Amor, Beatles e Jesus

“All you need is love, love
Love is all you need”

– John Lennon
Acredito que não preciso falar mais nada sobre essa frase. Muito presente em vários quem sou eu, nomes de álbuns e depoimentos pelo Orkut, esse trecho é muito conhecido de qualquer um. Entretanto, será que você sabe o que realmente significa?
Os gregos – sábios gregos –, ao contrário de nós, possuíam mais de uma palavra diferente para designar alguns dos diversos sentimentos que estão contidos na pequena palavra “amor”. São elas:
Agape, a mais genérica, designava afeição, ao contrário da atração sugerida pela palavra eros. Pode significar grande admiração.

Eros é o amor que inclui paixão, a atração. Ao contrário do que se pensa, não necessariamente inclui o desejo sexual, já que Platão desenvolveu o conceito de amor platônico a partir dessa palavra.
Philia é o sentimento entre amigos, pessoas próximas, familiares, ou gosto por fazer algo.

Storge é o amor natural, que se sente pelos pais e pelos filhos ou em relações familiares. Também é usado com o sentido de conivência.

Thelema se traduz, literalmente, como desejo. Todavia, eu preferiria traduzi-la como vontade. É o amor pelo ofício, por fazer algo.

Muito embora, na maioria das vezes, esses “amores” não sejam distinguíveis entre si, essa divisão certamente ajuda na expressão. Em nossa língua – e, principalmente em nossa época –, é difícil – e, por vezes, constrangedor – falar de amor. A carga semântica que essa palavra carrega é enorme, e as experiências emocionais são extremamente presentes em nosso cérebro. Lembram como eu falei no post de música sobre como as palavras afetam os sentimentos?

Acredito ser óbvio para todos – eu sempre cometo esse erro – que Lennon não quis dizer para amarmos todos da maneira eros. Mas, na verdade, o que significa amar a todos, como Lennon Jesus disseram?
Certamente, não significava sorrir falsamente e dar um “bom dia” quando cruzar com uma pessoa com a qual, inevitavelmente, você teria que passar mais de 15 segundos em um raio de 2 metros de distância. Muito menos conversar com aquela pessoa que você odeia – não, pra amar alguém, você não precisa gostar dela! – só para manter as aparências de boa convivência.
Sim, seria ótimo se todas as pessoas ao seu redor fossem fáceis de se conviver, mas isso não ocorre. Acontece de você não gostar de alguém e pronto, porque há pessoas assim por aí. É impossível ser um grande amigo de todos. Isso significa que eu não deva amá-las? Não.

É possível que você seja uma pessoa muito simpática, todos gostem de conversar com você, ninguém nunca lhe culpe de nada, nunca discuta com você e sempre gostam da sua companhia. Isso significa que você as ama e elas te amem? Não e não.

Deixando de lado os sentidos mais delicados da palavra amor – por se relacionarem com experiências de cada indivíduo –, eu gostaria de falar sobre o amor do qual o mundo de fato precisa. O amor do qual falavam Lennon, Jesus, Buda, Madre Teresa e Gandhi. É o amor que você pode ter por pessoas que você não conhece, pessoas que você nunca viu e pessoas que sequer nasceram.

Esse amor é pura e simplesmente o respeito a um ser humano. O saber do limite que você tem que ter para não violar a integridade moral de outra pessoa.

Eu não digo para você sair correndo pela rua, jogando amor em forma de arco-íris e estrelinhas por aí. Nem para sair dando abraços no pedinte que está na esquina da sua casa agora, ou mandar comida para as pessoas na África que estão morrendo de fome ou fazer campanhas pela paz. Tudo isso são macro-conseqüências de um sistema econômico, político, educacional, de saúde falhos, decadentes, caindo aos pedaços.

Nem peço para você sair sorrindo o tempo inteiro ao longo do seu exaustivo dia, esperando que cada uma das pessoas que você olhar lhe responda com um sorriso igualmente falso, fazendo parecer que tudo está certo para ambos. Entretanto, não acho que você deveria ignorar ou mandar ao inferno aquele vizinho que você odeia quando sobe no elevador com ele. Isso, muitíssimo infelizmente, são, de fato, regras sociais. Hipocrisias com as quais nós precisamos conviver e ser coniventes.
O modo de expressar o amor a que eles se referiam – e que nos é possível fazer no dia-a-dia – é muito mais simples. É ter consciência de que aquele outro pedaço de carne ambulante com quem você fala é outra pessoa, tal qual você. Apesar das infindas diferenças, experiências, ela tem tantos sonhos, desilusões e problemas quanto você. Ou mais. Ou menos. Isso é irrelevante.

A única coisa que você pode oferecer para os outros é você. Seja apenas sincero e não espere nada em troca. Você não é perfeito e você não vai agradar a todos. Entretanto, não aja, citando Schopenhauer, “Par sum unicuique et moriatur qui me contemnit!” (“Sou igual a qualquer um, e morra quem me desprezar!”). Se alguém não gosta de você, é mais um motivo para você respeitá-la. Trate-a como alguém que poderá – e provavelmente irá – mudar de opinião futuramente. Não tenha pressa para agradar os outros.

Você também possui algo que irrita outrem. Se você se sente mal com isso e acha que deve mudar, busque isso. Queira mudar e tente. Se você acha que está satisfeito com a pessoa que você é – não deveria, mas a opção é sua –, continue agindo para com os outros da mesma maneira. Só não espere sempre encontrar alguém que vai respeitar sua estupidez, já que há outras pessoas que pensam que o problema são os outros.
Ser simpático é bom. Dar um sorriso sincero é importante, para fazer com que as pessoas se sintam bem. Mas ninguém pode ser assim sempre. Como eu disse, é uma hipocrisia necessária, porém, tentar torná-la o mais diminuta possível é o melhor que você pode fazer.

O amor que é necessário é muito mais uma questão de interiorização, introspecção, para que você trate os outros conforme você gostaria de ser tratado. Amar uns aos outros como a si mesmos, porque a humanidade é unida inconscientemente, então, de certo modo, todos somos um. Tudo parte do auto conhecimento, porque, principalmente com pessoas, você só recebe aquilo que oferece.
Por Eduardo Souza
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6 thoughts on “Amor, Beatles e Jesus

  1. Uma conhecida uma vez disse que sempre sorria e dava bom dia, de coração, para porteiros, cobradores, atendentes e afins porque os coitados passam o dia todo sem conversar com ninguém e possivelmente têm uma insatisfação com o trabalho. O ato de sorrir e dar bom dia não afetava de maneira negativa o seu dia, mas podia melhorar o dia de merda que essas pessoas possivelmente têm.

    Eu segui o exemplo.

    Dica de leitura que tem muito a ver: Como Ser Legal, de Nick Hornby.

  2. MUITO bom o texto cara, a linha de raciocínio está sensacional.

    Bem, esse primeiro comentário vai ser em relação ao amor religioso, pois eu acho que ele é uma tentativa frustrada, mas que até certo ponto suporta boas consequências.

    É complicado. Eu tiro essa conclusão porque o amor não é algo imposto, nem aprendido, mas simplesmente sentido. Como você mostrou pela origem da palavra, amor não tem nada a ver com “fazer o bem”, mas simplesmente é uma admiração moral ou física. Claro que através dessa admiração é possível alcançar algo benevolente, mas espere dois segundos: “quem classificou o bem e o mal fomos nós, então qual é a essência dessa dualidade?”, pra mim, simplesmente não existe.

    Como dizia o próprio Schopenhauer citado na postagem, o humano é unicamente auto-referente. Por isso, eu não acredito em boas ações por amor ao próximo – por mais que isso seja insconciente. Eu vejo absolutamente todas as ações produzidas por nós como um reflexo do nosso próprio bem-estar, mesmo que contraditoriamente essa ação tenda a nos fazer tristes. Por exemplo, se você deixar de fazer alguma coisa por outra pessoa, você se sentiria culpado ou triste – porque de certa forma iria contra seus princípios – então você vai lá e faz isso por ela, mesmo que seja prejudicial a você.

  3. Já finalmente em relação às religiões, eu vejo uma mensagem de que a raiva é algo ruim, e que o amor deve ser sempre buscado. Concordo em partes. Acredito sim, que não há problema em sentir raiva do outro, tanto que somos humanos imperfeitos e temos sentimentos ainda confusos. E em relação ao amor, sinto até um sentimento de culpa caso não consigamos amar, já que a própria igreja medieval falava “se você não amar o próximo, você irá ao inferno”, entrando em contradição com o próprio amor de Deus perante nós.

    Eu não sei exatamente o que é o amor, mas eu o traduzo como uma admiração muito grande. Seja entre amigos, namorados, pais e filhos ou pessoas que ainda estão para nascer – como você falou. Concordo com as letras do Beatles, mas eu acho que o amor deve ser algo florescido, e o respeito, algo conquistado. Inevitável é o fato de que nós temos muito a mudar.

    Repito, não devo ser interpretado como “o amor é irrelevante”, já que eu concordo com os Beatles.

    (droga, dava pra ter feito um post com esse comentário AEIHAEIUHAEU)

  4. Hum, adoro pontos de vista diferentes. :B
    Primeiro, Formiga.
    Concordo plenamente, e eu sempre tento tratar bem e com um sorriso sincero essas pessoas que não têm um papel emocionalmente relevante nas nossas vidas, por exemplo.
    Entretanto, eu sou tão humano quanto eles, e às vezes, eu não posso dar um sorriso sincero pra eles, então, eu não os dou algo que não posso. Tento jamais oferecer sorrisos falsos.
    Isso se repete com pessoas que ficam no círculo “colegas” ou “pseudo-amigos”. Dificilmente você vai me ver tendo uma conversa “só pra ser simpático”. Eu tenho total ciência dos pontos positivos e negativos disso, e por isso, eu falei “dificilmente”, e não “nunca”.
    Mas, claro, quem não gosta de alguém sempre simpático e alegre?

    Lerei esse livro, concerteza :B Eu comecei a ler A Queda desse cara e toh achando muito engraçado. Gostei dele.

  5. Hum, Italo.
    Vamos definir duas coisas, primeiro. Vamos definir o amor como sentimento e o amor como atitude, duas coisas que eu não separei no post.

    O amor como atitude é exatamente o que eu falei sobre como tratar os outros e etc. O “amor religioso” a que tu se referiu. O amor como sentimento, engloba tudo aquilo que os gregos dividiram nas cinco palavras e mais alguma coisa.

    Assim sendo, o amor-atitude é passível de ser ensinado e aprendido. Então, chegamos ao “fazer o bem”. Eu acho que isso transcende os conceitos de bem e mal, porque se relaciona a algo mais íntimo, mais ligado à consciência universal, ao inconsciente coletivo.

    O conceito de bem e mal é usado para manipular as pessoas; ter consciência da unidade e do respeito para com o próximo é algo que se aprende elevando o intelecto e o espírito, através do auto-conhecimento em vez do “faça o bem, porque Deus vai o mandar pro céu”.

    Quanto ao fato de Schops, concordo plenamente. Dá uma lida nesse texto http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2008/10/os_niveis_do_se.html
    A maioria dos seres humanos não têm elevação espiritual. Provavelmente, não há, de fato, amor ao próximo per se, saca? Mas há o amor ao próximo pelo amor a si próprio, você respeita o próximo para respeitar a si mesmo, na verdade. E isso não é algo passível de se sentir vergonha. É algo bom, porque aí, você teria consciência de que o outro é tão você quanto você.

    Com relação a essa outra coisa, a religião distorce muito as coisas por ser algo institucionalizado que precisa de uma hierarquia. Não, nem sempre a raiva é algo ruim por si só. Entretanto, há seus limites. Como o ciúme, ou a inveja, e etc. Nenhum dos sete pecados, por exemplo, é ruim só por existir. Podem também ser bons, se souberem ser canalizados.

  6. Só completando, my friend:

    “A única coisa que você pode oferecer para os outros é você. Seja apenas sincero e não espere nada em troca.”

    Essa frase é extremamente influenciada pela filosofia de Kant, já que a mesma seria um lindo exemplo de Imperativo Categórico

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