Teoria do Caos e a Insignificância

Uma das coisas que sempre me deixaram muito impressionado é como as chamadas ciências exatas são, em seu mais alto nível, extremamente teóricas; como a partir de cálculos e expressões matemáticas, é possível extrair teorias e correntes filosóficas. É um trabalho de uma abstração e de uma sutileza impressionante.

Um dos exemplos disso é a física quântica, que a partir da relação de forças entre partículas sub-atômicas, faz com que repensemos sobre todas as áreas do conhecimento humano. Outra dessas é a Teoria do Caos.



Segundo a Wikipedia, Teoria do caos, para a física e a matemática, é a teoria que explica o funcionamento de sistemas complexos e dinâmicos. Em sistemas dinâmicos complexos, determinados resultados podem ser “instáveis” no que diz respeito à evolução temporal como função de seus parâmetros e variáveis. Isso significa que certos resultados determinados são causados pela ação e a interação de elementos de forma praticamente aleatória.”

Popularmente, conhece-se essa teoria através da situação alegórica de que o bater das asas de uma borboleta pode provocar um furacão do outro lado do mundo. Apesar dessa alegoria um tanto hiperbólica, é possível daí extrair a essência da teoria: que o mínimo pode alterar o todo.

Entretanto, para mim, isso é uma dúvida recorrente. É verdade que tudo que fazemos altera para sempre a história do mundo inteiro que nos cerca? Teoricamente, é fácil criar uma situação em que isso aconteça – como o caso da borboleta -; por outro lado, na prática, a veracidade disso é dubitável. E isso é fácil de provar: como alguém que acabou de morrer de fome na África influenciou sua vida? Ou mesmo na sua cidade, alguém que você não conheça, que não seja relacionada a você de maneira alguma?



Acho muito encantador, também, imaginar que cada ação minha, em meu dia, possa ter alterado a vida de cada um que passou por mim. Talvez, um olhar que eu possa ter dado pra alguém enquanto caminhava na rua possa ter mudado a vida dessa pessoa completamente. Ou não. Ou ela simplesmente ignorou um olhar estranho, desconhecido, talvez inoportuno.

Isso me leva a pensar no contraste entre a pessoa que pode alterar seu mundo e a pessoa-número que o sistema em que vivemos nos faz ser, em que a única coisa que importa é nosso poder de compra. E como somos manipulados pela publicidade e pela mídia. Só consigo imaginar como, cada vez que vou ao supermercado, eu passo a me encaixar em um público-alvo, no qual um administrador baseou seus cálculos para fazer sua multinacional lucrar alguns bilhões a mais.

O tipo de poder que nos é inerente com a capacidade de alterar o futuro com qualquer uma de nossas ações é igualmente assutadora e estimulante. É a faca de dois gumes mais afiada que eu consigo imaginar para cada consciência. Se tomarmos parte da outra visão, é possível que eu ou você passemos pela vida despercebidos, como alguma espécie vegetal inimaginavelmente única, que floresce e morre, sem que nada no universo dê por falta dela.



De qualquer maneira, algo que eu tenho observado desde algum tempo é como dois conceitos completamente distintos e excludentes podem, paradoxalmente, ser conciliados e coexistirem. Como livre-arbítrio e destino, por exemplo. Então, é possível que tenhamos essas duas faces: alterarmos a vida daqueles que nos cercam – amigos, pais, filhos – e sejamos igualmente insignificantes para o resto do mundo. Por fim, uma pergunta que é ainda mais inquietante: termos essas duas faces é ruim?

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2 thoughts on “Teoria do Caos e a Insignificância

  1. Assunto delicado propuseste a tratar, ein cara? E ainda conseguisse me fazer encadear de uma forma melhor o conceito de Teoria do Caos, fico grato desde já, brother.

    Pois bem, indo diretamente ao assunto, eu creio que, materialmente falando, a questão do “bater das asas de uma borboleta” poder “provocar um furacão do outro lado do mundo” é totalmente plausível. Talvez, obviamente, não nessas proporções tão assimétricas. Mas, dentro da concepção de que todos os elementos existentes, de certa forma, estão conectados, parece-me coerente.

    Tratando da questão metafísica ou psicológica eu não penso de maneira muito distinta. Os elementos aparentemente buscam uma harmonia, o Kosmos.

    O único fator que me faz perguntar quão verdadeira é esta teoria é a questão da intensidade dos efeitos das ações. Até que ponto coisas mínimas podem modificar aspectos essenciais em nossas vidas?

    Eu acredito que posso anexar ao meu comentário o fato de ser um grande admirador da filosofia de David Hume. Portanto, eu acredito que todas as nossas ações estão ligadas às nossas experiências sensoriais ou metafísicas. Então, sim, eu penso que tudo está conectado. E que, mais uma vez sim, um sorriso pode mudar as concepções de vida de alguém.

    Algo muito semelhante com o filme “Efeito Borboleta”, sem dúvidas.

    Excelente postagem, meu amigo.

  2. Exato, Italo!
    A relação borboleta-furacão é mais alegórica que real, mas exemplifica exatamente isso que tu disse.

    É nesse tipo de lei metafísica em que eu acredito, cara. Além de ser o, invariavelmente, mais justo, é exatamente o que a gente pode observar do micro ao macro. Então, porque não na física e na metafísica?

    Não sabia que Hume tratava disso. Sou completamente ignorante com relação a ele, na realidade.

    E, sim, e os outros filmes que têm um quê de relação com isso são 21 Gramas e Babel. Muito bons, e mostra como nós podemos mudar a vida das pessoas.

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