Projeto da Instrumentalidade Humana

“Do tema que vos anunciei quero agora que façais juntos, em harmonia, uma grande música. E, como acendi em vós a chama imperecível, demonstrareis os vossos poderes no adorno deste tema, cada um com os seus próprios pensamentos e engenho, se assim quiser. Mas eu ficarei sentado e escutarei e feliz me sentirei por, através de vós, grande beleza ter despertado num canto.”

Ilúvatar, em O Simarillion

Como eu já disse por aqui, a música possui um grande poder sobre a mente humana. E, além disso, tem um poder até mitológico e arquetípico, como nós podemos ver no mito da criação de Tolkien, no trecho acima.

Admiro como algumas analogias são feitas, e, ao assistir ao anime Evangelion não pude deixar de me envolver com a história muitíssimo densa e um aprofundamento psicológico dos personagens dificilmente visto em qualquer outro lugar.

Recomendo assistir ao anime ou ler o mangá, mas não é exatamente sobre Evangelion que eu quero falar. É sobre um conceito que me foi apresentador por ele, e eu achei muito interessante. Esse post servirá como uma leve entrada para um delicioso almoço que prepararei nos próximos dias. Isso foi uma metáfora.

No anime, os personagens são postos sob uma grande pressão de, literalmente, salvar o mundo dos anjos. A história usa genialmente vários ícones da mitologia cristã para desenvolver um enredo apocalíptico, enquanto desenvolve a psique dos personagens incrivelmente bem. Todos possuem problemas psicológicos com os quais eles precisam se defrontar cedo ou tarde, sempre em conflito com outrem, gerando situações, muitas vezes, constragedoras e emocionalmente intricadas.

Ao longo do desenvolver da trama, você vai descobrindo mais sobre a natureza humana e como problemas psicológicos unicamente presentes dentro da mente de alguém podem mudar o mundo. Entretanto, o objetivo final não é destruir os anjos e fazer com que a Terra seja salva. Uma organização composta por 12 pessoas – mitologia cristã, também – planeja implantar o Projeto da Instrumentalidade Humana.

Esse conceito não foi criado pelo anime, mas por um escritor de ficção científica que usava o pseudônimo de Cordwainer Smith.

O Projeto da Instrumentalidade Humana consiste em tomar cada indivíduo como um instrumento musical – ou como um executor de um instrumento – dentro de uma orquestra. A analogia é clara. Se cada um tocasse isoladamente, seria possível identificar o som e cada um daqueles que tocam. Mas, se todos tocassem ao mesmo tempo, a música se tornaria única, e cada instrumentos e dissolveria em meio à música como um todo. Ou seja, quando o projeto fosse finalmente implantado, os homens perderiam sua individualidade, e se tornariam – só e unicamente – a humanidade.

No anime, eu sinto como se isso fosse tomado muito radicalmente. O protagonista precisa tomar uma decisão: ou ele mantém sua individualidade, rejeita a instrumentalidade e continua a viver no mundo apocalíptico, ou ele aceita o projeto, vive num mundo ideal, mas cada indivíduo deixa de sê-lo para dar lugar à unidade.

Eu prefiro deturpar o conceito e formular um outro tipo de Instrumentalidade. Mesmo numa orquestra, apesar da música como um todo, única, você ainda consegue distinguir cada um dos instrumentos ali presentes. As partes formam o todo, sem deixar de exercer seu papel como parte e mander sua individualidade sonora. Porque o projeto da Instrumentalidade não pode visar criar uma utopia de uma humanidade unida, uníssona, harmoniosa, e manter cada um dos indivíduos com sua identidade, sua criatividade que lhe é inerente e única?

Muito à lá Venus Project, lançado pelo Zeitgeist, não?

Claro que isso tudo se dá apenas num plano utópico e meramente teórico. A humanidade precisaria de mais alguns milhares de anos para se desenvolver intelectual e espiritualmente a esse nível. Entretanto, é um conceito interessante.

Por Eduardo Souza

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