Filosofia e Ciência

Filosofia significa, literalmente, amor – ou afinidade – ao conhecimento. Seja qual for a ordem desse conhecimento, a filosofia permeia-o, pois é a mãe de todas as outras ciências. Se nos lembramos dos seus primórdios, chegaremos aos filósofos pré-socráticos, que tentavam explicar a natureza e a origem da matéria e da vida através da filosofia. Mais tarde e a princípio, a filosofia desdobrou-se em alquimia, física e química.


Inicialmente – mesmo com Descartes e Newton, e até, Kepler -, não se faziam claras separações entre “filósofo” e “físico”, por exemplo. Descartes foi um gênio em sua época, sendo desde matemático a filósofo. Kant possuia um pensamento extremamente analítico e linear, que daria inveja a muitos matemáticos. Filosofia e ciência possuem relações muitíssimo estreitas entre si.

Além do mais, o que é uma ciência? Partindo do preceito mais básico, Descartes desenvolveu o método científico – base da ciência moderna – baseado na premissa de que deveríamos raciocinar para existir de fato. O que nos leva a pensar mais do que a filosofia?
Nada. Eu diria que a filosofia é uma ciência que observa fatos, desde relações humanas até metafísicas, e, a partir disso tira conclusões.

Por isso, a filosofia é sempre tão complexa, porque ela é uma ciência holística. Ao analisar, digamos, o amor, o filósofo não pode jamais se desprender de si, entretanto, não pode se deixar levar como um poeta ou um escritor. É complexa, também, porque a experiência do filósofo tem um papel importantíssimo na edificação de suas idéias; a psique do indivíduo é definível pela sua filosofia. Quem seria Nietzsche sem suas intermináveis e inexplicáveis dores de cabeça, suas doenças constantes?

O método científico, como o entendemos hoje, foi estruturado por Descartes, no início do século XVII, e foi sendo aprofundado – a partir dos mesmos axiomas – desde então, o que nos cria a primeira incoerência (que depois explicarei). Quem firmou o método científico de Descartes foi Newton, testando empiricamente todas as suas proposições e provando-as corretas na realidade física em que vivemos, fundando a física newtoniana.

Entretanto, o método cartesiano tentava ver o mundo inteiro – e, consequentemente, os elementos que o compunham – como uma complexa junção de elementos básicos. Logo, se pudéssemos dominar o conhecimento acerca do elemento básico – ora, ele é tão pequeno, deve ser fácil entendê-lo! -, dominaríamos o conhecimento acerca do todo, certo? Errado.

A primeira incoerência à qual eu me referi foi o fato de Descartes ter criado todo o método científico – em que pseudocéticos, pseudocientistas e materialistas ignorantes tanto se apóiam – a partir da premissa de que Deus existe, tal como a Igreja Católica o mostrava em 1600 e pouco. Sim, toda a base do método científico que prima pela ciência exata e pelas provas materiais do mundo se baseiam no axioma de que Deus não só existe como criou o mundo em 6 dias, moldou do barro o homem, tirou uma costela dele, montou a mulher, mandou um cara botar todos os animais num barco gigante e inundou o planeta inteiro, e assim por diante, coisas que todo e qualquer homem da ciência deve repudiar.

Enfim, isso é só um humilde resumo do começo de como Kapra explica a invasão da concepção cartesiana de ciência em todas as áreas do conhecimento humano em O Ponto de Mutação, leitura recomendada. Ele também explica como essa visão ajudou – porém, no presente, estar limitando – o desenvolvimento do conhecimento científico em todas as áreas.

Embora, como vimos, o método científico empírico cartesiano seja um tanto falho, – principalmente para as ciências humanas -, a filosofia não deixa de seguir esse paradigma, até certo ponto. Quais são os passos do método científico? Segundo nossa grandessíssima sábia Wikipedia, leremos:
 
“O método científico consiste dos seguintes aspectos:

  • Observação
  • Descrição – O experimento precisa ser replicável (capaz de ser reproduzido).
  • Previsão – As hipóteses precisam ser válidas para observações feitas no passado, no presente e no futuro.
  • Controle – Experiência controlada é aquela que é realizada com técnicas que permitem descartar as variáveis passíveis de mascarar o resultado.
  • Falseabilidade – toda hipótese tem que ser falseável ou refutável. Isso não quer dizer que o experimento seja falso; mas sim que ele pode ser verificado, contestado. Ou seja, se ele realmente for falso, deve ser possível prová-lo.
  • Explicação das Causas – Na maioria das áreas da Ciência é necessário que haja causalidade. Nessas condições os seguintes requerimentos são vistos como importantes no entendimento científico:
  • Identificação das Causas
  • Correlação dos eventos – As causas precisam se correlacionar com as observações.
  • Ordem dos eventos – As causas precisam preceder no tempo os efeitos observados.”
O que é a filosofia, além de uma observação de um fato – no termo mais amplo da palavra -, sua descrição, a tentativa de previsão e a explicação das causas desse fato? A filosofia não é, entretanto uma ciência isolada e especializada. De fato, nenhuma ciência o é, ao contrário do que o fazem acreditar. Mas a filosofia serve de base conceitual e prática para todas as outras. Desenvolver uma ciência sem um conceito – filosofia – em seu apoio é inconcebível. Entretanto, infelizmente, a comunidade científica hoje em dia o faz. Como vimos – ou deveríamos ter visto – na entrevista com Amit Goswami, os cientistas se utilizam da negligência benigna para não “dar corda” a essas idéias.

Hoje em dia, com Kapra e Goswami – só pra constar, são os únicos que conheço, entretanto, existem outros -, há um movimento de consciência de que a micro-especialização não é de todo benéfica. Por isso essa tentativa de resgate da filosofia. Por isso ambos cientistas citados têm essa relação tão íntima com a espiritualidade e a filosofia. E, por isso, a filosofia, a ciência que une as ciências, não deve ser dissociada, separada das demais.
Por Eduardo Souza
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One thought on “Filosofia e Ciência

  1. Excelente abordagem da filosofia, meu amigo! Doncordo com cada ponto e vírgula do texto em relação à união da filosofia com todas as outras ciências.

    Só a nível de informação, muitas dessas premissas filosóficas baseiam-se nas quatro causas aristotélicas.

    As quatro causas são classificadas em material (do quê é feito o objeto de estudo?), formal (a coisa em si), causa eficiênte (aquilo que dá origem ao processo) e causa final (qual seu uso?)

    É como se você pegasse um lápis e falasse: ele é feito de madeira, se chama lápis, foi feito pela derrubada de um tronco de madeira e é utilizado para a escrita.

    E, se não saíssimos disso, o que seria esse dispositivo pelo qual nos comunicamos – o computador? Absolutamente nada, porque sem a filosofia, não teríamos saído do ponto zero.

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