Tiros em Columbine

Acredito que seja unânime o pensamento de que nós humanos, de uma forma geral, possuímos uma ânsia descomunal por violência. Reprimido ou não, esse instinto animalesco – sim, somos animais! – é descontado em nossa sociedade indiretamente em forma de filmes, jogos eletrônicos, desenhos animados, programas de televisão, que além de serem uma incrível fonte de lucro e expressão de sentimentos, cravam consequências relevantemente negativas e positivas em qualquer nação.
Sim, positivas! Ou afinal, quem nunca ficou mais tranquilo depois de detonar o personagem do seu irmão  mais velho em Street Fighter ou Mortal Kombat? É terapêutico, sem dúvidas!

E como um nexo de causalidade, essa nova forma de demonstrar que pessoas diferentes existem e merecem ser ouvidas com urgência – como disse Aristóteles, “o homem é um animal político” – o massacre de Columbine, ocorrido no dia 20 de abril de 1999, deixou sua marca para o mundo da maneira inadequada.

E percebendo que todos amam tragédias gregas ao melhor estilo de Sófocles ou Ésquilo, o senhor Michael Moore decidiu basear-se na brutalidade de Columbine para lançar seu documentário “Tiros em Columbine“, que até certo ponto merecidamente, recebeu inúmeras premiações cinematográficas.
Sinopse:

O Massacre de Columbine foi liderado pelos estudantes Eric Harris (18 anos) e Dylan Klebold (17 anos), dois everyday normal guys revoltados com o estilo de vida imposto pela sociedade consumista que,  não conseguindo expressar seus sentimentos em arte, mataram treze pessoas e feriram outras vinte. Logo após o extermínio, ambos se suicidaram.

Michael Moore então abre uma discussão acerca da facilidade de adquirir uma arma nos países em que a própria Constituição é conivente com a posse de pistolas e metralhadoras, pois defendem o direto dos “bons cidadãos” manterem o costume de praticar o “esporte” da caça – ah, como se isso mudasse muita coisa, não?
Durante o documentário, um breve glimpse do stand-up comedy do comediante Chris Rock aparece, para que de forma irônica, todos percebam como é fácil e barato estar armado nos Estados Unidos.
Chegando à conclusão de que as armas também são facilmente compradas em países como Canadá e Inglaterra – que possuem um índice de mortalidade extremamente menor que os Estados Unidos – o sr. Moore, munido com Matt Stone e Trey Parker (produtores do desenho South Park) dirigiu um mini-vídeo que conta a história dos ianques.
Por sinal, Matt Stone estudou no Instituto Columbine e pensava de maneira parecida com os assassinos, mas que, ao invés de virar um serial killer, expressou sua raiva de outra forma.
 

O cantor Marilyn Manson aparece no documentário e une-se ao pensamento de Moore, ou seja, manifesta-se contra o armamento indiscriminado. Diretores  de escolas, vítimas – que foram feridas – no Massacre e pensadores pró-armas aparecem no filme, liberando um debate dualista no ar. É fácil perceber que ambas as correntes são defendidas com unhas e dentes, por mais que no final a teoria contra as armas venha a ser mais difundida no documentário.

Crítica:

Tiros em Columbine” foi muito bem dirigido e a temática foi mostrada de uma maneira bem interessante e até certo ponto, dramática. O que me deixa com uma pergunta na ponta da língua: “por que fatos isolados são tratados com tanto remorso, mas acontecimentos gerais são aceitos como normais?” É óbvio que nesse exato momento, a algumas ruas de distância de você – ou nem isso – alguém está estragando sua vida com drogas, sendo estuprado ou até passando por necessidades fisiológicas básicas como se alimentar!

Mas afinal, por que isso não choca a sociedade?

a) Porque somos estúpidos ao achar que as coisas devem ser assim.
b) Porque é uma maneira de tratar uma angústia pandêmica.
c) Porque pessoas pobres morrendo têm um valor inferior.

Art. 5º – Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.”

When I look to myself, what a wonderful world…” e fortes aplausos para a nossa democracia!

É, para tudo tem um jeito quando o chão queima o seu pé. Ainda está pra nascer uma um movimento social que englobe todas as pessoas no conceito de direitos humanos. Revolução Francesa? Bem-vindos ao mundo da burguesia monsieur Voltaire e mon petit Danton!

Mas voltando à temática da causa da violência, eu acredito piamente que esses meios modernos de contato com a o gênero agressivo citados no início não são os únicos elementos responsáveis pelo surgimento dessa espécie. Parece óbvio que os pais têm uma função fundamental na instrução moral dos filhos, já que o mundo hodierno não é um dos mais respeitadores da figura humana – visto que tudo é descartável e as ambições (exemplo: tentar ser famoso) são irrelevantes.
Embora nós não possamos esquecer que um sistema educacional público de qualidade é indispensável quando se pensa em uma vida digna [muito obrigado por isso, pseudo-governantes e ministros da educação deus-ex machina!]

Já passou da hora de acordar pra realidade e fazer alguma coisa, dies geschieht jetzt! Faça serviços comunitários, doe livros, vote com consciência e exija seu direito dos responsáveis! O tempo é de união, mas antes disso, informe-se e seja útil para a história, não apenas mais um copiador de teorias. Como falado no filme Waking Life, “100% ação e 0% teoria não é diferente de 0% ação e 100% teoria”, então vamos deixar de ser lunáticos e fazer algo! Yes, we can! [perdão pelo lugar-comum obamístico, mas é extremamente lógico]

Na questão da posse de armas, para quê você quer se defender em casa se a maior parte da população mora em prédios que já contam com guaritas? Eu sei que a polícia não funciona como deveria e que a criminalidade é absurda principalmente no Brasil, mas pra quê você se tornar refém de sua própria liberdade? Para mim parece claro que violência só alimenta a violência. A função do governo não é apenas desarmar os civis, mas também os bad guys, já que contamos com um sistema jurídico horripilante. E os Estados Unidos não ficam atrás, já que a dupla que detonou a imagem do Instituto Columbine tinha ficha na polícia e receberam apenas 45 dias de serviço comunitário como pena.

Diga-me você então, acha que está tudo certo com o mundo?

Para fazer o download do filme via torrent, clique AQUI.

Por Italo Lins

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2 thoughts on “Tiros em Columbine

  1. Genial, Italo!
    Um texto muitíssimo crítico e irônico na medida certa.

    Particularmente, sou muito inativo e indiferente quando às necessidades da sociedade e das pessoas necessitadas. Não sinto vontade de fazer serviços comunitários e etc. Não vou ser hipócrita, dizendo que “não tenho tempo”. Mas, com as pessoas ao meu redor, eu tento ser o mais humano possível. Há limites para tudo, claro, mas enfim. Eu respeito do faxineiro ao professor da mesma maneira, tentando fazer o melhor dentro do meu alcance no dia-a-dia.

    De todo modo, não concordo com a posse de armas, também, apesar da revolta e do sentimento de injustiça.

    Achei muito legal também as referências históricas, principalmente com relação à revolução francesa. Haheueauhae Acho que um dos maiores equívocos históricos é achar que a Revolução foi um movimento universal. Na verdade, o interesse de poucos, executados por muitos.

  2. Valeu, toney!

    É verdade cara, é um negócio complicado principalmente pra classe média essa história de ver de perto a realidade social. Mas eu acho que o mais difícil é dar o ponta pé inicial e transformar esses atos “de caridade” lugar-comum.

    Por sinal – espero que não seja viagem minha – mas essa história de “caridade” tem um quê tão de superioridade, né não? Longe de teorias do gênio Foucault, mas isso tem um pouco de exercer domínio.

    Mas enfim, é um assunto delicado e que precisa ser debatido mais vezes.

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