Humildade, característica de servos?

Há algum tempo, tenho observado como as pessoas fazem juízos tortos de alguns conceitos, principalmente quando envolvem o caráter alheio. Alguns adjetivos como “egoísta”, “humilde”, “compassivo”, já me apareceram definindo pessoas que são quaisquer outras coisas, menos isso.
De qualquer maneira, uma característica que me deixa muito mal de ver ser usada erroneamente é a humildade. Antes de mais nada, que fique claro, eu não me proponho a definir perfeitamente a humildade, longe de mim sequer conseguir isso. Mas eu gostaria de, ao menos, dizer o que ela não é.

E ela não é um eufemismo para pobreza.

Deixemos claro, antes de mais nada: humildade não é igual à subserviência. Muito pelo contrário. Humildade não implica baixa estima ou fraqueza, mas sim submissão. Submissão, entretanto, não a outrem, mas a si, ao seu eu maior – ou como alguns gostam de chamar, Deus. Submissão a outros, por outro lado, pode significar diversas coisas.

Exemplos claros disso são Dalai Lama e Gandhi. Eles não se curvaram à vontade alheia para abdicar de algo que lhes cabe, apesar de serem (ou terem sido, enfim) pessoas altamente elevadas – e, para isso, é necessária a humildade.

Outra característica da humildade é ser intimamente relacionada com a tolerância. Se não podemos ter a capacidade de tolerar situações adversas, como poderemos, então, ter a humildade de nos curvar para passar por elas? A alegoria correspondente a isso é a do junco, que perante uma tempestade, se curva e sobrevive, enquanto o carvalho, por ser rígido, é arrancado.

“Então, se humildade é o contrário de submissão aos outros e também é tolerância, como ela deve ser encarada?” é a pergunta que deve ser feita. Equilíbrio é a única lei da qual eu tenho certeza da existência. Humildade não é, citando o Teoria da Conspiração, passiva nem ativa. É um silêncio, mas não é um vácuo. É um estado, na sua ausência de ação. Como a não-violência de Gandhi.

Outra metáfora perfeita para exemplificar a humildade é a da xícara. Se sua xícara está cheia, qualquer coisa que seja acrescentada a ela vai fazê-la transbordar. Você precisa ter ciência de que sua xícara está vazia, longe de estar cheia, para poder enchê-la. E saber disso é algo que, a partir do momento que é dito antes de estar perfeitamente estabelecido em si mesmo, se torna vazio e sem sentido. Se torna a falsa modéstia, a modéstia de, citando Nietzsche, “Quem se rebaixa, quer ser elevado.”

É fina essa linha de saber onde você está para a arrogância. Muitas pessoas – às vezes pela inveja, às vezes por ignorância – cometem essa confusão. Saber reconhecer suas qualidades é uma qualidade em si, e não se relaciona com a arrogância. Arrogância é achar que as qualidades já possuídas são suficientes.

Humildade também pode ser vista como sabedoria. Tomo como exemplo principal Sócrates. A sabedoria de Sócrates provinha exatamente da consciência de que ele nada sabia, e que ele não poderia ensinar aos outros senão o que os outros poderiam aprender por si. E Sócrates, de fato, tinha consciência de que a xícara dele estava vazia, de fato.

No fim das contas, é importante saber atingir o equilíbrio entre se dobrar e saber resistir, entre ter consciência de onde está e como é possível crescer. Como é provável que você tenha notado, ser humilde requer uma sapiência inominável e jamais a verdadeira humildade diminuirá o verdadeiro humilde. É provável, também, que o único jeito de tentar atingir esse nível seja pela tentativa e erro.

Por Eduardo Souza

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5 thoughts on “Humildade, característica de servos?

  1. Perfeito, meu caro.

    E vou começar justamente pelo fim, com a tua sentença de que seria provavel também “que o único jeito de tentar atingir esse nível seja pela tentativa e erro”. E é plenamente nesse ponto que eu posso perceber que a humildade é um estado de espírito – vamos dizer assim – cada vez menos possível no nosso meio.

    Por quê? Fácil. Vivemos em um mundo de competitividade e aparecências no qual é preferível “parecer melhor”, custe o que custar. Felizmente, eu tenho uma imagem de mim que não se adequa a esse conceito.

    Outro ponto fundamental na humildade – e também na modéstia – é a falsidade do argumento. Já que, como você colocou, “saber reconhecer suas qualidades é uma qualidade em si”, e nós buscamos qualidades aparentes, acabamos por viver em um mundo apenas de retratos no qual todos se gostam na superfície, e se odeiam nas entranhas.

    É a velha premissa kantiana do: “Ok, você é bom. Mas você é bom porque é bom?”. Seria isso um estado de necessidade?

  2. Matéria um tanto quando interessante,é a velha historia das pessoas admitirem o erro,e perceberem que ainda não sabem nada,podem ser “espertos” em uma determinada área,e por isso acabam achando que são espertos em todas as áreas,e no fim,não admitem sua “burrice”,ou simplesmente não aceitando as idéias de outra pessoa,pois se julgam mais inteligentes que os demais.

    blog muito bom,venho diariamente ver se tem novas matérias.

  3. Isso, Italo! O “sistema” – que, na verdade, são as pessoas – prega esses absurdos. E a gente vive tão envolvido nisso tudo, que nem percebemos o quanto estamos atolados.

    E esse questionamento é se a humildade seria uma necessidade? Eu acredito que não. É o caminho opcionalíssimo para a evolução do espírito – ou apenas da personalidade. O mundo está repleto de falsos humildes e falsos modestos que atendem à necessidade dos outros, como você bem disse, nas aparências. Acho que há a satisfação interna, o reconhecimento de si e de algo que transcende. Inconsciente coletivo, egrégoras, talvez.

    Exato, Jocemar! Isso é arrogância, unido a um tanto de pequenez. Pequenez, que também se opõe diametralmente à humildade. Quem é humilde, é grande por saber que pode crescer.
    E obrigado pelas visitas e pela assiduidade! Você não imagina como é instigante o interesse alheio, e ainda mais receber esse feedback! Continue por aqui! 😀

  4. Oi Eduardo,

    Também achei ótimo o texto, e esse assunto é bem delicado, por um lado, há essa falsa modéstia só para se parecer maior e melhor; de outro lado, há o cuidado pra não se mostrar ou parecer arrogante, e nesse caso muitas vezes a pessoa acaba se mostrando menor do que é de fato, porque escondem suas qualidades com receio de incomodar ou perder amigos.

    Você já reparou, como muitas vezes o brilho/luz de alguém incomoda muito mais do que a parte sombria?? 😀

    Também sempre estou passando por aqui.

    adi
    http://anoitan.wordpress.com/

  5. Sim, Adi! Isso é muuuito delicado. A linha que divide a arrogância da falsa modéstia é finíssima, e elas podem se travestir uma da outra. Entretanto, eu preciso – por medo, talvez – acreditar que, não precisamos mostrar nada pra outrem. Só ser o que somos. Se tiverem coisas boas ou ruins para aparecer, que apareçam ao longo do tempo. “Stick around and make sure”, como disseram os Beatles. E eu vivo segundo isso. Por isso eu me considero alguém com quem é difícil se relacionar à primeira vista.

    Sim, é verdade. Mas esses são os falsos brilhos! São exatamente as sombras que se disfarçam de luz! O brilho verdadeiro, revestido de humildade, tolerância e nobreza, jamais incomoda.

    Fico felicíssimo com isso, Adi! O Anoitan é uma referência permanente pra mim, sempre passo lá, apesar de às vezes não comentar, por não saber o que dizer perante tanta sabedoria, e eu me sinto lisonjeado de ter você vindo por aqui! 😀

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