – em nosso caso – dos humanos. Os sete irmãos, na ordem, são Destiny, Death, Dream, Destruction, Desire, Despair e Delirium (Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio). Eles nasceram no início dos tempos, e só vão parar de desempenhar sua função quando Morte “desligar as luzes”.
Os primeiros volumes constituem um arco da história em que alguns magos tentam capturar Morte para – obviamente – não morrer. Entretanto, eles acabam por capturar Sonho, que passa 70 anos preso em uma prisão de cristal, o que causa diversos distúrbios relacionados a sonhar. Ao longo desse tempo, outras quatro histórias paralelas são contadas, quatro casos de pessoas comuns. Uma delas dorme por 70 anos, até gerando uma filha dessa maneira. Outra, não consegue dormir de maneira alguma. Casos parecidos ocorrem no mundo inteiro. Após esse tempo, Sandman consegue se libertar, e precisa restaurar o reino do Sonhar, recuperando os artefatos em que ele dividiu seu poder –um elmo, um rubi e as areias do sonho – e destruindo os sonhos que desertaram – alterando drasticamente a vida de humanos.
Os arcos da história, entretanto, não se sucedem de maneira linear. Ao longo dessa história principal, há alguns contos que, inicialmente, você acha que não vão alterar em nada, mas depois reaparecem. Um exemplo disto é a história de amor de Sonho com uma mortal, de uma civilização muitíssimo anterior à nossa, que tem um papel importante em desenvolver a psique de Sonho. Outro exemplo é o acordo que Sonho fez com um indivíduo em 1498, de que ele não morreria, mas sempre se encontraria com Morpheus naquele local. Curiosamente, em 1698, Sandman se encontra com William Shakespeare, e lhe pergunta “Você escreveria grandes peças, Will? Criar novos sonhos para alimentar a mente dos homens? É essa sua vontade?”, o que também desenrola em outro arco em que Shakespeare escreve uma peça para os habitantes do mundo das fadas.
Particularmente, eu acho essa obra genial. Primeiro, pela capacidade de mexer com coisas fantásticas e do inconsciente coletivo que Gaiman consegue ter. Depois, diversas pequenas sutilezas que fazem a diferença, sempre me fazem ficar extasiado só de lembrar. Por exemplo, Desejo é um ser andrógino, que vive no coração de uma estátua de si próprio.
Há uma épica cena de um jantar com 6 dos perpétuos, – menos Destruição – em que uma borboleta voa perto deles, e Desejo fala que seu papel é fazer com que coisas desejem outras “como uma borboleta a uma vela”. Desespero a corrige, dizendo que são mariposas. Desejo, então, toca a borboleta e ela voa diretamente para o fogo. Outro fato notável é Desejo e Desespero serem irmãos (ou irmãs, pois Desespero é uma velhinha baixinha gorda e desdentada) gêmeos. Um fato tão simples, que pode nos levar a tantos pensamentos.

Ou então, o fato de Sonho se dar muito bem com Morte e não conseguir conviver com Desejo. Ou Morte ser tão alegre e admirar tanto a vida. Gaiman até altera a mitologia grega, quando sugere – muito de leve – que Orfeu é o filho de Morpheus com a musa Calíope, e não filho dela com Oeagrus, um rei da Trácia.

Enfim, se você decidir ler essa obra só por ler, ela é genial por demais. Entretanto, há infindas referências e sutilezas que deixam essa obra muito mais genial se analisada verticalmente. Se você gosta de fantasia, sonhos, filosofia, imaginação e genialidade, esse é o romance gráfico para você ler. Agora.
Por Eduardo Souza
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5 thoughts on “Sandman e o Sonhar

  1. Pelo pouco que eu conheço de Sandman eu posso afirmar que é algo bem surreal. Na verdade, sempre que tratam de sonhos, algo fora do comum vem à tona.

    E eu acho que o HQ tem um potencial a mais porque não se trata apenas de uma storyline coerente ou personagens marcantes, mas própria estrutura gráfica é um diferencial, se não, algo fundamental.

    Eu considero Sandman algo pouco conhecido – por mais que o Gaiman já seja famoso por seus trabalhos – mas acho uma pena que ele realmente só venha a ser reconhecido quando fizerem alguma versão do cinema, que por sinal, caso chegue às telonas, tem de tudo pra ser fantástico.

  2. AEHUHEAHAUEHUAEH Tem que ver isso ae, Guilba 😀
    Se quiser, eu te mando os links pra baixar :B

    Italo,
    Sim 😀 a narrativa visual, apesar de delinear a sequencia, ainda deixa muito espaço para a imaginação do leitor fluir no texto. E isso torna muito interessante.
    E, tipo, ele é famoso no meio que gosta dessas coisas, né :B ele não é muito da cultura pop não.

  3. Poxa… parece realmente ser uma história muito boa! Eu nunca li nenhuma obra de Gaiman, mas me deu vontade de ler Sandman. :}

    E quando Sonho é capturado o mundo fica sem sonhos? O.O Tem alguma ligação?
    Caso tenha, que terrível 😦

    Mas bem, você conseguiu! Me deixou com vontade de ler Sandman mesmo ¬¬ aheuaheuaheuahea!

  4. Sim, Gabs. Ocorrem várias coisas diferentes :B Ao redor do mundo, algumas pessoas não sonham mais, outras ficam presas nos sonhos, e etc. O principal foda são alguns sonhos (mais pesadelos, na verdade :~) que desertam o Sonhar. Aí eles vêm pro mundo, manipular as pessoas e etc. É foda :B

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