O Pequeno Príncipe

A maioria das vezes que vi esse livro ser mencionado, foi com a seguinte citação:

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

Devo reconhecer, essa frase está presente em um dos momentos mais emocionantes e marcantes da leitura do livro, provavelmente, então, por isso ser tão citada. Entretanto, imaginar que uma obra tão profunda e tão mais densa pode ser citada “apenas” por isso, é um engano dramático.

Quando eu tinha algo como 10 anos – sei lá, não lembro da minha infância direito, nem tenho noção de idade das crianças – minha mãe entrou em contato com esse livro. Parece até que foi um livro indicado pela escola. Não importa, na verdade. No fim das contas, ela o leu. Eu via ela se emocionando fatalmente ao ler aquele livro cuja capa era um menininho loiro em cima de um asteróidezinho roxo.

Assim que ela terminou de ler, ela veio pra mim, quase aos prantos, e me disse pra ler aquele livro, pois era uma lição de vida. Depois, ela deve ter insistido, e eu, criança teimosa que devia ser, nunca toquei no livro. Grandessíssimo erro meu. Hoje, gostaria de ter lido àquela época, para que, quando tivesse lido novamente agora, poder comparar o que eu teria pensado então. De qualquer maneira, não é o tipo de arrependimento que vai me matar.

Esses dias, depois de alguns conselhos, decidi ler o livro. “Minha mãe tava certa”, foi o que me passou pela cabeça depois de ler a primeira página.

O Pequeno Príncipe é uma espetacular e simples metáfora sobre a natureza humana em si. Incrivelmente cheio de sutilezas e subjetividade, a história faz você pensar e se descobrir consciente ou inconscientemente, de modo que, como minha mãe disse, é uma lição de vida: você não vai ser o mesmo quando terminar esse pequeníssimo e simples livro.

Infelizmente, eu não posso tratar de todas as pequenas sutilezas no post unicamente; terei, então, de ser o mais suscinto possível. Mas não deixem de se utilizar dos comentários para (bom, comentar) discutir outros elementos não citados ou pouco desenvolvidos.

É difícil explicar o enredo d’O Pequeno Príncipe. Entretanto, farei uma tentativa. Sendo simplista por demasia, o livro narra o encontro entre o Pequeno Príncipe e um aviador – o Narrador, que após algum problema no avião, pousa no deserto do Sahara.

Entretanto, o livro não começa assim. O primeiro assunto tratado é o emburrecimento das pessoas à medida que crescem e são inseridas na sociedade. Um dos temas recorrentes do livro é a valorização da capacidade imaginativa que as crianças têm. O Narrador fala de sua experiência tendo tentado desenhar um jibóia engolindo um elefante, aos seis anos. Com a ilustração do próprio Exupéry, o Narrador explica como seu talento de artista foi podado a partir do momento que os adultos viam apenas um chapéu e o desencorajavam para a arte. Ele carrega esse sentimento de remorso” e lembra do fato diversas vezes ao longo do livro.

Essa experiência remete a um texto de Theodor Adorno e Max Horkheimer, que compara a inteligência à antena de um caracol. Um caracol se guia unicamente pela antena, e quando tateia algo em seu caminho, se esconde e espera, até ter coragem de pôr as antenas para fora novamente. E, caso ainda haja esse algo, volta a se esconder, e passa ainda mais tempo escondido.

Tendo isso em vista, é possível, então, entender a metáfora global da história: o deserto é nossa própria mente. O tempo que o Narrador passa com o Pequeno Príncipe é uma jornada de auto-descobrimento, e a água que o Narrador, angustiado, teme acabar, é a sua satisfação espiritual. Mas, e o Príncipe?

O Príncipe vivia em seu pequeníssimo planeta e adora o pôr-do-sol. Um dia, no entanto, nasceu uma bela flor em seu planeta e o Príncipe, encantado por sua beleza, cuidou dela de todas as maneiras possíveis. Embora caprichosa, vaidosa, e um tanto egoísta, o Príncipe a ama inteiramente. Após satisfazer todos os desejos dela – cuidá-la, protegê-la do vento e até cobrí-la com uma redoma de vidro, símbolos muito claros – o Príncipe decide ir embora do seu planeta, e precisa abandonar a flor.

O diálogo de despedida entre ela e o Príncipe é notável, mas gostaria de citar outra passagem, aqui.

“Não a devia ter escutado – confessou-me um dia – não se deve nunca escutar as flores. Basta olhá-las, aspirar o perfume. A minha embalsamava o planeta, mas eu não me contentava com isso. A tal história das garras, que tanto me agastara, me devia ter enternecido. Confessou-me ainda: “Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas palavras. Ela me perfumava, me iluminava … Não devia jamais ter fugido. Deveria ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores! Mas eu era jovem demais para saber amar.”

“A tal história das garras” se refere à flor ser dizer não temer tigres ou grandes animais, já que possui quatro espinhos; o que nos chama atenção, já que, tão suscetível ao vento, por exemplo, a flor não teme tigres.

Assim, o Pequeno Príncipe sai por alguns planetas e encontra alguns adultos: o Rei, o Vaidoso, o Bêbado, o Homem de Negócios, o Acendedor de Lampiões e o Geógrafo. Cada um com suas peculiaridades revelam as facetas paradoxais e desprovidas de sentido do bom adulto. Cada um dos diálogos é muito interessante e nos afeta profundamente, nos levando a uma introspecção profunda.

Por último, Príncipe chega na Terra, onde encontra o Narrador, perdido no deserto.

A partir daí, há várias outras passagens interessantíssimas. Uma das quais preciso destacar é o momento quando o Príncipe, ao encontrar com uma flor solitária no deserto, pergunta se não há pessoas nesse planeta, e ela lhe responde: “Os homens? Eu creio que existem seis ou sete. Vi-os há muitos anos. Mas não se pode nunca saber onde se encontram. O vento os leva. Eles não tem raízes. Eles não gostam das raízes.”.

E o Príncipe, então, sobe em uma montanha, esperando encontrar homens. Ao falar, escuta apenas o eco das montanhas e acha que “(…) os homens não têm imaginação. Repetem o que a gente diz (…)”. O que prova que mesmo o Príncipe, tão virtuoso, é capaz de tomar conclusões tão apressadas – e, que, apesar disso, condiz com o comportamento de alguns dos adultos que ele encontrou previamente. Abstratamente, é a mistura de um meta-Narciso com um anti-Narciso.

Chegamos, então, à parte mais citada do livro. O Príncipe, ao caminhar pelo deserto, encontra um jardim repleto de rosas, iguais àquela que ele tanto ama e deixou em seu planeta, e fica profundamente desapontado, por sua flor ter dito que era única. Ele, então, encontra a Raposa.

A Raposa aparece inexplicavelmente, quase como uma epifania. Ela simboliza a sabedoria e entende como as coisas são na Terra, e as explica para o Príncipe. A Raposa fala sobre os caçadores, e sobre galinhas.

“- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também.”
 
E, então, a Raposa explica ao Príncipe sobre cativar as pessoas, e sobre as sutilezas que os olhos não vêem. E como sobre, a partir de então, as pessoas não são só outras pessoas. É uma das passagens mais emocionantes do livro, de fato, e é a culminância de todos os sentimentos e a explicação de todos os anseios do Príncipe. É então que a Raposa profere as duas frases mais citadas:

“O essencial é invisível para os olhos.”
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

Não desmereço de forma alguma, quaisquer uma dessas citações. Todavia, preciso alertá-los com veemência de que nenhuma das duas, nem as duas juntas, conseguem carregar, nem de longe, o sentido e o sentimento que o diálogo inteiro – junto com o entendimento de toda a história – transmite.

Em um breve e importantíssimo capítulo, o Príncipe encontra um vendedor de pílulas que matavam a sede, e segundo o vendedor, “os peritos calcularam: a gente ganha cinqüenta e três minutos por semana.”. Ao que o Príncipe responde:
“- E que se faz, então, com os cinqüenta e três minutos? – O que a gente quiser… “Eu, pensou o principezinho, se tivesse cinqüenta e três minutos para gastar, iria caminhando passo a passo, mãos no bolso, na direção de uma fonte…”

Como eu disse, a sede é espiritual. Essa passagem faz uma crítica à mente moderna, quando tenta aplacar a sede espiritual e “ganhar tempo”. Uma crítica comparável ao famoso “Deus está morto” nietzscheano, de igual poder metafórico. E, a resposta do Príncipe, que mostra ser o caminho tão importante – ou mais – que o fim.

Aí, então, o Príncipe entende, e volta para o Narrador, a fim de concluir sua jornada. Então, fica a cargo de vocês, lerem o livro, para descobrir e entender o final.

Ainda gostaria de comentar detalhes, como as ilustrações de Saint-Exupéry. São ilustrações “infantis”, mas cuja estética é perfeita e condizente com, tanto o objetivo, como o conceito do livro. Qualquer outro tipo de ilustração seria incompatível.

Novamente, gostaria de ressaltar que há inúmeras sutilezas e mensagens que eu decidi que não poderia abordar, como os baobás, o carneiro, a cobra, vários dos diálogos, mais sobre a dualidade adulto x criança, os planetas, entre outras coisas. Mas, novamente, sintam-se à vontade de se manifestar nos comentários.

“- Os homens de teu planeta cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim… e não encontram o que procuram…
– E, no entanto, o que eles procuram poderia ser encontrado numa só rosa, ou num poço de água.
– Mas os olhos são cegos. É preciso ver com o coração…”

Referências:
http://www.overmundo.com.br/overblog/uma-breve-analise-sobre-o-pequeno-principe
http://www.sparknotes.com/lit/littleprince/

Por Eduardo Souza.

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9 thoughts on “O Pequeno Príncipe

  1. Esse livro me emociona profundamente e é, de fato, o melhor livro que já li. No entanto, diante desse texto, eu não consigo comentar nada além de: excelente.

  2. Pode parecer conversa de miss de cabeça vazia, mas é o melhor livro que ja li na vida. E já li umas tres vezes em idades diferentes. Eu ouvi meu pai quando ele me deu o livro aos dez anos 😄

    E o final trata um pouco de transcendencia e esperança. É uma das minhas partes preferidas e que todo mundo (ou quase) esquece

  3. Sim, o final é bem disso, Ivson! Trata muito da imortalidade dele. E, cacete, eu posso jurar que consegui ouvir a risada inocente dele, enquanto chorava loucamente, terminando de ler o livro.

    Algo que eu esqueci de colocar no post: é que me parece que todos os personagens são, de fato, partes da nossa mente. Como se todos coexistissem de fato em nós mesmos. Por isso a jornada toda ser de auto-conhecimento, também.

  4. Muito bom o texto, cara!

    É como a gente estava conversando por esses dias, “O Pequeno Príncipe” e “Alice no País das Maravilhas” são livros infantis e maduros ao mesmo tempo, já que dependem unicamente da interpretação do leitor. Um olhar inocente, vai conseguir apenas algumas horas de diversão, enquanto uma visão a fundo, horas para pensar no que acabou de ler. Uma questão de paralaxe mesmo.

    E de fato “O Pequeno Príncipe” remete à questões do auto-conhecimento, amizade e tudo que foi mencionado na postagem.

    Por sinal, eu acredito que esteja devendo uma releitura dessa obra.

  5. Italo,

    Sim, exatamente! E eu ainda acho que passei por cima de muita coisa! É preciso uma mente muito experiente e preparada pra entender essa obra na totalidade!

    Adi!

    Leia o livro, mesmo! É pequeníssimo, e é muito genial! E depois passa por aqui de novo para nos doar um tanto de seu conhecimento! 😀

  6. Primeiramente, parabéns pelo post(MARAVILHOSO!).
    Para mim, a leitura tem a capacidade de nos modificar, de nos tornar um pouco melhores. Em o Pequeno Príncipe, isso é presente em todas as páginas. Foi o primeiro livro que ganhei de presente na vida e, sem dúvida, ainda hoje consigo aprender algo diferente a cada nova releitura que faço. Me impressiona tamanha genialidade do autor. A delicadeza e os ensinamentos dos diálogos são marcantes. Muitos trechos do livro ficaram guardados na memória. Mas quero deixar uma recomendação a todos o que amam a história do Pequeno Príncipe: leiam também O MENINO DO DEDO VERDE, também da academia francesa, do escritor Maurice Druon. Eu tive a sorte de ganhá-lo como segundo livro da vida. E há a possibilidade de fazermos um paralelo entre os dois. Também é um livro infantil que só quando se é mais velho, entende-se o total significados de suas páginas.Enquanto a história do Pequeno Príncipe é atemporal, a do Menino do Dedo Verde é produto da era dos conflitos e da poluição. A tarefa de Tistu(personagem principal) é portanto tentar modificar esse cenário. O livro narra a trajetória de Tistu em Mirapólvora com Sr. Papai, D. Mamãe, Ginástico, Sr Trovões, Bigode, Dr. Milmales… Sem dúvida, é um daqueles livros que fascinam, encantam e marcam nossas vidas. Aguardo um post sobre ele, para podermos comentá-lo. Mais um vez, muito obrigada por mais um momento de leitura tão simples e cativante. Abraços,Ana.

  7. Ana,

    Brigado, antes de tudo :]
    O Pequeno Príncipe é exatamente assim! Eu acho que uma das coisas que mais encanta nele, também, é a subjetividade que a gente encara cada um dos diálogos. A gente se identifica, porque, como eu disse, acredito que tudo aquilo são elementos da nossa mente. Então, todos ali são cada um de nós, em maior ou menor escala.

    Esses dias, eu tava lendo umas cartas que Saint-Exupéry escreveu para uma mulher pela qual ele se apaixonou, e me impressionou ver como ele se confundia com o Príncipe! Em alguns momentos ele se tratava como Príncipe,e, na frase seguinte, era Saint-Exupéry de novo. Acho que, de algum modo, ele conseguiu manter aquela criança, na acepção mais pura da palavra, viva dentro dele, literalmente, talvez até como um alterego.

    Recomendação interessante! Vou procurar por esse livro, sem dúvida, e pode aguardar que o post virá! 😀

  8. lindo de mais esse livro adorei eate fiz teabalho de escola sobre ele

    leia esta recomendado!!!!!!!!!!!!!!!

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