Uma Percepção Além do Mundo Externo

Parte 2

“Não há fatos, apenas interpretações” Friedrich W. Nietzsche

Em poucas, mas sábias palavras Friedrich Nietzsche conseguiu sintetizar parte dos pensamentos que irão ser abordados neste texto. As idéias as quais tratarei de exprimir serão relacionadas à uma possível inexistência de um mundo exterior como essência. Sim, como se tudo que nós percebemos no mundo exterior fosse apenas uma tradução produzida pelo cérebro através de impulsos nervosos captados pelos sensores.
Immanuel Kant, antecedendo Nietzsche, afirmou que a realidade somente é alcançada pelos humanos através dos cinco sentidos: audição, olfato, paladar, tato e visão. Para além dos sentidos, nada pode ser julgado existente, mas que também seria um equívoco classificar o desconhecido como inexistente, já que não é pela razão de não percebermos a presença de algum objeto que podemos nos dar ao luxo de dizer que o mesmo não existe.
A visão funciona de uma maneira bem simples e está relacionada diretamente ao auxílio da luz. Um objeto qualquer fotografado pelo olho incide sobre a retina, que armazena a luz e a transforma em impulso nervoso, que é recebido pelo nervo óptico, o qual envia a mensagem para o lobo occipital – na figura abaixo, a área pintada de roxo – do nosso cérebro, que traduz a imagem e faz com que percebamos que ela existe de forma suposta. Parece um longo caminho, mas todo esse processo ocorre em uma fração de segundo.

Os olhos e todos os seus componentes na verdade são apenas convertores, assim como algum programa que converte formatos de vídeos (por exemplo, de mpeg para avi). O real intérprete da imagem é o cérebro. E, o mais curioso, é que para a massa encefálica, não há diferença entre enxergar algo ou se lembrar de alguma imagem, já que as mesmas regiões, segundo pesquisas detalhadas, ficam igualmente excitadas em ambos os casos.

Para chegar à minha conclusão, acho necessário citar outro exemplo sensorial: a audição. O processo, como você vai perceber claramente, não é muito distinto se comparado à visão. A grande diferença é que ao invés da importância da luz, as vibrações sonoras e o ar são os agentes.

O ar é importante porque é através dele que as vibrações sonoras trafegam – isso explica o porquê de não se poder captar efeitos sonoros no vácuo. As ondas sonoras penetram no pavilhão auditivo, fazendo o tímpano vibrar, que em efeito em cadeia, faz com que os três pequenos ossos – martelo, estribo e bigorna – também vibrem. Os movimentos são captados pela cóclea (também chamada, por motivos aparentes, de “caracol”), a qual, de forma análoga à retina e ao nervo óptico, transforma as ondas em impulsos nervosos e transmite-os ao cérebro.
Muitos então pensam que principalmente os olhos e os ouvidos são autônomos em relação à interpretação do que percebemos. Mas trata-se de um grande engano, já que junto às papilas gustativas, terminações nervosas da pele e os receptores olfativos, a cóclea e o nervo óptico são apenas transmissores de impulsos nervosos. Através da captação de algo material – já que inclusive os fótons são considerados matéria – e da modificação em impulsos, o cérebro nos guia para a realidade, que embora convincente, pode ser falsa.
Falsa porque tudo depende de uma questão de referencial, como Newton fazia menção. O cérebro enquanto máquina tradutora consegue modificar a realidade, assim como citei que não há diferença nervosa entre uma recordação, sonho ou um fato presente. A diferença é que nos dois casos alternativos, há sistemas que bloqueiam a atividade dos músculos para que nós não tentemos correr por simplesmente pensar nas figuras de leões ou onças. No sonho, entretanto, o mesmo ocorre, mas com exceções. Essa exceção se chama “Paralisia do Sono”; que acontece quando um indivíduo acorda, mas seu cérebro permanece em estado de relaxamento, fazendo com que as imagens abstratas do sonho apareçam no “mundo real” enquanto seus músculos ficam estáticos.

A física quântica também entra no debate. Os físicos relatam que todo o universo está em movimento desordenado, e que tudo está baseado em probabilidades, ou seja: o que nós percebemos é o mais provável de estar estável. Então, tudo que nós estamos vivendo pode ser irreal, o que deixará em questão de relatividade a própria percepção do tempo. Por exemplo, a nossa vida pode ser um sonho de uma outra vida.

Seguindo essa interpretação, nós não podemos perceber o que controla o cérebro, já que ao enxergarmos a nossa própria massa encefálica – se isso fosse possível – chegamos à conclusão de que ela, inclusive, não passa de uma ilusão. A única solução hoje é nomear essa força metafísica que controla o cérebro de alma – que difere bastante de espírito, que está diretamente relacionado à figura humana. Embora eu não tenha opinião formada sobre a existência de espíritos – já que é um assunto bastante delicado – eu tendo a acreditar na alma, por mais que possa me referir a ela como “força maior”.
O que controla a alma? Para esse caso, a resposta é difícil porque não temos noção da essência da alma. Entretanto, eu acredito que seja a mesma proporção do universo, já que sabemos que ele existe, mas não conseguimos definir o que há um centímetro após o fim do mesmo.
Nós não temos certeza se a vida é real ou não, e mesmo se não for, temos que tratá-la da melhor maneira possível, pois os sentimentos e a moral não são ilusórios e estamos a tratar no dia-a-dia com animais que merecem respeito – por mais que alguns implorem por não merecer. A ciência está avançando e nós estamos caminhando juntos à ela perante essas respostas. Espero estar em vida – falsa ou não – para saber e contribuir com esses resultados.
Por Italo Lins
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17 thoughts on “Uma Percepção Além do Mundo Externo

  1. Holy Mother of God. Isso é extensivamente mind blowing, cara! Um post exemplaríssimo, bem holístico, extrememamente bem elaborado e conectado. Meu Deus, parabéns! Ter usado uma analogia com Newton para explicar a não-existência do real! *___*

    Tendo dito isto, aos longos comentários, então!

    Enquanto via o vídeo (especialmente a parte que ele dizia que o universo está em nossas mentes), eu lembrei de um princípio “ocultista” (não gosto muito dessa palavra, pelas pessoas terem muito preconconceito): As above, so below, como aprendi com Del Debbio. Tudo que está abaixo, é igual ao que está acima. E isso reforça a idéia toda: se há um universo que todos entendemos que existe, e, dentro de cada um de nós há outro universo, porque não não há outro “planeta Terra” dentro das mentes de cada um? Mais ou menos como disse Dostoiévsky naquele conto espetacular que tu postou.

    Outra coisa que sempre me deixa muito intrigado: a finíssima linha (se é que existe!) entre as psicopatologias e a metafísica (que também me lembra o Elogio da Loucura!). Ora, se tudo que percebemos são só descargas elétricas, como poderíamos dizer que aquilo que um esquizofrênico (ou, no mínimo, alguém “viajado”) percebe é ilusão, ou irreal? Vou mais longe: o senso comum é uma histeria coletiva!

    Só a nível de observação, ótima escolha na tela para ilustrar! Fuseli é ótimo em passar sensações com composições tão verossímeis. Diria ser um meio-termo entre Rubens e Van Gogh, pra ser mais claro!

    Essa coisa toda do sonho me lembrou novamente o conto de Gaiman que eu vivo te dizendo pra ler, que tem no Fragile Things! O nome do conto é Goliath, e pra quem quiser, tem no site de Matrix, pra ler: http://whatisthematrix.warnerbros.com/cmp/neil_g.html

    E, sim, claro, isso é TUDO que Matrix prega. Até lembro de ter comentado contigo da possibilidade de a realidade que a gente vê em Matrix, ser uma outra Matrix, já que, de uma maneira fisicamente inexplicável, Neo consegue parar as máquinas mesmo no mundo real. Será que no final da trilogia, Neo foi o único a sair da Meta-Matrix, por assim dizer?

    E, sim, devemos trabalhar para o melhor dessa realidade que temos em mãos, mesmo que ela não seja real. De qualquer maneira, é tudo que temos, e que podemos perceber. E se há, de fato, algo além ou diferente disso, só a partir das melhorias desta é que poderemos descobrir.

    Parabéns de novo, Italo!

  2. Thank you, my friend!

    E bem acrescentada a questão das psicopatologias, cara. Na verdade não se pode dizer que as percepções visuais de um esquizofrênico são falsas ou erradas. São apenas percepções, que são diferentes quando comparadas às dos “não-esquizofrênicos”. Claro que isso estamos trabalhando no âmbito da filosofia, já que no da psicologia, o mais aconselhável é um tratamento, não uma aceitação dessa realidade.

    E isso também me leva a refletir sobre os conceitos de “bem” e “mal”, que nada mais são que heranças culturais. É como se a gente pudesse viver em uma sociedade altamente masoquista – e que de fato vivemos mesmo sem analogia, se você for observar o progresso à custa da nossa sobrevivência – sem perceber, já que o senso-comum vive livre de questionamentos. É a eterna busca pela essência humana, se é que ela existe.

    Enfim, eu fecho com a frase de Nietzsche novamente: “Não há fatos, apenas interpretações”

  3. WOOW!

    parabéns equipe da animus mundus, o blog de vocês tá sensacional!! todos os dias eu passo aqui pra ver quais são as novas, tá incrível! continuem assim que vão longe!

    felipe dantas

  4. Italo, finalmente hoje, depois de tanto tempo, decidi entrar no blog que fica ao lado do seu nick no msn. Então, me deparo com um texto simples, claro e MARAVILHOSO como esse. Parabéns mesmo, meu amigo! Adorei. O Animus Mundus, sem dúvida, receberá minhas visitas.
    É muito bom ver textos e comentários tão bem argumentados. Enfim, muito obrigada por nos proporcionar uma leitura tão agradável e intrigante. Concordo quando você fala sobre a importância de, apesar de não sabermos a respeito da realidade ou não da existência, nos esforçarmos ao máximo para fazermos o melhor possível. Mas eis um desafio bem difícil de se concretizar.
    P.S.:Vai fazer mais de um ano que eu não vejo mais vocês. Sinto falta do GGE apenas por causa das amizades.haushusahsauhasu

  5. haha muito obrigado, são coisas desse gênero – somado às críticas que possibilitam uma outra interpretação da leitura – que dão um impulso na vontade minha e de Eduardo de continuar em frente com essa idéia de blog. Então sem dúvidas está sendo algo muito gratificante, e até divertido.

    E a nossa idéia é justamente essa: provocar o pensamento do leitor. Não a simples aceitação do texto, mas uma reflexão sobre o caso, que muitas vezes é guardado na última gaveta do armário.

    Mas e você Aninha, por onde anda? Vou tentar entrar em contato com vocês por esses dias, nem se preocupe haha

  6. HUAhAUh, lindo cara, texto incrível, video fantástico, e com certeza nos faz pensar.

    ao ler o texto lembrei muito do outro post sobre Mindwalk de Capra, da conecção física que tudo tem! talvez essa “alma” de que falas, seja isso, essa coisa quantica que nos conecta.

    Eduardo, acabei de ler Goliath, muito bom! Vou tentar ler mais Neil Gaiman, esse cara tem umas viagens massa. o último livro que li dele foi “Lugar Nenhum” também gostei muito 😄

  7. eu vi esse video e agora eu acredito que tudo isso naos existe, esta em meu cerébro mas me pergunto as outras pessoas sao sinais eletricos e eu mesmo suponho mas entao pra essas pessoas eu tanbem sou sinal eletrico e pra mim elas sao sinais eletricos certo?

  8. Sim, exatamente, Gabriel. É algo parecido com o exemplo que eu dei em relação ao “tirar o cérebro da caixa craniana e perceber que ele mesmo é uma ilusão”.

    Mais pra frente que isso a ciência carece de resposta, mas muitos pensam que a essência do humano é a alma. Mas dizem que é “alma” porque é plausível e ainda, incompreensível. Ou seja, não vamos nos surpreender se todos esses conceitos espirituais cairem daqui a uns tempos. Ou sejam reafirmados, quem sabe?

    Um abraço!

  9. É verdade, Elder! Muito do que a ciência percebe hoje é fruto dos pensamentos de Buda, Confúcio e tantas outras figuras do pensamento oriental.

    Inclusive, isso entra na filosofia, já que por exemplo o ilustre Schopenhauer foi reconhecido por incorporar as idéias orientais ao pensamento ocidental.

    Mas também eu falo isso como uma perspectiva científica, já que podemos perceber a diferença entre matéria – e explicar como acontece – e abstrações.

    E você José, está completamente certo. É uma espécie de Matrix, justamente. Mas surge outra questão sobre isso: “estaríamos nós em uma matrix dentro de uma matrix que está dentro de uma matrix (…)?”

    Abraço!

  10. Bem, primeira vez no site..direcionado pelo Ocioso.com.

    Me interesso muito por esse assunto, sempre pensei parecido mas nunca tinha conseguido relacionar a explicação biológica(de como vemos as coisas) com o fato de não existirmos!

    Incrível o video. Apenas discordo de uma coisa, sobre os comentários dos esquizofrênicos. Se ele “percebe” os impulsos elétricos de uma pessoa imaginária, como poderíamos nós não perceber? Será que as informações “liberadas” para o cérebro dele são diferentes das nossas? Assim como mostra no vídeo, o cérebro ligado a um computador por pessoa?

    Penso eu, não ser um assunto filosófico ou psicológico, e sim de defeitos no cérebro..apesar de esse cérebro poder ser imaginário ehehehe.

    Aqui, mais um leito do blog, parabéns! Continuarei vindo pra ver o desenrolar desse assunto.

    Abraço!

  11. Jackson, de fato, é um ponto muito interessante! Eu falei a questão dos esquizofrênicos apenas em um âmbito filosófico, no qual “tudo é relativo e varia de acordo com a perceção de cada indivíduo”. Além do quê, toda essa nossa imagem “falsa” pode ser fruto da nossa experiência.

    Por exemplo, se a maior parte – vamos dizer, 95% da população mundial – dos humanos fosse o que chamamos de esquizofrênico hoje. E os outros 5% não o fossem. Na verdade, nessa sociedade, quem seriam os doentes? Muito provavelmente os 5%, que HOJE sabemos que são os saudáveis.

    A diferença é que nesse caso não há evidências reais de que a imagem vista é real. Mas se a vida não é real, isso nos torna esquizofrênicos em um grau relativo, não acha?

    Eu creio que é uma questão de percepção e cultural. Mas foi só um exemplo para relatar quão relativo pode ser essa questão. Nós, por exemplo, podemos ser masoquistas em relação a outras sociedades. A cultura é de fato algo muito significativo.

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