A Distopia dos Tempos Modernos

A idealização de um estilo de vida humano tornou-se objeto de estudo há inúmeros anos. “A República” de Platão, um grande exemplo, tentou definir o melhor caminho para uma sociedade no mínimo equilibrada, fazendo com que inclusive hodiernamente a obra seja alvo impetuoso de grandes pensadores. Mas nunca com fins práticos. Idéias como as platônicas, que parecem plausíveis apenas no âmbito metafísico, são classificadas como utópicas. Utopia, que do grego significa “não-lugar”, traduz a idéia de algo teoricamente impossível de se tornar realidade.
Por um meio ideológico distinto navegam escritores como George Orwell (em “1984“) e Aldous Huxley (em “Admirável Mundo Novo“), os quais profetizam um futuro irremediável no qual apenas a angústia e a dor serão as heranças da tola humanidade. Esses pensamentos são colocados na estante da distopia, que apesar de apocalíptica, pode nos fazer escapar da nossa caverna platônica obscura e alienada.
A obra “1984” de George Orwell foi um marco para a distopia, pois retrata de uma maneira concreta a visão de uma sociedade dominada por líderes ambiciosos que buscam apenas o poder. Na história, a Oceânia é um território liderado pelo Grande Irmão, uma figura imortal que representa não apenas o partido político vigente, mas toda uma cadeia de idéias ditatoriais. A população da Oceânia é dividida entre “proletas” e “membros do partido”, os quais são impedidos de produzirem pensamentos críticos. Para manter a população inerte, o partido faz uso das teletelas – aparelhos que vigiam os cidadãos vinte quatro horas por dia -, da Polícia das Idéias – responsável pela busca e apreensão dos pensadores – e da técnica de “duplipensamento”. O “duplipensamento” é a capacidade das pessoas em acreditar nos pensamentos dicotômicos (ou seja, que se o partido disser que 4+4 = 5, e depois vier a dizer que a mesma soma é igual a 3, então assim será). Em um futuro próximo, a idéia da elite é que a utilização de um novo idioma seja utilizado, a Novilíngua. Com esse novo idioma, palavras como “liberdade” seriam tiradas do dicionário, para que a população não soubesse o significado real da mesma. Algo parecido com as idéias do filósofo da linguagem Ludwig Wittgenstein, o qual falava que “A nossa inteligência vai até onde for a nossa linguagem”.

Em “1984“, através da mídia, o partido tem a capacidade de transformar o passado em elemento mutável, ou seja, consegue transmitir a idéia de que certas pessoas – em sua maioria, rebeldes – nunca existiram ou então que certo território nunca esteve em guerra com a Oceânia. É a prova de que a “memória-longa” é um aspecto positivo, e que no caso do Brasil, não é utilizada. Para incitar o ódio perante os grupos rebeldes, a classe dominante utiliza diariamente um evento chamado “Dois Minutos de Ódio”, que na verdade é um momento no qual os trabalhadores se reúnem para vaiar e cuspir na imagem dos grandes pensadores. O Socing – Socialismo Inglês – é falsamente utilizado, já que a democracia e igualdade não existem nesse sistema; e a hipocrisia dos ministérios é notável, já que o “Ministério do Amor” simbolizava a tortura, o “Ministério da Pujança” a escassez de alimentos, e os da “Paz” e “Verdade” pela guerra e mentiras, respectivamente. Orwell usa a idéia de que “apenas os proletas podem derrubar o partido”, partindo da premissa de que a dominação só irá cessar com a consciência de que vivemos em prol de uma estúpida e ínfima elite.

“Ignorância é força”, “Liberdade é escravidão” e “Guerra é paz”.
1984” é uma obra tão concreta que a passagem “(…) Era provável que as bombas-foguetes que caíam diariamente sobre a cidade fossem disparadas pelo próprio governo da Oceânia, ‘só para manter a população amedrontada'” retrata de uma maneira espetacular os “Atentados” de 11 de Setembro, no qual muito provavelmente o próprio governo dos Estados Unidos forjou as explosões para ter uma razão de pôr suas patas sedentas por petróleo no Oriente Médio.
O filme “Tempos Modernos” do grandioso cineasta e ator Charles Chaplin também faz uma reverência à estupidez coletiva, mas relacionado à mecanização do homem. Na verdade, à “mecanização do homem” e à “humanização da máquina”, já que Chaplin, no filme um trabalhador industrial, demonstra quão exaustivo era o trabalho mecânico e quão ingrata é a vida na sociedade, já que buscamos o famoso “Sonho Americano”, no qual as pessoas deveriam ter “uma mulher bonita, um bom café da manhã, um bom emprego, uma barba exemplar e um dia de sossego”. De uma forma graciosa, Chaplin, sempre otimista, demonstra que apesar da vida ser difícil, nunca deve-se perder as esperanças de que dias melhores virão, desde que busquemos nossos objetivos com vontade e um sorriso estampado.

O tolo “Sonho Americano” é retratado, inclusive, na figura ao lado, a qual representa a dualidade entre morte e beleza. E é esse mesmo sonho que impede uma possibilidade de reconhecimento do nossa própria honra, já que a busca desenfreada por bens materiais influenciada pelo capitalismo, só pode nos levar a uma história de pura distopia. O mundo estético tem uma causa vazia em mentes promissoras, que apenas deixam-se alienar pela vida ideal propagada pela sociedade.

“Escolha viver. Escolha um emprego. Escolha uma carreira. Escolha uma família. Escolha uma televisão enorme. Escolha lavadoras de roupa, carros, CD players e abridores de latas elétricos. Escolha boa saúde, colesterol baixo e plano dentário. Escolha uma hipoteca a juros fixos. Escolha sua primeira casa. Escolha seus amigos. Escolha roupas esporte e malas combinando. Escolha um terno numa variedade de tecidos. Escolha fazer consertos em casa e pensar na vida domingo de manhã. Escolha sentar-se no sofá e ficar vendo game shows chatos na TV enfiando porcaria na sua boca. Escolha apodrecer no final, beber num lar que envergonha os filhos egoístas que pôs no mundo para substituí-lo. Escolha o seu futuro. Escolha viver.” (Trainspotting)
“Os anúncios nos fazem comprar carros e roupas, trabalhar em empregos que odiamos para comprar as porcarias que não precisamos. Somos uma geração sem peso na história, cara. Sem propósito ou lugar. Nós não temos uma Grande Guerra. Nem uma Grande Depressão. Nossa Grande Guerra é a guerra espiritual. Nossa Grande Depressão é nossas vidas. Todos nós fomos criados vendo televisão para acreditar que um dia seríamos milionários, e deuses do cinema, e estrelas do rock. Mas nós não somos. Aos poucos vamos tomando consciência disso. E estamos muito, muito revoltados.” (Clube da Luta) 

Portanto, parece-me a cada momento que o caminho que a filosofia – munida também de outras áreas de estudo como a história, a psicologia e a sociologia – nos proporciona é o mais coerente para o entendimento dos hábitos e pensamentos humanos. Entretanto, a teoria é apenas uma questão de estética quando não aplicada à realidade, já que a frase “devemos amar” é branca perante o “ato de amar”. Por mais que tudo seja relativo e baseie-se em uma questão de perspectiva.

Se o futuro será distópico ou utópico? O objetivo de me importar em escrever neste blog é um pequeno grito de socorro rumo à utopia, a qual depende de nós. Tudo dependerá da intelectualização não apenas das classes financeiramente menos favorecidas, mas de todos os cidadãos. Embora, caso isso se concretize, no futuro, a inteligência – principalmente sem a honra – será um grande problema, sem dúvidas. E assim migra a cultura humana.

Por Italo Lins

Advertisements

Franz Kafka – Um Médico de Aldeia

Parte 2
Parte 3

Eu gostaria de fazer um aviso prévio sobre o que você entrará em contato logo mais. Não se trata de cenas obscenas, nem tampouco violentas, mas sim, uma das histórias mais surreais que eu tive o prazer de encontrar. E, em companhia de um curta-metragem, o fascínio pelo texto só aumentará, já que a adaptação artística da obra em questão foi feita com perfeição pelo diretor japonês Yamamura.

A obra que irá ser exposta se chama “Um Médico de Aldeia“, e foi uma das primeiras escritas pelo tcheco Franz Kafka, mostrando que a sua maturidade literária não foi resultado de um savant. A escrita de Kafka demonstra-se nesse ponto extremamente introspectiva, depressiva, simbólica e abstrata, fazendo com que as interpretações de texto variem de uma forma absurda, já que, dependendo da realidade do leitor, vários fatores adormecidos podem entrar em evidência.

Um Médico de Aldeia” conta a história de um doutor mal-remunerado – e em contradição, considerado onipotente pelos cidadãos – que recebe uma chamada para uma consulta de emergência, em outra aldeia.  O seu cavalo, único meio de transporte, morreu em virtude do inverno rigoroso que sua vila estava enfrentando, fazendo com  que o médico buscasse ajuda dos outros moradores da vila para um meio de transporte. Todos os “bons cidadãos” não fornecem um novo transporte para o doutor.

Entretanto, um desconhecido aparece subitamente com dois cavalos, emprestando-os de prontidão. Nessa cena é onde as coisas começam a ficar distorcidas. A mulher do médico, Rosa, ao ajudar o desconhecido a ajustar os cavalos à carroça, é mordida fortemente no rosto, mas o doutor, ao notar que “estava devendo um favor” ao desconhecido, não se torna raivoso, mas sim, acaba considerando o forasteiro uma pessoa única. É nessa parte que percebemos como um favor na verdade torna-se um uso de poder, parecidamente como Michel Foucault afirmava. E ainda podemos ir além na interpretação: o médico abandona sua vida íntima e os seus valores morais, deixando de ser exatamente um humano, mas sim, um doutor por excelência.

Chegando à residência do enfermo, o doutor percebe que ele se encontra aparentemente são. Entretanto, ao dar as costas ao paciente e olhar para a sua família, ele percebe uma cena chocante ao ver a irmã do doente abanar um lenço com sangue e lágrimas nos olhos de seus pais. Então ele retorna ao enfermo, puxa o seu cobertor – mostrando que vivemos apenas em um mundo de aparências superficiais – e percebe que em seu corpo há larvas comendo seus órgãos na região do abdome. E em um jogo filosófico bastante intenso, os dois personagens começam se confundir e não fica claro exatamente qual dos dois está doente. Tanto que no filme, o médico se enforca abstratamente na lua, ou seja, uma morte em sua própria natureza.

Em tanto desespero e agonia, Kafka consegue nos fazer questionar os nossos valores ao mostrar que ambos os personagens estão doentes psicologicamente. O garoto, inclusive, chega a afirmar que “A única coisa que trouxe ao mundo foi uma bela ferida; foi esse o seu único legado”, causando um choque de nervos no leitor.

É verdade que descrevi minimamente as simbologias que consegui captar desse magnífico texto, já que eu creio que vomitar ao ar livre algo tão relativo é complicado. Entretanto, eu aconselho a leitura e releitura do texto somada à possibilidade de assistir ao filme mais de uma vez, já que de fato, é uma história bastante intensa. Para pôr as minhas visões de uma maneira lógica, eu vou esperar pelos comentários com as mais diferentes visões que já percebo que estão por vir. Acredito que seja muito mais construtivo dessa maneira.

Posso dizer, entretanto, que se a obra “A Metamorfose” não me tinha convencido que Kafka era um autor raro, agora não tenho medo de afirmar que com “Um Médico de Aldeia” eu me sinto bastante abalado em saber que várias obras suas ficaram inacabadas.

Uma boa leitura para todos.
Por Italo Lins

Ignorância, Felicidade e Sentir

É dito que entre os filósofos pré-socráticos havia dois – Heráclito de Éfeso e Diógenes de Sínope – cuja diferença principal se dava em um ponto curioso. Entretanto, ambos viam como os homens eram, muitas vezes, deploráveis e desprovidos de qualquer tipo de moral. Heráclito desprezava a sociedade como um todo, e, durante sua velhice, foi viver sozinho na montanha, tamanha era sua convicção da natureza dos homens. Outro ponto em que os dois concordavam era sobre a ignorância daqueles que os cercavam.

Todavia, eles diferiam grandemente na maneira de encarar a ignorância que os cercava. Enquanto Diógenes se ria, Heráclito chorava, de modo que ele ficou conhecido como o filósofo obscuro.

Ignorância a que me refiro é a ausência de conhecimento, seja ela voluntária ou não. Suponhamos, então, que Heráclito fosse igualmente ignorante àqueles que os cercavam. Obviamente, ele não notaria o quão ignorantes eram aqueles ao seu redor, logo, não teria motivos para chorar. Então, ele seria, no mínimo, mais feliz.
Há infindos exemplos de como a ignorância traz a felicidade, todos plenamente observáveis no dia-a-dia. Um deles, particularmente interessante, é: digamos que você goste de chocolate – o que é bem provável. Mas, que você goste muitíssimo de chocolate, a ponto de dizer “eu não viveria sem chocolate”. Entretanto, você “não viveria” sem chocolate apenas por já tê-lo provado. Caso você jamais houvesse provado chocolate, não saberia o quanto ele é bom e não “dependeria dele para viver”. Logo, não sofreria com a abstinência dele. Apesar de jamais provar como ele é bom, algo como o que diz O Pequeno Príncipe.

“Ignorância é bênção”, afinal. Por isso, existe a expressão benefit of the doubt, que denota exatamente a situação em que é melhor que exista a ignorância frente a algum assunto, para uma ou mais pessoas.
Acredito que seja algo já estabelecido: quanto menos conhecimento se tem, mais satisfeito – ou feliz – você se torna. Entretanto, isso instiga pensamentos mais profundos: a felicidade é ensinada? É possível ser feliz adquirindo mais conhecimento? Qual a linha que divide a capacidade de compreensão do medo de compreender? Qual o limite entre ter objetivos altos e a ganância?
É claro, entretanto, que há fenômenos e situações incompreensíveis para a mente humana. Não me refiro a fenômenos metafísicos apenas. Esses, a ciência vai conseguir explicar, dentre alguns anos de estudos, com as novas vertentes e a aceitação de novos paradigmas, o que é inevitável. Entretanto, um exemplo que eu gosto de citar é, por exemplo, a compreensão do tamanho do universo.
Eu não acredito que sejamos capazes de imaginar isso. Por mais que possamos dizer que uma galáxia é composta de milhões de sistemas, e milhões de sistemas formam um conjunto maior, e assim por diante, acho que jamais conseguiríamos imaginar a dimensão disso tudo, mesmo vendo algo como isso. É visualmente interessante, dá pra ver como somos insignificantes e tal, mas não acho que mesmo a mente mais criativa consiga abstrair a existência de tantas coisas, de verdade.
E, “As above, so below” – “O que está em cima é igual ao que está embaixo”. Logo, eu não sei se seríamos capazes de compreender a nós mesmos inteiramente. Cada um de nós é, de fato, um universo separado, paralelo, e há apenas o contato sutil entre eles. E, dificilmente ocorre por palavras. Queria aqui citar a sapientíssima Clarice Linspector:
“Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.”

Acredito que isso soe deveras romântico, mas acho que os sentimentos são algumas dessa coisas que ultrapassam o entender. Não só os belos sentimentos como o amor, a compaixão – cuidado com esse, é muito confundido com outros sentimentos baixos -, como também a raiva, o ódio, a mágoa, são coisas um tanto inexplicáveis. A mente em si é capaz de distorcer a realidade – ou, conceber a realidade – e os sentimentos são os principais alteradores e moldadores dessa concepção. Mesmo que o sentimento seja indiferença. Não há não-sentir. Indiferença não é a ausência de sentir, e sim a negação de fazê-lo.

Há outros assuntos, outras dúvidas – como as demais que perguntei – a serem discutidas, todavia, me limitarei por agora. Fica no ar a idéia para outros posts ou para discussões nos comentários.
De todo modo, acredito que a bênção da ignorância não compense. Eu acredito que a liberdade concedida pelo conhecimento é muito mais compensador. Por isso, afinal, estamos aqui. Mas, consta na citação de Clarice, há uma doçura na burrice, sobre certas coisas. Sobre o universo, por exemplo. Sobre o futuro, sobre a resposta que sempre encontramos: “é relativo”.
Por Eduardo Souza

Schopenhauer e o Amor

Parte 2
Parte 3

“Nada na vida é mais importante que o amor (…) porque o que está em jogo é a sobrevivência da espécie” Arthur Schopenhauer.
O breve episódio acima – apesar de contar com uma trilha sonora entediante e um apresentador um tanto naïve – mostra fragmentos da vida de um dos maiores filósofos do século XIX.

O vídeo é menos explicativo que o necessário e composto por assuntos biográficos. Entretanto, mesmo considerando certos trechos irrelevantes e bobos, acreditei ser válido postá-lo porque dessa forma nós podemos entrar em contato com a cultura alemã do século retrasado incisivamente.

Entender a sociedade alemã do século XIX significa compreender as relações de sua filosofia com o meio que cercava a sua mente, levando-nos a analisar o seu comportamento perante algo às vezes tão inexprimível como o amor. Sentimento esse, martelado por Schopenhauer de uma maneira intrinsecamente biológica, chegando a bater às portas de um Darwinismo inconsciente sem hesitação.

Como de costume, uma quebra de paradigmas.

Por Italo Lins

As Correntes Filosóficas sobre o Livre-Arbítrio

Neste post irei tentar argumentar, caminhando por vários ângulos, sobre a possibilidade do livre-arbítrio existir ou não.

Bem, para começar devo explicar o que entendo por “livre-arbítrio”. Acredito que a maioria das pessoas tomaria como certo o conceito relacioanado à liberdade de escolha/decisão nas ações de cada pessoa.

Existem várias maneiras de se definir livre-arbítrio, e a visão Teológica é uma delas. Segundo essa, Deus deu ao homem o livre-arbítrio, abdicando de sua onipotência em relação às escolhas dos mortais, apesar de entrar em conflito com a onisciência divina – a que Deus sabe exatamente o que acontecerá, e que escolhas cada um no mundo tomará, como o conhecido paradoxo da onipotência. Entre outras maneiras, se encontra a filosófica, acredito que seja a que mais define essa idéia. Dentre as visões filosóficas estão os Deterministas, os Libertarianistas e os Compatibilistas.

O Determinismo diz que tudo acontece exatamente do jeito que tinha que acontecer, e não poderia ter acontecido de forma distinta. As decisões e os acontecimentos são determinados por eventos anteriores. O que acontece, não poderia ser diferente, porque está conectado com o que aconteceu anteriormente. O mundo físico e biológico são regidos pelo determinismo. A física newtoniana é o melhor exemplo disso: as coisas não acontecem por acaso, existem acontecimentos prévios que preparam outro; isso acontece também na mente, pois os pensamentos são o que são devido a acontecimentos e pensamentos anteriores, assim como os atos decorrentes desses pensamentos, só acontecem devido a experiências vividas. Se você come algo e não gosta, no futuro, quando lhe oferecerem, irá rejeitar, por conta da experiência passada de degustá-la e se arrepender. Ou caso escolha experimentar mais uma vez, devido à outra experiência, que lhe mostrou que as coisas podem ter gostos diversos em diferentes ocasiões ou tempos. Enfim, no Determinismo, tudo em você é o que é devido a eventos passados, até mesmo sua personalidade, seu caráter, seus pensamentos, suas ações, etc. negando dessa forma a existência do livre-arbítrio. Suas escolhas são tomadas com base em experiências passadas.
Um argumento muito usado pelos deterministas é a “ilusão de escolhas”, que dizem acontecer devido à consciência humana. Neste caso, a escolha seria na realidade uma percepção de que a execução de uma ação no presente. É um fenômeno da consciência, em que o ambiente desperta a atenção do indivíduo para uma mudança significativa no seu meio, que faz com que ocorra a “ilusão” de escolha. Portanto, você não pode optar por um sorvete de chocolate ou baunilha, o que ocorre é a ilusão de escolha. Seja qual for a decisão que irá tomar, ela já estaria pré-determinada por toda sua trajetória de vida e toda a humanidade antes dela.

O aspecto essencial da questão, é saber se o indivíduo, ao praticar a ação, era livre ou não para praticá-la, se há liberdade de escolha dentre várias possibilidades oferecidas em uma situação, ou se ele só poderia ter feito precisamente o que fez. Essa teoria afirma que o comportamento humano é condicionado por três fatores: genética, meio e momento.

O oposto ao Determinismo é o Libertarianismo, que defende a visão do livre-arbítrio (detalhe, ao pesquisar sobre essa corrente, encontrei coisas sobre Libertarismo, uma confusão causada pela tradução do inglês para o português. Em inglês os dois se escrevem igual – Libertarianism). O Libertarianismo, comumente chamado de Indeterminismo, é a visão filosófica que apóia a existência do livre-arbítrio, sob a concepção segundo a qual alguns acontecimentos não têm causas, limitam-se a acontecer e nada há no estado prévio do mundo que os explique. Visão apoiada por grandes filósofos como Thomas Reid, Peter van Inwagen e Robert Kane.
E por fim, o Compatibilismo, acreditando que um não exclui o outro, são compatíveis. Visão defendida por filósofos como Hobbes, John Locke, David Hume entre outros. Essa idéia veio de uma discussão de moralidade, afinal, se não existe livre-arbítrio, como os deterministas afirmam, como poderíamos julgar alguém de alguma coisa? Não seria justo culpar alguém por algo que não poderia deixar de fazer, na verdade seria até ridículo discutir algo assim. Então pensaram que a idéia de que o Determinismo é incompatível com a responsabilidade moral, é na verdade uma ilusão, tanto quanto o é a idéia de que o livre-arbítrio é incompatível com o Determinismo.
Nessa visão as coisas determinadas como seu caráter, sua personalidade, suas escolhas, por mais previsíveis que sejam, não estão livres de responsabilidade moral. Não faz sentido desculpar um homem, depois de conhecer seu caráter, e perceber que o que fez, viria a acontecer. Do mesmo modo, não faz sentido deixar de recompensar, aquele com o caráter que o fez perceber que faria uma bondade. Um argumento muito utilizado para suportar essa idéia, é a punição. Pois, como dito, não faria sentido julgar as pessoas por crimes, no Determinismo.

Para os compatibilistas, uma ação pode ser livre ainda que previsível. Supõe que bates em alguém, e outra pessoa pergunta se poderias ter evitado tal ação. E o fato é que poderias, se caso o quisesse, talvez antes de esbofeteá-lo tivesse tido chances de fazê-lo e escolheste não fazer. A situação continuou e escolheste esbofeteá-lo, mesmo sabendo que poderias escolher não o fazer, como escolheste antes. Foi uma escolha livre, não determinada. A defesa da punição assenta no fato de o comportamento humano ser casualmente determinado. Se as ações e vontades humanas fossem incausadas, seria inútil punir, recompensar ou fazer qualquer outra coisa para corrigir o comportamento errado das pessoas, uma vez que nada as influenciaria.
Pessoalmente, Compatibilismo é o que mais me atrai. Pois não é difícil de ver que nossas escolhas se baseiam sempre em experiências passadas, mas isso não quer dizer que não tenhamos livre-arbítrio. Acredito que as escolhas que fazemos por mais previsíveis que sejam, ainda são nossas escolhas.

Por Arthur Rodrigues

Uma Percepção Além do Mundo Externo

Parte 2

“Não há fatos, apenas interpretações” Friedrich W. Nietzsche

Em poucas, mas sábias palavras Friedrich Nietzsche conseguiu sintetizar parte dos pensamentos que irão ser abordados neste texto. As idéias as quais tratarei de exprimir serão relacionadas à uma possível inexistência de um mundo exterior como essência. Sim, como se tudo que nós percebemos no mundo exterior fosse apenas uma tradução produzida pelo cérebro através de impulsos nervosos captados pelos sensores.
Immanuel Kant, antecedendo Nietzsche, afirmou que a realidade somente é alcançada pelos humanos através dos cinco sentidos: audição, olfato, paladar, tato e visão. Para além dos sentidos, nada pode ser julgado existente, mas que também seria um equívoco classificar o desconhecido como inexistente, já que não é pela razão de não percebermos a presença de algum objeto que podemos nos dar ao luxo de dizer que o mesmo não existe.
A visão funciona de uma maneira bem simples e está relacionada diretamente ao auxílio da luz. Um objeto qualquer fotografado pelo olho incide sobre a retina, que armazena a luz e a transforma em impulso nervoso, que é recebido pelo nervo óptico, o qual envia a mensagem para o lobo occipital – na figura abaixo, a área pintada de roxo – do nosso cérebro, que traduz a imagem e faz com que percebamos que ela existe de forma suposta. Parece um longo caminho, mas todo esse processo ocorre em uma fração de segundo.

Os olhos e todos os seus componentes na verdade são apenas convertores, assim como algum programa que converte formatos de vídeos (por exemplo, de mpeg para avi). O real intérprete da imagem é o cérebro. E, o mais curioso, é que para a massa encefálica, não há diferença entre enxergar algo ou se lembrar de alguma imagem, já que as mesmas regiões, segundo pesquisas detalhadas, ficam igualmente excitadas em ambos os casos.

Para chegar à minha conclusão, acho necessário citar outro exemplo sensorial: a audição. O processo, como você vai perceber claramente, não é muito distinto se comparado à visão. A grande diferença é que ao invés da importância da luz, as vibrações sonoras e o ar são os agentes.

O ar é importante porque é através dele que as vibrações sonoras trafegam – isso explica o porquê de não se poder captar efeitos sonoros no vácuo. As ondas sonoras penetram no pavilhão auditivo, fazendo o tímpano vibrar, que em efeito em cadeia, faz com que os três pequenos ossos – martelo, estribo e bigorna – também vibrem. Os movimentos são captados pela cóclea (também chamada, por motivos aparentes, de “caracol”), a qual, de forma análoga à retina e ao nervo óptico, transforma as ondas em impulsos nervosos e transmite-os ao cérebro.
Muitos então pensam que principalmente os olhos e os ouvidos são autônomos em relação à interpretação do que percebemos. Mas trata-se de um grande engano, já que junto às papilas gustativas, terminações nervosas da pele e os receptores olfativos, a cóclea e o nervo óptico são apenas transmissores de impulsos nervosos. Através da captação de algo material – já que inclusive os fótons são considerados matéria – e da modificação em impulsos, o cérebro nos guia para a realidade, que embora convincente, pode ser falsa.
Falsa porque tudo depende de uma questão de referencial, como Newton fazia menção. O cérebro enquanto máquina tradutora consegue modificar a realidade, assim como citei que não há diferença nervosa entre uma recordação, sonho ou um fato presente. A diferença é que nos dois casos alternativos, há sistemas que bloqueiam a atividade dos músculos para que nós não tentemos correr por simplesmente pensar nas figuras de leões ou onças. No sonho, entretanto, o mesmo ocorre, mas com exceções. Essa exceção se chama “Paralisia do Sono”; que acontece quando um indivíduo acorda, mas seu cérebro permanece em estado de relaxamento, fazendo com que as imagens abstratas do sonho apareçam no “mundo real” enquanto seus músculos ficam estáticos.

A física quântica também entra no debate. Os físicos relatam que todo o universo está em movimento desordenado, e que tudo está baseado em probabilidades, ou seja: o que nós percebemos é o mais provável de estar estável. Então, tudo que nós estamos vivendo pode ser irreal, o que deixará em questão de relatividade a própria percepção do tempo. Por exemplo, a nossa vida pode ser um sonho de uma outra vida.

Seguindo essa interpretação, nós não podemos perceber o que controla o cérebro, já que ao enxergarmos a nossa própria massa encefálica – se isso fosse possível – chegamos à conclusão de que ela, inclusive, não passa de uma ilusão. A única solução hoje é nomear essa força metafísica que controla o cérebro de alma – que difere bastante de espírito, que está diretamente relacionado à figura humana. Embora eu não tenha opinião formada sobre a existência de espíritos – já que é um assunto bastante delicado – eu tendo a acreditar na alma, por mais que possa me referir a ela como “força maior”.
O que controla a alma? Para esse caso, a resposta é difícil porque não temos noção da essência da alma. Entretanto, eu acredito que seja a mesma proporção do universo, já que sabemos que ele existe, mas não conseguimos definir o que há um centímetro após o fim do mesmo.
Nós não temos certeza se a vida é real ou não, e mesmo se não for, temos que tratá-la da melhor maneira possível, pois os sentimentos e a moral não são ilusórios e estamos a tratar no dia-a-dia com animais que merecem respeito – por mais que alguns implorem por não merecer. A ciência está avançando e nós estamos caminhando juntos à ela perante essas respostas. Espero estar em vida – falsa ou não – para saber e contribuir com esses resultados.
Por Italo Lins

O Pequeno Príncipe

A maioria das vezes que vi esse livro ser mencionado, foi com a seguinte citação:

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

Devo reconhecer, essa frase está presente em um dos momentos mais emocionantes e marcantes da leitura do livro, provavelmente, então, por isso ser tão citada. Entretanto, imaginar que uma obra tão profunda e tão mais densa pode ser citada “apenas” por isso, é um engano dramático.

Quando eu tinha algo como 10 anos – sei lá, não lembro da minha infância direito, nem tenho noção de idade das crianças – minha mãe entrou em contato com esse livro. Parece até que foi um livro indicado pela escola. Não importa, na verdade. No fim das contas, ela o leu. Eu via ela se emocionando fatalmente ao ler aquele livro cuja capa era um menininho loiro em cima de um asteróidezinho roxo.

Assim que ela terminou de ler, ela veio pra mim, quase aos prantos, e me disse pra ler aquele livro, pois era uma lição de vida. Depois, ela deve ter insistido, e eu, criança teimosa que devia ser, nunca toquei no livro. Grandessíssimo erro meu. Hoje, gostaria de ter lido àquela época, para que, quando tivesse lido novamente agora, poder comparar o que eu teria pensado então. De qualquer maneira, não é o tipo de arrependimento que vai me matar.

Esses dias, depois de alguns conselhos, decidi ler o livro. “Minha mãe tava certa”, foi o que me passou pela cabeça depois de ler a primeira página.

O Pequeno Príncipe é uma espetacular e simples metáfora sobre a natureza humana em si. Incrivelmente cheio de sutilezas e subjetividade, a história faz você pensar e se descobrir consciente ou inconscientemente, de modo que, como minha mãe disse, é uma lição de vida: você não vai ser o mesmo quando terminar esse pequeníssimo e simples livro.

Infelizmente, eu não posso tratar de todas as pequenas sutilezas no post unicamente; terei, então, de ser o mais suscinto possível. Mas não deixem de se utilizar dos comentários para (bom, comentar) discutir outros elementos não citados ou pouco desenvolvidos.

É difícil explicar o enredo d’O Pequeno Príncipe. Entretanto, farei uma tentativa. Sendo simplista por demasia, o livro narra o encontro entre o Pequeno Príncipe e um aviador – o Narrador, que após algum problema no avião, pousa no deserto do Sahara.

Entretanto, o livro não começa assim. O primeiro assunto tratado é o emburrecimento das pessoas à medida que crescem e são inseridas na sociedade. Um dos temas recorrentes do livro é a valorização da capacidade imaginativa que as crianças têm. O Narrador fala de sua experiência tendo tentado desenhar um jibóia engolindo um elefante, aos seis anos. Com a ilustração do próprio Exupéry, o Narrador explica como seu talento de artista foi podado a partir do momento que os adultos viam apenas um chapéu e o desencorajavam para a arte. Ele carrega esse sentimento de remorso” e lembra do fato diversas vezes ao longo do livro.

Essa experiência remete a um texto de Theodor Adorno e Max Horkheimer, que compara a inteligência à antena de um caracol. Um caracol se guia unicamente pela antena, e quando tateia algo em seu caminho, se esconde e espera, até ter coragem de pôr as antenas para fora novamente. E, caso ainda haja esse algo, volta a se esconder, e passa ainda mais tempo escondido.

Tendo isso em vista, é possível, então, entender a metáfora global da história: o deserto é nossa própria mente. O tempo que o Narrador passa com o Pequeno Príncipe é uma jornada de auto-descobrimento, e a água que o Narrador, angustiado, teme acabar, é a sua satisfação espiritual. Mas, e o Príncipe?

O Príncipe vivia em seu pequeníssimo planeta e adora o pôr-do-sol. Um dia, no entanto, nasceu uma bela flor em seu planeta e o Príncipe, encantado por sua beleza, cuidou dela de todas as maneiras possíveis. Embora caprichosa, vaidosa, e um tanto egoísta, o Príncipe a ama inteiramente. Após satisfazer todos os desejos dela – cuidá-la, protegê-la do vento e até cobrí-la com uma redoma de vidro, símbolos muito claros – o Príncipe decide ir embora do seu planeta, e precisa abandonar a flor.

O diálogo de despedida entre ela e o Príncipe é notável, mas gostaria de citar outra passagem, aqui.

“Não a devia ter escutado – confessou-me um dia – não se deve nunca escutar as flores. Basta olhá-las, aspirar o perfume. A minha embalsamava o planeta, mas eu não me contentava com isso. A tal história das garras, que tanto me agastara, me devia ter enternecido. Confessou-me ainda: “Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas palavras. Ela me perfumava, me iluminava … Não devia jamais ter fugido. Deveria ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores! Mas eu era jovem demais para saber amar.”

“A tal história das garras” se refere à flor ser dizer não temer tigres ou grandes animais, já que possui quatro espinhos; o que nos chama atenção, já que, tão suscetível ao vento, por exemplo, a flor não teme tigres.

Assim, o Pequeno Príncipe sai por alguns planetas e encontra alguns adultos: o Rei, o Vaidoso, o Bêbado, o Homem de Negócios, o Acendedor de Lampiões e o Geógrafo. Cada um com suas peculiaridades revelam as facetas paradoxais e desprovidas de sentido do bom adulto. Cada um dos diálogos é muito interessante e nos afeta profundamente, nos levando a uma introspecção profunda.

Por último, Príncipe chega na Terra, onde encontra o Narrador, perdido no deserto.

A partir daí, há várias outras passagens interessantíssimas. Uma das quais preciso destacar é o momento quando o Príncipe, ao encontrar com uma flor solitária no deserto, pergunta se não há pessoas nesse planeta, e ela lhe responde: “Os homens? Eu creio que existem seis ou sete. Vi-os há muitos anos. Mas não se pode nunca saber onde se encontram. O vento os leva. Eles não tem raízes. Eles não gostam das raízes.”.

E o Príncipe, então, sobe em uma montanha, esperando encontrar homens. Ao falar, escuta apenas o eco das montanhas e acha que “(…) os homens não têm imaginação. Repetem o que a gente diz (…)”. O que prova que mesmo o Príncipe, tão virtuoso, é capaz de tomar conclusões tão apressadas – e, que, apesar disso, condiz com o comportamento de alguns dos adultos que ele encontrou previamente. Abstratamente, é a mistura de um meta-Narciso com um anti-Narciso.

Chegamos, então, à parte mais citada do livro. O Príncipe, ao caminhar pelo deserto, encontra um jardim repleto de rosas, iguais àquela que ele tanto ama e deixou em seu planeta, e fica profundamente desapontado, por sua flor ter dito que era única. Ele, então, encontra a Raposa.

A Raposa aparece inexplicavelmente, quase como uma epifania. Ela simboliza a sabedoria e entende como as coisas são na Terra, e as explica para o Príncipe. A Raposa fala sobre os caçadores, e sobre galinhas.

“- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também.”
 
E, então, a Raposa explica ao Príncipe sobre cativar as pessoas, e sobre as sutilezas que os olhos não vêem. E como sobre, a partir de então, as pessoas não são só outras pessoas. É uma das passagens mais emocionantes do livro, de fato, e é a culminância de todos os sentimentos e a explicação de todos os anseios do Príncipe. É então que a Raposa profere as duas frases mais citadas:

“O essencial é invisível para os olhos.”
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

Não desmereço de forma alguma, quaisquer uma dessas citações. Todavia, preciso alertá-los com veemência de que nenhuma das duas, nem as duas juntas, conseguem carregar, nem de longe, o sentido e o sentimento que o diálogo inteiro – junto com o entendimento de toda a história – transmite.

Em um breve e importantíssimo capítulo, o Príncipe encontra um vendedor de pílulas que matavam a sede, e segundo o vendedor, “os peritos calcularam: a gente ganha cinqüenta e três minutos por semana.”. Ao que o Príncipe responde:
“- E que se faz, então, com os cinqüenta e três minutos? – O que a gente quiser… “Eu, pensou o principezinho, se tivesse cinqüenta e três minutos para gastar, iria caminhando passo a passo, mãos no bolso, na direção de uma fonte…”

Como eu disse, a sede é espiritual. Essa passagem faz uma crítica à mente moderna, quando tenta aplacar a sede espiritual e “ganhar tempo”. Uma crítica comparável ao famoso “Deus está morto” nietzscheano, de igual poder metafórico. E, a resposta do Príncipe, que mostra ser o caminho tão importante – ou mais – que o fim.

Aí, então, o Príncipe entende, e volta para o Narrador, a fim de concluir sua jornada. Então, fica a cargo de vocês, lerem o livro, para descobrir e entender o final.

Ainda gostaria de comentar detalhes, como as ilustrações de Saint-Exupéry. São ilustrações “infantis”, mas cuja estética é perfeita e condizente com, tanto o objetivo, como o conceito do livro. Qualquer outro tipo de ilustração seria incompatível.

Novamente, gostaria de ressaltar que há inúmeras sutilezas e mensagens que eu decidi que não poderia abordar, como os baobás, o carneiro, a cobra, vários dos diálogos, mais sobre a dualidade adulto x criança, os planetas, entre outras coisas. Mas, novamente, sintam-se à vontade de se manifestar nos comentários.

“- Os homens de teu planeta cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim… e não encontram o que procuram…
– E, no entanto, o que eles procuram poderia ser encontrado numa só rosa, ou num poço de água.
– Mas os olhos são cegos. É preciso ver com o coração…”

Referências:
http://www.overmundo.com.br/overblog/uma-breve-analise-sobre-o-pequeno-principe
http://www.sparknotes.com/lit/littleprince/

Por Eduardo Souza.