Sócrates e o Senso Comum

Parte 2
Parte 3

A vida sem reflexão não merece ser vivida” (Sócrates)

Em mais uma edição da série “Filosofia do Dia-a-Dia“, Alain de Botton mostra seu suposto guia da felicidade com uma abordagem filosófica, desta vez, clássica. O instrumento do episódio em pauta é aquele que, segundo o romano Marco Túlio Cícero, “fez a filosofia descer dos céus”.
Com os diálogos socráticos ensaiados, Alain exibe exemplos práticos sobre a provável incoerência do senso comum, o porquê das intermináveis perguntas socráticas e a busca da verdade; o que no final, chega a ser uma crítica ao sistema democrático.

Mais maduro se formos comparar sua atuação no episódio sobre Schopenhauer, Alain de Botton traduz o pensamento de Sócrates de forma simples e direta, fazendo com que inclusive aqueles os quais não tiveram contato com a filosofia grega entendam sem problemas os desafios levantados por este ilustre pensador.

Por Italo Lins

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Charles Darwin – Creation

Antes de começar a assistir ao filme “Creation“, uma narrativa do processo de criação da obra “A Origem das Espécies” do gênio Charles Darwin, confesso que as expectativas não eram elevadas. Isso se deu  por uma possibilidade de passar por um processo de aprendizado entediante, e não porque eu realmente me  apego às super produções – mas confesso que realmente é um ponto a ser trabalhado em qualquer filme.

Entretanto, em sequência, ao perceber pela capa que bons atores como Paul Bettany (participação épica no filme Dogville, do excelente diretor Lars von Trier) e uma supervisão exercida pela BBC de Londres não iriam me decepcionar. E realmente não me decepcionaram: “Creation” cumpre seu objetivo elegantemente.

Como muitos devem saber pelo senso comum, Charles Darwin foi um naturalista britânico que viveu entre os anos de 1809 e 1882 e desenvolveu teorias que abalaram os crédulos da igreja ortodoxa. As teorias em questão estão relacionadas à evolução das espécies, a qual demonstra que através do processo de seleção natural e acomodamento fisiológico, as espécies vão sofrendo mutações, demonstrando que o pensamento de que “Deus criou o mundo tal como conhecemos” não passa de um absurdo.

Com belas atuações, roteiro cativante e um cientísta fantástico em pauta, “Creation” sem dúvidas é um marco na história dos filmes biográficos e científicos.

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Por Italo Lins

Humildade, característica de servos?

Há algum tempo, tenho observado como as pessoas fazem juízos tortos de alguns conceitos, principalmente quando envolvem o caráter alheio. Alguns adjetivos como “egoísta”, “humilde”, “compassivo”, já me apareceram definindo pessoas que são quaisquer outras coisas, menos isso.
De qualquer maneira, uma característica que me deixa muito mal de ver ser usada erroneamente é a humildade. Antes de mais nada, que fique claro, eu não me proponho a definir perfeitamente a humildade, longe de mim sequer conseguir isso. Mas eu gostaria de, ao menos, dizer o que ela não é.

E ela não é um eufemismo para pobreza.

Deixemos claro, antes de mais nada: humildade não é igual à subserviência. Muito pelo contrário. Humildade não implica baixa estima ou fraqueza, mas sim submissão. Submissão, entretanto, não a outrem, mas a si, ao seu eu maior – ou como alguns gostam de chamar, Deus. Submissão a outros, por outro lado, pode significar diversas coisas.

Exemplos claros disso são Dalai Lama e Gandhi. Eles não se curvaram à vontade alheia para abdicar de algo que lhes cabe, apesar de serem (ou terem sido, enfim) pessoas altamente elevadas – e, para isso, é necessária a humildade.

Outra característica da humildade é ser intimamente relacionada com a tolerância. Se não podemos ter a capacidade de tolerar situações adversas, como poderemos, então, ter a humildade de nos curvar para passar por elas? A alegoria correspondente a isso é a do junco, que perante uma tempestade, se curva e sobrevive, enquanto o carvalho, por ser rígido, é arrancado.

“Então, se humildade é o contrário de submissão aos outros e também é tolerância, como ela deve ser encarada?” é a pergunta que deve ser feita. Equilíbrio é a única lei da qual eu tenho certeza da existência. Humildade não é, citando o Teoria da Conspiração, passiva nem ativa. É um silêncio, mas não é um vácuo. É um estado, na sua ausência de ação. Como a não-violência de Gandhi.

Outra metáfora perfeita para exemplificar a humildade é a da xícara. Se sua xícara está cheia, qualquer coisa que seja acrescentada a ela vai fazê-la transbordar. Você precisa ter ciência de que sua xícara está vazia, longe de estar cheia, para poder enchê-la. E saber disso é algo que, a partir do momento que é dito antes de estar perfeitamente estabelecido em si mesmo, se torna vazio e sem sentido. Se torna a falsa modéstia, a modéstia de, citando Nietzsche, “Quem se rebaixa, quer ser elevado.”

É fina essa linha de saber onde você está para a arrogância. Muitas pessoas – às vezes pela inveja, às vezes por ignorância – cometem essa confusão. Saber reconhecer suas qualidades é uma qualidade em si, e não se relaciona com a arrogância. Arrogância é achar que as qualidades já possuídas são suficientes.

Humildade também pode ser vista como sabedoria. Tomo como exemplo principal Sócrates. A sabedoria de Sócrates provinha exatamente da consciência de que ele nada sabia, e que ele não poderia ensinar aos outros senão o que os outros poderiam aprender por si. E Sócrates, de fato, tinha consciência de que a xícara dele estava vazia, de fato.

No fim das contas, é importante saber atingir o equilíbrio entre se dobrar e saber resistir, entre ter consciência de onde está e como é possível crescer. Como é provável que você tenha notado, ser humilde requer uma sapiência inominável e jamais a verdadeira humildade diminuirá o verdadeiro humilde. É provável, também, que o único jeito de tentar atingir esse nível seja pela tentativa e erro.

Por Eduardo Souza

Monsieur COK

Monsieur COK é um curta de origem francesa, produzido pela Train-Train e Papy3D, que aborda de maneira grotesca temas que traduzem a sociedade contemporânea. Globalização, mecanização do homem, humanização da máquina, indiferença frente à vida humana, idolatria de falsos personagens, crise do capitalismo, armamentos produzidos à custa e contra a própria população, dentre outros inúmeros temas que o seu poder hermenêutico pode identificar estão presentes na animação.

Não tenha medo de dar asas à sua imaginação e traga mais uma interpretação desse belíssimo – se é que cabe tal palavra – curta.

Por Italo Lins

Fritjof Capra no Roda Viva

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Fritjof Capra é um físico teórico nascido na Áustria que, em meados dos anos 70, optou por largar o método cartesiano das ciências exatas para trabalhar com a espiritualidade. Mas não uma espiritualidade relacionada à religiões, mas sim, à ecologia e o  bem-estar social. Bem-estar entre os humanos esse que, segundo Capra, é dicotômico ao modo cartesiano – que mecaniza o tempo e as relações humanas – de pensar e agir. Ainda assim, Capra tenta mixar seus conhecimentos herdados pela física com uma visão ecológica, chegando a abranger assuntos que englobam história e física quântica.

Fritjof ganhou reconhecimento no Brasil ao lançar obras, que hoje são consideradas clássicas, como “O Tao da Física” e “O Ponto de Mutação“; este inclusive, chegando a receber uma versão cinematográfica dirigida por seu irmão em Mindwalk. No programa Roda Viva – exibido no ano de 2005 – Capra abordou aspectos referentes à ecologia e qual a nossa responsabilidade perante a sustentabilidade, chegando inclusive, a tocar em assuntos políticos.

Para os que se interessam pelas idéias do pensador ou por sustentabilidade, a entrevista é sem dúvidas um momento de reflexão interessante, pois não há tom de auto-ajuda, mas sim, de conscientização do nosso papel frente à sociedade.

Por Italo Lins

A Crise do Sistema de Consumo

No interlúdio da queda do sistema feudal – ou campestre – e o surgimento do sistema industrial nas grandes cidades, o comércio baseava-se em um processo que costumo nomear pré-toyotismo. Claro que nesta época – algo em torno de 1600 e 1700 antes de Cristo – o conceito de toyotismo não estava presente nem na mente mais ambiciosa constatada, entretanto, ambos os sistemas tinham em comum fatores como a personificação do produto e a produção para consumo imediato (just in time).
Na mesma medida do crescimento do sistema capitalista, o lucro tornou-se alvo principal da (in)consciência humana, como bem podemos notar a herança resguardada à nossa sociedade. Um bom exemplo dessa falta de limites é a indústria americana Rockfeller, que, durante a Segunda Guerra Mundial, vendeu instrumentos bélicos tanto para os países Aliados, como para os do Eixo. Isso sem esquecer que as próprias guerras possuem um interesse financeiro incalculável.
Tomando como ponto de partida o cenário Pós-Segunda Grande Guerra, nota-se uma mudança gritante na indústria do consumo. Mudança essa ocasionada pela razão das empresas terem se tornado corpos mais sólidos que os próprios governos os quais “cuidam do nosso bem-estar”. Então, seguindo a lógica, nada torna-se mais plausível que a alienação, para que as elites consigam manter seu posto de soberania. Então, com as cartas na mesa, a ética e a valorização da vida viraram interesse econômico: consumo desenfreado,  conceitos pré-definidos, maquinização do homem, humanização da máquina, et cetera.
É, então, na questão da sustentabilidade que o documentário acima tenta atuar. Não apenas em um âmbito filosófico, mas factual, demostrando que como vivemos em um mundo finito, o ciclo produtivo tem que,  falando de uma maneira pleonástica, ser cíclico. Embora eu queira inclusive apelar para a desumanisação que este sistema nos causa – o que é pouco abordado no vídeo.

Com os números em mãos e os fatos em pauta, só nos resta a sabedoria para não apenas perceber, mas fazer algo que evite que a Gaia Ciência continue sendo o nosso próprio câncer. Sim, nós vivemos em um sistema em crise e a nossa maior crise é a de identidade, já que tudo tende a ser pré-determinado. O que não precisa ser assim.

Por Italo Lins

Fascismo, 1984 e Zorro

Antes de começar a ler esse texto, é altamente recomendável que você tenha lido 1984 de George Orwell, ou esse texto.

Há algum tempo, eu de fato reconheci Alan Moore como um verdadeiro escritor; um ilusionista, manipulador da palavra e da realidade no sentido mais memorável da idéia. Ele tem uma incrível capacidade de criar histórias verossímeis e usar referências das mais diversas para compôr histórias profundas. Citando V de Vingança, “Artistas se utilizam de mentiras para falar a verdade”, logo, Moore é um artista em sua essência.


Reassisti – ou assiti, já que da primeira vez, não entendi a profundidade – V de Vingança por esses dias. Fiquei abismado. Demorou, mas, finalmente, vi que Moore – além do escritor que eu já sabia que ele era – era um gênio. Depois de terminar o filme, e ler os primeiros volumes dos quadrinhos, tive que dar créditos, também, aos Irmãos Wachowsky. Eles, de fato, sabem fazer com que filmes tão fortes fiquem tão rentáveis. Adaptação muito bem trabalhada. Então, por ser mais acessível, farei referências ao filme.

De toda maneira, V de Vingança é uma crítica tão forte – talvez mais – à condição humana quanto 1984. À condição humana, sim, pois, não acredito que ambos se refiram apenas ao totalitarismo e liberdade de expressão. Se referem a algo mais profundo, o confronto de interesses – que ocorre muito mais no capitalismo -, até onde o homem é capaz de ir para defendê-los, a sociedade, a mídia, o poder, dentre outras coisas.

V, o protagonista, se apresenta como alguém parecido com um Zorro inglês. O que Zorro gostaria de ser, provavelmente – assim como as relações Rorschach-Batman, Superman-Manhattan, de Watchmen. Sempre teatral – citando diversos autores, principalmente nos quadrinhos -, ele usa uma máscara de Guy Fawkes, um conspirador que tentou explodir o Parlamento inglês, durante o governo protestante de Jaime I. E, logo no início do filme, é citada uma quadrilha que lembra o episódio:

“Remember, remember, the fifth of November
Gunpowder Treason and plot
I see no reason why the Gunpowder Treason

Should ever be forgot”

É com o espírito de revolução e mudança dessa época que V quer, além de ter sua vingança, destruir o fascismo instalado na Inglaterra. Fascismo que é muitíssimo similar ao apresentado por Orwell. Mais uma referência maestralmente usada por Moore, dentre as diversas citações de autores ingleses – Shakespeare e Marlowe, os únicos que cheguei a reconhecer.


O governo, no filme, é encabeçado pelo High Chanceler, que, em uma referência mais clara – graças aos Wachowsky – só aparece através de uma tela. Diversos takes em close-ups de partes como a boca ou olhos do Chanceler reforçam a idéia de autoritarismo e subdivisão da estrutura de governo. Isso não fica tão claro no cinema, mas o Partido é subdividido em partes como Olhos, Ouvidos, Dedos, Nariz, cujas funções correspondem no corpo humano. Por exemplo, os olhos são a vigilância; os ouvidos, informantes; Boca, é o sistema de rádio; Dedos, são os policiais que circulam pelas ruas, e assim por diante.

Assim como em 1984, todos fazem parte do Partido, e a lealdade a ele é inquestionável. Quaisquer tipos de questionamentos ao partido e ao Chanceler, são considerados traição, o que nos leva ao próximo ponto: a extinção da arte. Em ambos, a cultura é completamente dizimada: não há livros, pinturas, entretenimento de qualquer natureza. O cano de escape em 1984 são os 2 minutos de ódio, e eu não sei se há algo correspondente no romance gráfico de Moore.

Outro paralelo é o controle da sociedade pelo medo. Se você não quiser spoilers do filme, pare de ler esse parágrafo e vá ao próximo. O Partido, em 1984, solta bombas em seu próprio território para que a população viva com medo da guerra. Em V de Vingança, o Partido causa o acidente da contaminação da água, que mata milhões de pessoas, para assumir o poder. O que, como Italo disse em seu post, lembra bastante a “teoria da conspiração” proposta em Zeitgeist.

Além disso, há algumas cenas no filme que são claras referências a campos de concentração. Quando são mostradas as experiências em Larkhill, há uma cova coletiva que é uma das filmagens mais famosas e horripilantes que restaram da Segunda Guerra. Larkhill em si é um paralelo com o nazismo, já que a “escória da sociedade” era levada para lá.


Por último, e acredito ser um dos pontos mais fortes de ambas obras, é o controle da mídia. A sociedade é completamente domada pela propaganda – representada pela televisão no filme e no livro de Orwell -, negando sua liberdade de expressão e pensamento crítico. No filme, em diversas cenas, as famílias aparecem defronte uma televisão, apáticas, como se nunca quisessem ou precisassem sair dali. A diferença crucial é que, em Moore, a sociedade já está em crise, e V é a materialização da mudança necessária.

As conclusões a serem tiradas daqui são óbvias: a genialidade de Alan Moore é admirável; os Irmãos Wachowsky são cineastas muito bem preparados e Orwell se mantém incrivelmente contemporâneo, ainda que até o regime de governo seja completamente diferente do nosso. No frigir dos ovos, leia Moore e Orwell e assista V de Vingança. Além de V ser altamente cativante com aquele sorriso estático que muda de sarcástico a condescendente em poucos segundos.

Por Eduardo Souza