Panis et circensis, Lennon, o Indivíduo e o Coletivo

Uma outra dúvida recorrente que eu tenho, além da dicotomia teoria do caos x insignificância, é o quão único cada ser humano realmente é.

Cada um de nós é único, de fato. Temos um universo dentro de nós, uma imensa rede de memórias pessoais e coletivas; carregamos uma imensa carga de memória genética, memes, genes, e por aí vai. Nossas memórias emocionais são únicas, assim como nossas experiências e percepção de mundo. A partir de cada acontecimento, um único indivíduo pode alterar o futuro inquestionavelmente, se tornando, portanto, único a conquistar algum objetivo.

Entretanto, todos nós funcionamos da mesma maneira. Salvos detalhes de metabolismo, nós temos uma mecânica fisiológica, química e biológica, em grande parte, previsível. Mesmo nosso comportamento, algo que, supostamente, é livre, é passível de ser previsto, e utilizado por outrem para cumprir determinados objetivos.

Essas duas abordagens sempre me fazem pensar: no que eu sou diferente, na essência? O que me faz único? E se eu realmente não sou apenas uma minúscula engrenagem na máquina do mundo, do capitalismo e da sociedade, que não significa nada, e não é único de maneira alguma? Analogamente a Matrix: e se eu sou apenas alguém adormecido na Matrix, apenas fornecendo gerando energia?

Partindo do princípio que cada ser humano possui as mesmas necessidades básicas, e buscam basicamente os mesmos objetivos, nós somos plenamente mensuráveis e previsíveis. Como diria Lennon:

Keep you doped with religion and sex and TV
And you think you’re so clever and classless and free

But you’re still fucking peasants as far as I can see”


É saber que o ser humano, se tratado apenas como um elemento na massa, pode ser plenamente controlado, como bem sabiam os romanos. Panis et circensis. O que mudou desde então?

Deixando de lado discussões sobre luta de classes, darwinismo social e capitalismo, quero tratar mais sobre a questão mais espiritual. O ser humano não aproveita seu potencial por inteiro, ou sequer uma parte considerável, o que faz com que ele não seja mestre de si mesmo, tornando-o espiritualmente – ou, em termos de força de vontade, como preferir – fraco, manipulável.

Se torna difícil abrir os olhos, encarar a realidade. Apenas se dar conta de que ele pode ser independente intelectual e espiritualmente se torna uma tarefa quase impossível. Sair da inércia requer muita força, e a saída mais fácil raramente é a melhor.


De qualquer maneira, estou digredindo. A dualidade entre o indivíduo e o coletivo é muito presente em nosso dia-a-dia. Isso, por outro lado, me leva – e espero que a vocês também – a um questionamento existencial antiquíssimo: quem sou eu? No que eu sou diferente, na essência? Sim, repito a pergunta. Eu não sei responder. Se eu sou apenas o resultado de minhas experiências, qualquer outro indivíduo em meu lugar seria igual a mim?

Isso seria, automaticamente, admitir que nós somos seres completamente influenciados pelo meio. O que é uma teoria pseudo-científica há muito ultrapassada. Mas, então, o que me diferencia de você?

Por Eduardo Souza

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5 thoughts on “Panis et circensis, Lennon, o Indivíduo e o Coletivo

  1. Só teremos a resposta para essas perguntas quando a questão da existência da alma for solucionada. Eu entendo a alma como uma espécie de “carga genética espiritual”, que traduziria a nossa essência, sendo possível dar sentido à vida (caso ela possuísse uma missão objetiva).

    Se os animais possuírem alma, então seria muito provável que a nossa individualidade estivesse garantida. In other words, seríamos um tanto mais que a soma das nossas experiências físicas e metafísicas, e então, “únicos” e “especiais”. O que ainda não quer dizer que o homem pode possuir certas características inatas.

    Por outro lado, se o conceito de alma que hoje existe for apenas um produto das sinapses nervosas, eu acredito que sim, se eu ou você fossemos outra pessoa com características idênticas às que nos temos e se sofressemos as mesmas experiências que sofremos, estaríamos escrevendo num blog chamado Animus Mundus sobre a individualidade do homem nos dias 29 e 30 de março, 2010 anos depois de Jesus Cristo. Mas eu digo isso se fossemos realmente IDÊNTICOS ao que somos, não apenas semelhantes, já que, se o teu nome fosse Jorge ao invés de Eduardo, a tua vida estaria completamente diferente do que é hoje.

    Mas como não há verdade absoluta, só nos resta levantar argumentos coerentes. Ao menos é essa a minha opinião.

  2. O post tá otimo.

    Nos armando ou nos desarmando das palavras para romper qualquer circulo que crie sentido para os fatos, somos os primeiros a parar de fazer cara de babaca e calar o mantra do vamos curtir adoidado, pois a própria idéia de gostar da vida faz com que estraguemos ela, tipo, nossa mente vai ficando consciente da nocividade de muita ação exclusivamente humana, daí é tentador querer voltar pra bolha e participar das brincadeiras que profanam a verdade, brincadeiras que eu digo, é tipo, pega-pega, siga o mestre, ajuda judas. O melhor mesmo é desprezar a verdade alheia enquanto não trabalhamos a nossa verdade o suficiente para que a verdade alheia caiba na nossa, o que não quer dizer que tenhamos que nos fechar no eu para viver melhor, pois isso sim é dar valor dicotomico pras verdades alheias, e começo a pensar que uma verdade só se torne verdade quando dicotomica.
    A relação que se faz do despertar da consciência com a busca pela liberdade social também sempre deve ser melhor analisada, pois a liberdade social não vem imediatamente como vem a ação consciente, a gente acorda e olha ao redor, beleza, leis, policiais… padrões que não foram criados por nós (pelo menos não pelo que eu chamo de consciência). O fato de nossa consciência não estar presente na origem do universo e da vida, faz com que ela, quando surja, seja um tipo de origem da origem, da idéia de origem, vem com a consciência, porém, vem junto com a idéia de fim, percebem o que digo quando a verdade precisa de um tipo de dicotomia?
    Porém o não se fechar que digo não é aceitar o que alguém diz como o próprio caminho, como a definição perfeita sobre a realidade comum. O não se fechar é trilhar dentro das próprias verdades, sem vendê-las, pois no equilibrio das próprias dicotomias é que vivo, não necessariamente tendo um caminho que vá além delas mesmas, pois a gente sabe o que é certo quando fica consciente, o que também acaba sendo uma coisa particular, que pode necessitar de talvez um moralismo, religioso, etico, seja lá o que for, para ter um regulador do próprio movimento dicotomico, daí se a gente for usando os elementos mais equilibrados pode ser que dilatemos e elevemos essas dicotomias ao entendimento alheio, mas sem montar um clube onde duas verdades desequilibrem as próprias dicotomias.

    Vlw.

    Elielson

  3. “Para Marx, o titereteiro invisível da história chama-se “interesse de classes”: é ele que move os guerreiros, estadistas e pensadores que, ingenuamente, acreditavam estar agindo por Deus, pela pátria, pela verdade ou por qualquer outro motivo.
    Para Nietzsche, o interesse de classe ou qualquer outro motivo alegado para explicar a conduta humana não é senão o véu ilusório a encobrir a verdadeira motivação da história toda: a vontade de poder.
    Já segundo Freud, Todos os personagens do drama, inclusive aqueles que pensam agir por interesse de classe ou por uma nietzscheana vontade de poder, não fazer senão obedecer ao impulso da libido inconsciente recalcada.
    Para Jung, ao contrário, o revulucionário de Marx, o recalcado libidinoso de Freud e o ambicioso super-homem de Nietzsche são apenas atores que, sem saber, repetem as tramas arquetípicas de um scrip registrado no inconsciente coletivo.
    Korzybsky e Whorf, os fudadores da “Semântica Geral”, pretendem que todo o Ocidente, incluindo Marx, Freud, Nietzsche e Jung, tenha sido enganado durante dois milênios por “pressupostos metafísicos” aristotélicos embriagados na estrutura da linguagem, e que os primeiros a escaparem dessa coerção invisível e onipresente tenham sido… Korzibsky e Whorf.
    Mas Foucault diz que não é nada disso: o script invisível, o a priori supremo, chama-se episte: é a estrutura geral do saber, que condiciona todos os conhecimentos particulares de uma dada época – incluindo as teorias de Marx, Freud, Jung, Korzybsky e Whorf – e que de repente, sem razão plausível, muda para outra episteme deixando todos os perdidos no ar, como se um cenário rodante girasse de Hamlet para Romeu e Julieta sem dar aviso aos atores.
    Cada um pretende, em suma, descerrar o véu, revelar a trama secreta da qual seus antecessores foram apenas protagonistas inconscientes.
    De modo geral, o público letrado e científico dá credibilidade imediata a automática a essas revelações, sem que a ninguém ocorra a idéia de que SEU NÚMERO MESMO E A VELOCIDADE DE SUA SUCESSÃO DEVEM TORNÁ-LAS, A TODAS, IGUALMENTE DUVIDOSAS.”

    O que aprendemos com Olavo nesse seu texto, é a ingenuidade da qual são propostas perguntas absolutas que requerem respostas não menos absolutas. Perguntas que são repetidamente propostas, como está que ingenuamente é posta aqui. Penso a filosofia como Zizek, não como conhecimento a responder e sim como conhecimento a redefinir o verdadeiro problema a ser tratado no âmbito real. Se pensarmos que a verdadeira questão na qual acharemos a clivagem da verdade será dada pela resposta da questão do que nos diferencia enquanto seres subjetivos, é errada. Homens geniais acharam a SUA resposta, respondendo não a questão absoluta, e sim redefinindo o problema, respondendo questões particulares, para depois alcançar o universal. Obviamente, me refiro aqui a Darwin, Freud, Copérnico e Marx. Ambos respondendo questões de ordem práxis, adotaram resultados universais.

  4. Concordo plenamente, Betinho. Por essa mesma razão não ofereci aos leitores – aos quais eu nutro uma grande confiança e estima, ao contrário de subestimá-los – perguntas, às quais eles mesmos deveriam achar suas respostas próprias, e serem homens e mulheres geniais, para eles, para aqueles que os cercam ou para o mundo inteiro.

    Seria idiotice, e não apenas ingenuidade, oferecer respostas prontas, não menos absolutas que as perguntas que fiz. Confio, também, aos leitores, o aprofundamento e análise detalhada de cada questão dessas e as questões nas quais ela se desdobra. Confio na genialidade de todos que se dispõem a ler esse nosso humilde blog.

  5. Se eu sou apenas o resultado de minhas experiências, qualquer outro indivíduo em meu lugar seria igual a mim?

    ………………………………………….

    Já refleti muito sobre isso quando eu era mais novo, e cheguei a conclusão de que pra mim é isso mesmo, parto desse principio, a resposta emocional é uma série de correlações tbm. Mesmo que pareça uma teoria ultrapassada, veja bem, a inevitabilidade termina aqui e agora entende, tornando-se consciente de que cada ato tem uma dimensão caótica, cria-se então um novo cuidado, o problema de eu condenar o que eu seria se estivesse em determinado lugar, ou prestigiar o que eu seria se estivesse em determinado lugar, não se compara a vc ir lá e ser… ser, para modificar, já que criticando ou elogiando estamos de certa forma interagindo com outras posições, não somos menos ou mais factuais se vamos lá e apontamos as coisas que não entendemos, ah e acima de tudo, saber que o ser em determinados lugares é preferivel que morra a continuar existindo. Até pq a vida de um ser que não permite que outros existam, custa a vida de muitos que permitem que este exista. Agora o negócio paradoxou. :S Porém eu me refiro ao fatalismo, ao hediondo, isso não dá pra tolerar, e que se dane a consequencia carmica que alguns caras que ganham um montão de dinheiro querem que a gente acredite que esteja sofrendo nas mãos de quem não acredita que está sofrendo.


    Elielson

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