Fascismo, 1984 e Zorro

Antes de começar a ler esse texto, é altamente recomendável que você tenha lido 1984 de George Orwell, ou esse texto.

Há algum tempo, eu de fato reconheci Alan Moore como um verdadeiro escritor; um ilusionista, manipulador da palavra e da realidade no sentido mais memorável da idéia. Ele tem uma incrível capacidade de criar histórias verossímeis e usar referências das mais diversas para compôr histórias profundas. Citando V de Vingança, “Artistas se utilizam de mentiras para falar a verdade”, logo, Moore é um artista em sua essência.


Reassisti – ou assiti, já que da primeira vez, não entendi a profundidade – V de Vingança por esses dias. Fiquei abismado. Demorou, mas, finalmente, vi que Moore – além do escritor que eu já sabia que ele era – era um gênio. Depois de terminar o filme, e ler os primeiros volumes dos quadrinhos, tive que dar créditos, também, aos Irmãos Wachowsky. Eles, de fato, sabem fazer com que filmes tão fortes fiquem tão rentáveis. Adaptação muito bem trabalhada. Então, por ser mais acessível, farei referências ao filme.

De toda maneira, V de Vingança é uma crítica tão forte – talvez mais – à condição humana quanto 1984. À condição humana, sim, pois, não acredito que ambos se refiram apenas ao totalitarismo e liberdade de expressão. Se referem a algo mais profundo, o confronto de interesses – que ocorre muito mais no capitalismo -, até onde o homem é capaz de ir para defendê-los, a sociedade, a mídia, o poder, dentre outras coisas.

V, o protagonista, se apresenta como alguém parecido com um Zorro inglês. O que Zorro gostaria de ser, provavelmente – assim como as relações Rorschach-Batman, Superman-Manhattan, de Watchmen. Sempre teatral – citando diversos autores, principalmente nos quadrinhos -, ele usa uma máscara de Guy Fawkes, um conspirador que tentou explodir o Parlamento inglês, durante o governo protestante de Jaime I. E, logo no início do filme, é citada uma quadrilha que lembra o episódio:

“Remember, remember, the fifth of November
Gunpowder Treason and plot
I see no reason why the Gunpowder Treason

Should ever be forgot”

É com o espírito de revolução e mudança dessa época que V quer, além de ter sua vingança, destruir o fascismo instalado na Inglaterra. Fascismo que é muitíssimo similar ao apresentado por Orwell. Mais uma referência maestralmente usada por Moore, dentre as diversas citações de autores ingleses – Shakespeare e Marlowe, os únicos que cheguei a reconhecer.


O governo, no filme, é encabeçado pelo High Chanceler, que, em uma referência mais clara – graças aos Wachowsky – só aparece através de uma tela. Diversos takes em close-ups de partes como a boca ou olhos do Chanceler reforçam a idéia de autoritarismo e subdivisão da estrutura de governo. Isso não fica tão claro no cinema, mas o Partido é subdividido em partes como Olhos, Ouvidos, Dedos, Nariz, cujas funções correspondem no corpo humano. Por exemplo, os olhos são a vigilância; os ouvidos, informantes; Boca, é o sistema de rádio; Dedos, são os policiais que circulam pelas ruas, e assim por diante.

Assim como em 1984, todos fazem parte do Partido, e a lealdade a ele é inquestionável. Quaisquer tipos de questionamentos ao partido e ao Chanceler, são considerados traição, o que nos leva ao próximo ponto: a extinção da arte. Em ambos, a cultura é completamente dizimada: não há livros, pinturas, entretenimento de qualquer natureza. O cano de escape em 1984 são os 2 minutos de ódio, e eu não sei se há algo correspondente no romance gráfico de Moore.

Outro paralelo é o controle da sociedade pelo medo. Se você não quiser spoilers do filme, pare de ler esse parágrafo e vá ao próximo. O Partido, em 1984, solta bombas em seu próprio território para que a população viva com medo da guerra. Em V de Vingança, o Partido causa o acidente da contaminação da água, que mata milhões de pessoas, para assumir o poder. O que, como Italo disse em seu post, lembra bastante a “teoria da conspiração” proposta em Zeitgeist.

Além disso, há algumas cenas no filme que são claras referências a campos de concentração. Quando são mostradas as experiências em Larkhill, há uma cova coletiva que é uma das filmagens mais famosas e horripilantes que restaram da Segunda Guerra. Larkhill em si é um paralelo com o nazismo, já que a “escória da sociedade” era levada para lá.


Por último, e acredito ser um dos pontos mais fortes de ambas obras, é o controle da mídia. A sociedade é completamente domada pela propaganda – representada pela televisão no filme e no livro de Orwell -, negando sua liberdade de expressão e pensamento crítico. No filme, em diversas cenas, as famílias aparecem defronte uma televisão, apáticas, como se nunca quisessem ou precisassem sair dali. A diferença crucial é que, em Moore, a sociedade já está em crise, e V é a materialização da mudança necessária.

As conclusões a serem tiradas daqui são óbvias: a genialidade de Alan Moore é admirável; os Irmãos Wachowsky são cineastas muito bem preparados e Orwell se mantém incrivelmente contemporâneo, ainda que até o regime de governo seja completamente diferente do nosso. No frigir dos ovos, leia Moore e Orwell e assista V de Vingança. Além de V ser altamente cativante com aquele sorriso estático que muda de sarcástico a condescendente em poucos segundos.

Por Eduardo Souza

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