O Mito da Caverna de Platão

“O Mito da Caverna” é uma metáfora desenvolvida por Platão no século IV a.C  que se encontra  no Livro VII da atemporal obra “A República”, trabalho esse que trata principalmente das questões relacionadas à justiça. A alegoria em destaque relata um Diálogo Socrático com Glauco e Adimanto (irmãos de Platão), no qual o ilustre e pioneiro pensador traça uma distinção fundamental entre a ignorância e a sabedoria.

A ignorância, oposto da sabedoria, não é tratada aqui simplesmente como a falta de conhecimento, mas também como as falsas conclusões. Conclusões essas que podem ser formadas por religiões exotéricas, senso-comum, superstições e mitos.

Ao estarmos presos em uma falsa realidade, uma imagem errônea ou incompleta do real é adquirida. Costumo definir o “real” como a essência de um objeto – material ou abstrato -, e a “realidade” como a maneira a qual este objeto se apresenta aos nossos sentidos – biologicamente e culturalmente. O objetivo da alegoria e dos grandes filósofos é entender o real e trazê-lo para a realidade, eliminando assim, a ignorância trazida por um olhar inocente da realidade.

Sócrates – Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.
Glauco – Estou vendo.
Sócrates – Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.
Glauco – Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.
Sócrates – Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?
Glauco – Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?
Sócrates – E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?
Glauco – Sem dúvida.
Sócrates – Portanto, se pudessem se comunicar uns comos outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?
Glauco – É bem possível.
Sócrates – E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?
Glauco – Sim, por Zeus!
Sócrates – Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados?
Glauco – Assim terá de ser.
Sócrates – Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?
Glauco – Muito mais verdadeiras.
Para ler a conclusão do “Mito da Caverna”, clique AQUI.
A alegoria da caverna trata de uma transição do pensamento ignorante (metaforicamente, a escuridão) para uma sabedoria racional (retratada como a claridade), que apesar de ser um trajeto doloroso, é fundamental para a pessoa humana. E o processo para a consciência surgir, segundo Platão, depende de dois fatores: domínios das coisas sensíveis (eikasia e pístis) e das idéias (diánoia e nóesis). Aparentemente, para o ilustre pensador, a maior parte dos humanos vive ignorante, apenas no mundo ilusório das coisas sensíveis, das imagens (eikasia).

Maurício de Souza, criador das histórias em quadrinho infantis “Turma da Mônica”, ilustrou de uma maneira bela, simples e clara o “Mito da Caverna”, dando uma postura moderna de um novo grilhão – a televisão.


Concluindo, uma das funções da filosofia é fazer com que nós nos libertemos das algemas que são colocadas por nossa sociedade. Essas algemas são o senso-comum, que retratam falsas ou incompletas verdades, que nos fazem perceber o real de maneira incoerente. Para a obtenção da sabedoria – não confunda com conhecimento -, é necessário que primeiramente essa vontade floresça dentro de cada um de nós, para que então, possamos viver em uma civilização mais justa e menos ignorante. 
 
Por Italo Lins
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3 thoughts on “O Mito da Caverna de Platão

  1. Ah, por isso considero tão bom estudar a filosofia antiga! Não consigo parar admirar o quanto essa tão antiga metáfora se torna cada vez mais atual! E, por outro lado, como me assusta, pensar que depois de tanto tempo, o mundo ainda obedece a tais leis.

    Sim, acho que esse mito é o ideal para explicar o ofício do filósofo – ou, no mínimo, o objetivo do pensador. É justamente libertar os demais dos grilhões da ignorância. Não como um herói, não se valorizando, mas sim como Sócrates próprio fazia: induzindo-os a pensar.

    Aproveitando, queria ressaltar a genialidade de Maurício de Souza, que, além de um grande artista, é um pensador e um empreendedor. Apesar de, às vezes, não darmos muito valor, ele é um expoente artístico importantíssimo, tanto, que foi amigo pessoal de Osamu Tezuka, o fundador do mangá, talvez a narrativa visual mais vendida no mundo.

    Ia até falar de alguns mitos contemporâneos, mas talvez isso fique até para um post…

    Mas, tenho uma dúvida, Italo. E claro que essa pergunta se estende para todos os leitores: como distinguir sabedoria de conhecimento?

  2. É bem fácil fazer a distinção entre esses dois conceitos, cara. Inclusive, a dualidade entre ambos é um dos maiores obstáculos da filosofia. Vou começar pelo conhecimento, que eu acredito que seja mais fácil a definição.

    O conhecimento é a simples noção justificada (o “justificado” vem da interpretação de Platão) de algum evento ou objeto. Por exemplo, se você começar a ler a Constituição Brasileira, será notável o seu domínio perante o que é legal ou ilegal.

    A sabedoria, entretanto, é algo mais interior, pessoal. Tem um quê relacionado à prática, é como se fosse uma questão de: “certo, você tem o conhecimento. E agora, o que podemos fazer com ele?”. Sabio é aquele que consegue transmitir o conhecimento e aplicá-lo. Por sinal, sabedoria em grego é “sofia”, aquela mesma de filoSOFIA – amor à sabedoria.

    A questão da praxis então, é uma herança de Karl Marx, que muitas vezes chegou a criticar a passividade da filosofia, que muito sabia, mas pouco fazia. A união de sabedoria e conhecimento então, é o maior objetivo da filosofia, embora a sabedoria seja algo trascendental, e o conhecimento, cultural.

    Espero que tenha ficado claro, abraço cara!

  3. Vou dar uma interpretação ligeiramente diferente sobre sabedoria.

    Em que consiste a sabedoria ? Em obter as condições para fazer a humanidade e a natureza, todos os seres humanos e sensíveis em geral, incluindo-se a si próprio, se tornar melhores e cada vez mais humanos, livres, solidários compassivos e amorosos.

    Que são seres melhores ? São aqueles que seguem ou tentam com todas as suas forças seguir a lei maior sem a descumprir, ou descumprindo-a o mínimo possível – faz com todos os outros seres apenas como queres que te façam, ajuda teus irmãos. Em última análise, não consiste nem em ser nem em não ser. Apenas fluir. Realizar esta verdade, em si mesmo, é a mais alta sabedoria, a luz a qual se referiu Platão. A clara luz primordial que é a natureza da mente.

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