A Distopia dos Tempos Modernos

A idealização de um estilo de vida humano tornou-se objeto de estudo há inúmeros anos. “A República” de Platão, um grande exemplo, tentou definir o melhor caminho para uma sociedade no mínimo equilibrada, fazendo com que inclusive hodiernamente a obra seja alvo impetuoso de grandes pensadores. Mas nunca com fins práticos. Idéias como as platônicas, que parecem plausíveis apenas no âmbito metafísico, são classificadas como utópicas. Utopia, que do grego significa “não-lugar”, traduz a idéia de algo teoricamente impossível de se tornar realidade.
Por um meio ideológico distinto navegam escritores como George Orwell (em “1984“) e Aldous Huxley (em “Admirável Mundo Novo“), os quais profetizam um futuro irremediável no qual apenas a angústia e a dor serão as heranças da tola humanidade. Esses pensamentos são colocados na estante da distopia, que apesar de apocalíptica, pode nos fazer escapar da nossa caverna platônica obscura e alienada.
A obra “1984” de George Orwell foi um marco para a distopia, pois retrata de uma maneira concreta a visão de uma sociedade dominada por líderes ambiciosos que buscam apenas o poder. Na história, a Oceânia é um território liderado pelo Grande Irmão, uma figura imortal que representa não apenas o partido político vigente, mas toda uma cadeia de idéias ditatoriais. A população da Oceânia é dividida entre “proletas” e “membros do partido”, os quais são impedidos de produzirem pensamentos críticos. Para manter a população inerte, o partido faz uso das teletelas – aparelhos que vigiam os cidadãos vinte quatro horas por dia -, da Polícia das Idéias – responsável pela busca e apreensão dos pensadores – e da técnica de “duplipensamento”. O “duplipensamento” é a capacidade das pessoas em acreditar nos pensamentos dicotômicos (ou seja, que se o partido disser que 4+4 = 5, e depois vier a dizer que a mesma soma é igual a 3, então assim será). Em um futuro próximo, a idéia da elite é que a utilização de um novo idioma seja utilizado, a Novilíngua. Com esse novo idioma, palavras como “liberdade” seriam tiradas do dicionário, para que a população não soubesse o significado real da mesma. Algo parecido com as idéias do filósofo da linguagem Ludwig Wittgenstein, o qual falava que “A nossa inteligência vai até onde for a nossa linguagem”.

Em “1984“, através da mídia, o partido tem a capacidade de transformar o passado em elemento mutável, ou seja, consegue transmitir a idéia de que certas pessoas – em sua maioria, rebeldes – nunca existiram ou então que certo território nunca esteve em guerra com a Oceânia. É a prova de que a “memória-longa” é um aspecto positivo, e que no caso do Brasil, não é utilizada. Para incitar o ódio perante os grupos rebeldes, a classe dominante utiliza diariamente um evento chamado “Dois Minutos de Ódio”, que na verdade é um momento no qual os trabalhadores se reúnem para vaiar e cuspir na imagem dos grandes pensadores. O Socing – Socialismo Inglês – é falsamente utilizado, já que a democracia e igualdade não existem nesse sistema; e a hipocrisia dos ministérios é notável, já que o “Ministério do Amor” simbolizava a tortura, o “Ministério da Pujança” a escassez de alimentos, e os da “Paz” e “Verdade” pela guerra e mentiras, respectivamente. Orwell usa a idéia de que “apenas os proletas podem derrubar o partido”, partindo da premissa de que a dominação só irá cessar com a consciência de que vivemos em prol de uma estúpida e ínfima elite.

“Ignorância é força”, “Liberdade é escravidão” e “Guerra é paz”.
1984” é uma obra tão concreta que a passagem “(…) Era provável que as bombas-foguetes que caíam diariamente sobre a cidade fossem disparadas pelo próprio governo da Oceânia, ‘só para manter a população amedrontada'” retrata de uma maneira espetacular os “Atentados” de 11 de Setembro, no qual muito provavelmente o próprio governo dos Estados Unidos forjou as explosões para ter uma razão de pôr suas patas sedentas por petróleo no Oriente Médio.
O filme “Tempos Modernos” do grandioso cineasta e ator Charles Chaplin também faz uma reverência à estupidez coletiva, mas relacionado à mecanização do homem. Na verdade, à “mecanização do homem” e à “humanização da máquina”, já que Chaplin, no filme um trabalhador industrial, demonstra quão exaustivo era o trabalho mecânico e quão ingrata é a vida na sociedade, já que buscamos o famoso “Sonho Americano”, no qual as pessoas deveriam ter “uma mulher bonita, um bom café da manhã, um bom emprego, uma barba exemplar e um dia de sossego”. De uma forma graciosa, Chaplin, sempre otimista, demonstra que apesar da vida ser difícil, nunca deve-se perder as esperanças de que dias melhores virão, desde que busquemos nossos objetivos com vontade e um sorriso estampado.

O tolo “Sonho Americano” é retratado, inclusive, na figura ao lado, a qual representa a dualidade entre morte e beleza. E é esse mesmo sonho que impede uma possibilidade de reconhecimento do nossa própria honra, já que a busca desenfreada por bens materiais influenciada pelo capitalismo, só pode nos levar a uma história de pura distopia. O mundo estético tem uma causa vazia em mentes promissoras, que apenas deixam-se alienar pela vida ideal propagada pela sociedade.

“Escolha viver. Escolha um emprego. Escolha uma carreira. Escolha uma família. Escolha uma televisão enorme. Escolha lavadoras de roupa, carros, CD players e abridores de latas elétricos. Escolha boa saúde, colesterol baixo e plano dentário. Escolha uma hipoteca a juros fixos. Escolha sua primeira casa. Escolha seus amigos. Escolha roupas esporte e malas combinando. Escolha um terno numa variedade de tecidos. Escolha fazer consertos em casa e pensar na vida domingo de manhã. Escolha sentar-se no sofá e ficar vendo game shows chatos na TV enfiando porcaria na sua boca. Escolha apodrecer no final, beber num lar que envergonha os filhos egoístas que pôs no mundo para substituí-lo. Escolha o seu futuro. Escolha viver.” (Trainspotting)
“Os anúncios nos fazem comprar carros e roupas, trabalhar em empregos que odiamos para comprar as porcarias que não precisamos. Somos uma geração sem peso na história, cara. Sem propósito ou lugar. Nós não temos uma Grande Guerra. Nem uma Grande Depressão. Nossa Grande Guerra é a guerra espiritual. Nossa Grande Depressão é nossas vidas. Todos nós fomos criados vendo televisão para acreditar que um dia seríamos milionários, e deuses do cinema, e estrelas do rock. Mas nós não somos. Aos poucos vamos tomando consciência disso. E estamos muito, muito revoltados.” (Clube da Luta) 

Portanto, parece-me a cada momento que o caminho que a filosofia – munida também de outras áreas de estudo como a história, a psicologia e a sociologia – nos proporciona é o mais coerente para o entendimento dos hábitos e pensamentos humanos. Entretanto, a teoria é apenas uma questão de estética quando não aplicada à realidade, já que a frase “devemos amar” é branca perante o “ato de amar”. Por mais que tudo seja relativo e baseie-se em uma questão de perspectiva.

Se o futuro será distópico ou utópico? O objetivo de me importar em escrever neste blog é um pequeno grito de socorro rumo à utopia, a qual depende de nós. Tudo dependerá da intelectualização não apenas das classes financeiramente menos favorecidas, mas de todos os cidadãos. Embora, caso isso se concretize, no futuro, a inteligência – principalmente sem a honra – será um grande problema, sem dúvidas. E assim migra a cultura humana.

Por Italo Lins

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10 thoughts on “A Distopia dos Tempos Modernos

  1. Esse antiamericanismo é uma bobagem ultrapassada. Os EUA, com todos os defeitos, são uma nação amiga da democracia e que lutou junto com outros países (inclusive com o Brasil) para erradicar o Nazismo e o Comunismo. E não permitirá que a intolerância do Islã manche a liberdade do ocidente.

  2. Léo, seja bem-vindo ao blog, mas creio que eu não concordo completamente com você. Só para esclarecer, a crítica da postagem foi em relação a qualquer forma de alienação, e isso não está relacionado apenas aos Estados Unidos – tanto que se você já leu o livro “Revolução dos Bichos” do próprio Orwell, você sabe que a crítica era ao governo stalinista na Rússia.

    Entretanto, eu sei que, historicamente, os Estados Unidos não têm sido honrosos desde sua Independência – que por sinal, é mais gloriosa que a nossa. Podemos falar da Segunda Guerra, na qual os Estados Unidos era parte dos Aliados e a indústria Rockfeller também vendia armas para o Eixo. A própria alienação formada pelo “Sonho Americano”, as ditaduras arrumadas na América-Latina (como Pinochet no Chile) e no Oriente Médio. A guerra no Iraque apenas para adquirir petróleo. Nós mesmo, podemos estar em risco eminente por conta da camada pré-sal.

    São inúmeras coisas que me fazem não ser muito simpático com os Estados Unidos, e ainda mais com o sistema econômico no qual vivemos. E não, não sou comunista, mas de fato percebo que essa nossa “liberdade” não é tão evidente quanto parece ser, já que estamos induzidos a fazer inúmeras coisas que não respeitam a nossa própria personalidade. Mas sim, se você for parar para perceber eles estão apenas “defendendo o peixe deles”. Já que, para permanecer uma potência, nesse mundo em que vivemos, é sim necessário um imperialismo. Entretanto, essas atitudes não condizem com o meu conceito de honra.

    Então, eu diria que “assuntos políticos” são vistos como algo rude por mim. Tudo não passa de um jogo de interesses no qual os nossos não são atendidos como deveriam ser.

  3. “mas de fato percebo que essa nossa “liberdade” não é tão evidente quanto parece ser…”
    Lembrou-me uma passagem do Livro Dias e Noites de Amor e de Guerra,de Eduardo Galeano em que ele diz: “As únicas coisas Livres são os preços.”

    OBS:Parabéns pela postagem,excelente reflexão.

  4. por pessoas como leo que os seres humanos se mostram cada vez mais alienigenas em seu proprio ninho com mentes destorcidas e pensamentos dissimulados me entristesse mto

  5. Ah, muito bom!
    Não posso pedir mais explicação das referências pro meu post de V de Vingança 😀

    Genial, Italo.
    A reflexão no final foi muito bem colocada, muito profunda.

    Isso tudo me faz pensar no Big Brother – não do livro, mas sim o programa que passa. O nome é uma ironia em si, entende? Porque ao mesmo tempo que os espectadores “vigiam” os participantes, os próprios espectadores são completamente enganados e manipulados como os membros do partido. Muito engraçadinho isso.

    E eu me assusto com a veracidade e a plena possibilidade de um futuro assim. Orwell leva em consideração a ascenção de um governo fascista, enquanto Huxley, um governo “liberal”. Ora, que diferença isso faz, de fato? Obviamente, uma ditadura institucionalizada é absurdamente horrível; e eu não reclamo do capitalismo per se. Entretanto, o que quero dizer é: há muito mais semelhança entre a distopia ultra-neo-liberal de Huxley e a fascista de Orwell do que diferenças.

    E, eu lembro que, quando eu tava lendo esse livro, eu comentei com Alexandre Amaral (o professor de história lá do São Luís), e ele me mostrou uma foto que tinha sido tirada em um dos últimos discursos de Lenin, na URSS.Nela, estava a tríade: Lenin, Stalin e Trotsky. Quando Stalin assumiu o poder, ele deu um jeito de tirar Trotsky daquela foto, e fingir que ele nunca existiu. Eu tive medo.

    Ao passo que, se a gente for ver Huxley, ah, aí sim, se parece com nosso mundo…

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