O Dilema do Porco-espinho

Só para escutar.

O dilema do porco-espinho é uma analogia bastante simples, para explicar como ocorrem as relações interpessoais do ponto de vista emocional e psicológico. Ninguém menos que Schopenhauer criou esse dilema. O objetivo dele, entretanto, era um do qual eu discordo.

A situação é a seguinte: um grupo de porcos-espinho passam pelo inverno rigoroso, e, por isso, sentem a necessidade de calor. A mais instintiva das reações é que eles se juntem, para que, próximos uns dos outros, eles possam se aquecer mutuamente. Entretanto, como você pode observar na foto ao lado, de um porco-espinho, o advento dos espinhos que eles possuem em volta de si, ferem qualquer animal que se aproxime dele. Dessa maneira, eles se ferem para que possam satisfazer suas necessidades de calor.

Mais que obviamente, os porcos-espinhos são as pessoas. Os espinhos são metafóricos. Para efeito de analogia, são todos os nossos vícios, nossas vontades egoístas, nossos erros, nossa vergonha, nossos medos. Tudo aquilo que nos impede de nos aproximarmos de outrem, que nos impede de reconhecer outro ser humano como semelhante e igual. O calor, por sua vez, é a necessidade básica do ser humano de se relacionar com os outros, formar grupos, sociedades. Ou amizades, relações de amor eros ou philia.

Para (sobre)vivermos, de fato, é necessário que nos relacionemos com as demais pessoas da sociedade, seja pela necessidade pessoal, emocional, física, material, enfim. Precisamos do calor, para ultrapassarmos o inverno rigoroso que é a vida que nos assola. Schopenhauer, ao contrário de concordar com isso e se submeter, segundo si próprio, reconheceu ser diferentes dos outros bípedes que o rodeavam, e decidiu se isolar, intelectualmente falando. Ele disse que, se um porco-espinho conseguisse se esquentar o suficiente sozinho, não seria necessário buscar os demais.

“Como para mim as pessoas com quem vivo nada podem ser, meu maior prazer na vida são os pensamentos monumentais deixados por seres semelhantes a mim, que, como eu, uma vez vagueram por entre a gente do mundo.”

“(…) decidi dedicar o resto da minha vida efêmera totalmente a mim mesmo e, assim, perder o menor tempo possível com aquelas criaturas, a quem o fato de andarem sobre duas pernas, conferiu o direito de nos tomarem por seus iguais (…)”

Com toda sinceridade, é mais do que admirável essa capacidade que Schopenhauer teve de encarar sua natureza e, muito além de apenas viver à par disso, agir de maneira a aproveitar ao máximo a capacidade filosófico-intectual que lhe foi concedida.


Entretanto, não concebo a possibilidade de ocorrer tal situação nos dias de hoje. Mais do que nunca, a nossa sociedade é excludente, as pessoas, mais narcisistas (que provavelmente não significa o que você pensa; dedicarei um post para isso, nos próximos dias), e as regras sociais, mais rígidas. Quaisquer idéias que você possa ter de livre-arbítrio, liberdade ideológica, democracia ou variantes, são meramente ilusórias, e não resistem de fato a um pensamento mais crítico do que o necessário no dia-a-dia.

É extremamente necessário pesar, racionalmente, até que ponto vale a pena nos aproximarmos para buscar calor com os demais. Ainda assim, não acredito que valha a pena abdicar das pessoas, de sorrisos, de dor, de momentos. O pensamento que mais me vem à mente quando eu penso nisso é: o quão feliz foi Schopenhauer? É possível nos colocarmos em seu lugar? É justo dizer que a felicidade dele não existe, porque nós não podemos concebê-la em nosso mundo, com nossa mentalidade?

Por Eduardo Souza

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5 thoughts on “O Dilema do Porco-espinho

  1. Olá Eduardo,

    Eu acho que a maioria busca a aprovação do outro, no fundo queremos ser aceitos pela sociedade, pelo outro.

    Buscamos fora aquilo que temos dentro de nós. Algumas pessoas descobrem esse calor imenso dentro do coração, numa auto-aceitação,nessa busca por-si-mesmo acaba se completando, tendo a plenitude dentro de si.

    E o paradoxo, é que, quando isso ocorre, ao mesmo tempo que não necessita mais do outro pra esse preencher, se tem uma outra compreensão da vida… o outro passa a ser includente, no sentido de o outro também ser parte do indivíduo, daquela unidade que os grandes pensadores alcançaram.

    Gostei do seu blog, já está em meus favoritos.

    adi

  2. 🙂

    Não vou dizer que não existe altruismo, mas admitindo-se que fazemos algo pelo nosso próprio bem, faremos melhor pelos outros, pois se o nosso bem inclui a possibilidade do bem de todos, ele avança quando alguém que também procura estar bem, vê em seu bem o bem de todos.
    A instabilidade emocional da sociedade faz com que o homem que procura o bem se isole. Mas o calar é que mata. O isolamento provido de cercas psicológicas é bom, mas nos momentos sem cercas e mascaras, expressar-se é mais do que necessário, é causa, e causa é importante enquanto a vida é boa, e a vida é boa enquanto se tem um corpo que sabe que a causa do mundo e a causa do corpo se misturam. Nem a solidão, nem a interação mutua são um problema de fato, o que pega mais pesado é expectativa própria, ou expectativa mutua. Tanto só quanto na galera, a ocupação é que deve satisfazer 🙂

    Eduardo, teu blog é direto, exato e limpo.
    Muito bom, tipo atendimento de anseio com tabu quebrado. 😀

    Elielson

  3. Estou lisonjeadíssimo de ter vocês comentando aqui! Obrigado.

    Adi, juntando esse comentário seu com o que você falou sobre os sabiás no Anoitan, vejo como a “realidade” de fato é fortemente influenciada por esse filtro de experiências próprias, que nos é único.

    Mas isso de buscar fora o que temos dentro de nós é exatamente a semente da concepção que eu tenho de narcisismo! Claro, isso é involuntário, inconsciente, inevitável. Mas o buscar APENAS nós mesmos nos outros – nos espelhos d'água – e querer que todos os outros sejam Ecos, é o que, segundo essa idéia, caracteriza o narcisismo. Lembro até de como fiquei encantado com a poesia de Narciso que vocês postaram no Anoitan. Até a tradução de Bandeira foi genial.

    Então, como Schopenhauer disse, é possível que um porco-espinho seja auto-suficiente de calor?

    Elielson!
    Esplêndido seu comentário! Sintetiza perfeitamente o que eu poderia dizer sobre a não-existência do altruísmo. Ainda assim, você acredita que há esse sentimento de total ausência de egoísmo, como o altruísmo?

    “o que pega mais pesado é expectativa própria, ou expectativa mutua.”

    Conversava isso com uma amiga um dia desses. Como seriam tão mais simples as relações humanas se não se esperasse tanto de outrem. Para tudo! Mas, de qualquer maneira, é necessário até esperar coisas dos outros. As relações entre as pessoas se baseiam exatamente nisso, acredito. Estou lendo O Poderoso Chefão agora, e vejo como isso é claro ali. Mas, até nas relações mais despretensiosas, acredito que esse tipo de atitude ainda se aplica. A expectativa é o motor e o destruidor das relações.

    Obrigado a vocês pelos comentários e pelos cumprimentos tão generosos!

  4. Ainda assim, você acredita que há esse sentimento de total ausência de egoísmo, como o altruísmo?
    ………………………………..

    Não dá pra medir em escalas o progresso do ego, assim como não dá pra determinar ou perceber o que é altruismo, sendo assim, espontaneamante, um dá lugar ao outro, e até coexistem quando se supoe a relatividade ego-altruismo, quando procuramos nos conscientizar do estimulo. Sacrificio e amor incondicional se interpõem na maneira como a humanidade caminha coletivamente, o que muda entre sacrificar a si ou sacrificar a outro é o uso da consciência sincera ou o uso da razão apodrecida que abriga muito bem a inconsciência domada que em alguns casos criam uma consciência alternativa que briga com o universo como se não estivesse brigando consigo mesmo, e que também dá uma ilusão de conhecimento que nos expõe a arrogância interpretativa, que não é uma arrogância factual, é só uso da interpretação como valvula sentimental. O altruismo e o ego estão muito perto um do outro, quando julgamos como queremos ser julgados, quando amamos como queremos ser amados. O altruismo não usufrui do mundo. Mas a metafora do post explica melhor, afinal, quem decide pelo porco-espinho é o porco-espinho.

    Abraço

    Elielson

  5. Eu realmente não consigo imaginar uma vida como essa que Schopenhauer escolheu. Não imagino alguém completamente independente dos outros emocionalmente!
    Eu fico pensando… Será que essa atitude de Schopenhauer não foi um tanto pretensiosa? Será que ele se julgava superior o bastante pra não precisar se relacionar com meras criaturas bípedes?
    Talvez ele tenha sido feliz… Talvez ele se bastasse, né?

    E, de fato, é melhor acreditarmos (ou tentar acreditar, ou simplesmente relevar) que somos livres e vivemos numa sociedade democrática.

    Ótimo texto, Eduardo! 😀

    “mais narcisistas (que provavelmente não significa o que você pensa; dedicarei um post para isso, nos próximos dias)”
    sem subestimar, né, amigo? HEAUEHUAHEUAHEUAHEUAHUEHAEA

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