Sobre a Comunicação Linguística

Neste texto, eu serei uma pessoa do dia-a-dia. E utilizo a locução “pessoa do dia-a-dia” para provocar você, já que você pode ter pensado que eu acabei de me colocar em uma posição de superioridade; ou seja, se você assim pensou, é porque é possível que você esteja descontente com a qualidade das pessoas “normais” do nosso cotidiano. Mas, voltando à idéia inicial, eu disse que queria ser uma pessoa do dia-a-dia neste texto porque não utilizarei termos provenientes da tradição filosófica, ou seja, eu tenho a intenção de fazer desse texto um meio para a compreensão do que eu tenho em mente sobre a comunicação. E é em cima da questão da intencionalidade que eu traçarei minhas idéias.
Parece-me claro que as palavras passam a ter sentido na medida em que ganham significações. Se eu digo “você é uma pessoa do dia-a-dia” e alguém se torna ofendido pela minha frase, é porque dentro do nosso jogo de linguagem, a expressão “pessoa do dia-a-dia” se tornou pejorativa. Entretanto, eu pergunto: “onde está, em-si, a ofensa nesta locução?”. Ela não existe, pois a linguagem passa pelo filtro da compreensão. A compreensão, por sua vez, é subjetiva e, ao mesmo tempo, objetiva, pois a objetividade das coisas dependem da vetorização das subjetividades. Traduzindo: você está lendo este texto em um blog (objetividade) porque várias pessoas (vetorização das subjetividades) utilizaram a palavra “blog” para definir este meio que possibilita a comunicação; caso a tradição houvesse inferido que este mesmíssimo meio de comunicação fosse uma “bicicleta”, você estaria lendo na minha “bicicleta”, e a palavra “blog” se encontraria fora de contexto. Pode parecer um absurdo pensar as coisas dessa maneira, mas de certa forma somos passivos neste processo de formação da linguagem (o que pode ser mudado através da criatividade). É óbvio que eu posso de forma livre afirmar que tenho uma “bicicleta” chamada Animus Mundus, mas poucas pessoas entenderiam que eu estaria falando de um “blog”, e, caso entendessem, acabariam por ter entrado na minha comunidade de comunicação.
Falarei sobre a questão da comunidade de comunicação. Existe uma maneira exemplar de escrita ou de fala: pronunciar aquilo que se deseja pronunciar. O que significa isso? Bem, o entendimento tem um caminho complicado a ser traçado quando o pensamos na estante da comunicação. A comunicação precisa de um locutor e um interlocutor – é impossível você se comunicar com você mesmo (a não ser que você afirme que o seu corpo é dialético: você e não-você ao mesmo tempo) e não é possível que ambos partilhem dos mesmos significados frente as mesmas palavras. A intenção do que você deseja falar não precisa dizer respeito à sua comunidade de comunicação (pois senão seria impossível resgatar o sentido originário das palavras), mas o pressuposto báisco é de que ela está sim, neste contexto. Se eu quero falar da razão com uma pessoa que não está no ambiente da filosofia, eu tenho que presumir que ela está entendendo o que eu digo no sentido da Revolução Francesa (como algo positivo, que gera equilíbrio e comedimento entre as pessoas). Caso eu queira cavar o sentido da palavra no contexto Grego Antigo, utilizarei a palavra λόγος (que significa colher, retirar, colocar, medir). A mesma palavra e sua derivação possuem signfiicantes diferentes, dependendo de seu contexto.
Se não é uma atividade simples organizar nossas próprias idéias, imagino como uma outra pessoa, alguém exterior a você, poderá as compreender como você as quis inferir. Não é à toa que existem tantas falhas (interpretações que não se adequam à intenção da fala do interlocutor) na comunicação e vícios no que se refere às próprias palavras (por exemplo, a palavra “amor” que antes contava com seis outras palavras para se fazer entender, e hoje significa uma mera “simpatia” no jogo de linguagem). Esta falha comunicativa é compreensível, pois passamos por um processo de formação distinto na construção de nosso vocabulário, e é improvável que tenhamos as mesmas significações para as mesmas palavras. Entretanto, para nos fazermos entender, temos que também entender o que as pessoas entendem pelas mesmas palavras, pois é notável que as palavras mudam de significações e ganham vícios com o decorrer da história. Seria interessante, antes de tudo, que as pessoas tivessem uma preocupação etimológica com as palavras e saber de onde é derivado a nossa língua, seja do grego, seja do latim.

Por Italo Lins

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