Frankenstein: Livro vs. Cinema

A imagem do monstro da obra “Frankenstein“, publicada por Mary Shelley em 1818, é hoje mundialmente conhecida. Entretanto, este legado é derivado muito mais das adaptações feitas para as telas do cinema do que da leitura dos escritos de Shelley.

No cinema, o monstro atende pelo próprio nome da obra: Frankenstein; e é posto de maneira caricatural: um ser de altíssima estatura, de pele esverdeada, repleto de poder de destruição e de poucas palavras. Todavia, parte deste roteiro não foi extraído da estória original. Quem é, então, Frankenstein?

Em primeiro lugar, o nome Frankenstein em momento algum durante a obra foi posto ao monstro. Este havia sido abandonado pelo seu criador a um ponto em que não teve direito a um elemento que é atribuído a um indivíduo, antes mesmo do seu nascimento: um nome. A besta anônima foi moldada por Victor Frankenstein, um estudante da Universidade de Ingolstadt ¹.

Em segundo lugar, a criação do Dr. Frankenstein é descrita de uma forma distinta daquela que foi suscitada nas telas do cinema. Esses são alguns de seus aspectos, segundo o próprio Victor: “sua pele era amarela e mal cobria o trabalho dos músculos e artérias abaixo” (Capítulo 5), “corre com a velocidade de um raio” (Capítulo 23), “é eloquente e persuasivo” (Capítulo 24).

Não obstante, o monstro aprendeu a falar e a ler em francês e alemão sem o auxílio de professores, e era apaixonado pela descoberta de clássicos da literatura mundial como Plutarco, Goethe e John Milton.

Então a besta anônima era um escolástico? Não. Embora fosse virtuoso, a fera se tornou perversa. Inúmeras vezes os seus encontros com os humanos não foram construtivos: a sua mera aparição causava pânico entre as pessoas e todas elas o atacavam ou escapavam de sua presença. Na mesma medida em que esses maus encontros aconteciam, o monstro se tornava rancoroso e, chegou a um ponto em que tornou universal a sua noção de que todos os homens seriam ruins e que ele mesmo deveria se proteger deles a todos os custos ².

A obra Frakenstein trata, por exemplo, da amabilidade doméstica, dos fundamentos do conhecimento científico, do papel da mulher na sociedade vitoriana e de tantos outros temas que podem ser extraídos. Ela é uma obra que foi, no decorrer do século passado, recriada pelo cinema de uma forma em que se perdeu a imagem do monstro como um ser angustiado, virtuoso, confuso e abandonado pelo seu criador no meio de um mundo estranho. Portanto, não se deve reduzir esta obra ao dia das bruxas, mas vê-la como uma investigação da pluralidade da consciência humana.

Escrito por Italo Lins (em 24 de agosto de 2012).

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Notas:

¹ Victor uniu preceitos alquímicos cunhados por filósofos medievais como Albertus Magnus e Parecelsus em conjunção à física newtoniana a fim de dar vida a um corpo inanimado. Ele deu luz ao problema aristotélico da Psykhé/Pneuma (o sopro de vida que garante movimento aos corpos). Todos esses elementos científicos são abordados com um campo conceitual rigoroso por Shelley no decorrer da sua obra.

² A fúria da besta surgiu como resposta à maneira como era tratada. A sua natureza, por outro lado, durante a obra, era considerada boa. Shelley, embora não mencione este filósofo, parecia ser adepta do pensamento de Jean-Jacques Rousseau (“o homem é bom por natureza, mas a sociedade é a responsável pela sua corrupção”). O monstro seria, então, um “bom selvagem”.
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Essay:

Shelley’s masterpiece is characteristically philosophical. To be more precise, it deals with a stream of natural philosophy formally known as epistemology¹. Throughout the novel, mostly in the first six chapters, it is easy to perceive the whopping quarrel between medieval alchemy (represented by Albertus Magnus and Paracelsus) and modern science (represented by Sir Isaac Newton). This essay, therefore, is going to show how Victor Frankenstein managed to unite both traditions [alchemy and science] in his metaphysical inquiries with dreadful success.


During his stay in Ingolstadt, Victor Frankenstein was interested in an Aristotelian concept known as “psykhé”. Psykhé, according to the Greek philosopher, is a principle of vital nature that animates the body (sometimes it is also understood as “soul” or “intelligence”). Victor aimed to know, in other words, how material elements such as the human body could be animated by something immaterial like a soul.

On the one hand, Paracelsus and some scholastics held that this union was possible because a human being was composed of only three substances: Sulfur would generate the soul (emotions); Salt would form the body; and Mercury would nurture the spirit (mental faculties). The Tria Prima, as he called it, allowed Victor to create a new vivacious being.

On the other hand, Dr. Frankenstein didn’t forget the Newtonian laws of physics that pushed him down to a world established by a multiplicity of forces. So, everything was set according to these natural laws because, even though he didn’t explain how it happened, no supernatural events (such as rituals) occurred.

Victor Frankenstein united the principles of alchemy and modern science to perform his experiment. His metaphysical enterprise culminated into physical results that changed, at least in Shelley’s plot, the modern conceptions of knowledge. Unfortunately, such as the myth of Prometheus², it ended in misfortune and left the idea that knowledge is possible – but it comes at a high price.

Written by Italo Lins (20th August, 2012).
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Note:
¹ Epistemology is the study of the definition, possibility and extension of human knowledge. Greek terms: it is “Episteme” (knowledge) plus “Lógos” (rational, discursive reasoning).

² Prometheus was a titan reported in Hesiod’s Theogony that brought light (metaphor: “reason”, “technique”, “knowledge”) to the human beings. He, on the other hand, was severely punished by Zeus and was left to a hawk that has been eating his liver irrevocably.

Dualidades, unicidade e Dracula

Dando continuidade à série do Coursera, agora temos Dracula. Estou novamente uma semana atrasado, porque acabei de receber a nota de Frankenstein.


Dracula é uma obra incrível e não tem nada a ver com nenhum dos filmes e/ou representações genéricas. Ele dá margem a muitas interpretações riquíssimas. Entretanto, fugi de defender alguma tese interna ao livro para algo externo: porque é tão forte a imagem do Conde em nosso inconsciente coletivo. Há outros fatores envolvidos– que entendi principalmente depois de assistir às aulas –, mas acho que isso é um ponto forte na obra.


Uma das coisa que notei muito marcantes no pouco-mais-da-metade-de-obra que li, foi como muitas dualidades se cruzavam. Dessa maneira, a história se tornou uma obra bem densa e complexa; a classificação de história de terror se deu porque a dualidade mais presente é a vida-morte. De todo modo, as outras dualidades que aparecem ao longo do livro existem para fortalecer a imagem de Dracula e essa dualidade principal.





Como acontece nos contos de fadas, coisas impossíveis para nossa realidade objetiva se tornam aceitáveis depois do era uma vez. Stoker nos leva a tempos antigos quando pedidos ainda ajudavam através do terror, usando a justaposição de realidade-fantasia; usando o fantástico com maestria.


Por isso, a história é tão envolvente. Além disso, a realidade-fantasia é combinada com a dualidade de passado-presente do qual se fala ao longo de toda história. No capítulo 3, Johnathan vai nos dizer:

“É o século XIX nos dias de hoje em busca de vingança. Assim, a não ser que meus sentidos estejam me enganando, os séculos passados tinha, e têm, poderes que a mera ‘modernidade não pode destruir.”

Mais pra frente, Stoker nos dá ainda outras dualidades: a de guerreiro-burocrata, por exemplo, é representada pelas características complementares de Johnathan e Dracula, presentes no mesmo castelo. E, ao misturar guerreiro-burocrata com passado-presente, a dualidade belicoso-pacífico:

Sangue é uma coisa muito preciosa nesses dias de paz desonrosa; as glórias das grandes raças são como contos a ser contados.


“Life is extremely overrated.”

Tudo parece nos levar a esses opostos: não é coincidência que Dracula seja tão velho a princípio, seu castelo descrito muito, muito antigo. Portanto, ele vai em busca de sangue, que representa a juventude. Ainda para reforçar, uma das passagens mais frio-na-espinha do livro – quando Johnathan encontra com três vampiras – é uma representação claríssima da dualidade freudiana de erosthanatos.



Dracula retrata a morte não só no sentido de horror e medo, mas também como o velho dando lugar ao novo, a morte à vida, de novo reforçando a dualidade. Entretanto, é o círculo da vida, o conflito das gerações, que há de se repetir até quando durar a humanidade; as dualidades, na verdade, são unas. A morte está sempre ao nosso lado, seja ela assustadora ou cheia de esperança, porque, no final, a vida sempre ocorre.





Dracula presents us with dualities that often cross and multiply. Thus, the story turns into a dense and complex work of art classified as a horror story, for the most prominent is the life-death duality. Nonetheless, other dualities appear throughout the story in order to enforce the image of Dracula in our collective unconscious and back up the idea of life and death.
As we have seen on fairy-tales, things impossible to our daily life become acceptable after the once upon a time. Stoker leads us to olden times when wishes still helped through horror, by using the juxtaposition of reality-fantasy; which states his mastery on manipulating the continuum of the fantastic. For that, the story becomes so thrilling. Furthermore, this reality-fantasy is combined with the past-present duality mentioned all along the tale¹, thus creating a depth that could not be achieved by a representation alone. 
Throughout the book, Stoker underlays yet others: the warrior-idle for instance, represented by doppelganger characteristics of Johnathan and Dracula. And as a crossing of warrior-idle and past-present, the bellicose-peaceful² arises.
All seem to point towards these opposites: it is not a coincidence Dracula himself appears at first of old age, his castle described as very ancient. Therefore, he seeks blood, which stands for youth. As yet reinforcing, one of the most thrilling passages of the book – when Jonathan sees the three vampires – is a masterful representation of Freud’s duality of eros-thanatos.
Therefore, Dracula portrays death not only in the sense of horror and fear, but also as the old giving place to the new: the circle of life, the conflict of generations. Death is always at the doorstep, be it terrorful or hopeful for in the end, life triumphs at all costs.


¹ “It is the nineteenth century up-to-date with a vengeance. And yey, unless my senses deceive me, the old centuries had, and have, powers of their own which mere ‘modernity’ cannot kill.” (chapter III, 15 may)
²“Blood is too precious a thing in thee days of dishonourable peace; and glories of the great races are as a tale that is told.” (chapter III, midnight)

  

O legado de Alice Pleasance Liddell

Continuando a série do Coursera, como ensaio da semana passada tivemos que analisar os dois livros de Alice, Alice’s Adventures in Wonderland e Through the Looking-glass. 
Posso começar dizendo que Lewis Carroll é um gênio. Ele é um mestre em lógica e linguística, pra dizer o mínimo. As análises que o professor Eric Rabkin faz do livro e – especialmente – dos poemas de Carroll são fantásticas. Caso se interesse, entra lá no Coursera, se cadastra e pode assistir às video-aulas sem estresse.
Antes de mais nada, Alice é uma história nonsense. Isso não significa que é sem sentido. Muito pelo contrário. Um nonsense bem feito deve ser cautelosamente lógico. Vamos ver a comparação de Eric:

A primeira frase é fácil decorar, porque há uma estrutura gramatical por detrás desse conjunto de palavras. Mas a segunda é bem mais difícil, porque não há contexto, não há uma estrutura por trás, embora ambas frases tenham o mesmo número de palavras. Um nonsense bom tem que ter uma estrutura lógica por baixo.

Ambas histórias de Alice são muito, muito inteligentes. Charles Lutwidge atingiu um nível de maestria linguística e lógica espantoso. Por essa razão, assim que puder, leia Alice em sua língua original; muito se perde quando é realizada qualquer tradução, por melhor que seja. Toda essa brincadeira torna Alice talvez a primeira obra-prima de literatura considerada infantil.



Ao longo do Adventures in Wonderland, – não consegui nem começar a ler o Through the Looking-glass em uma semana – Carroll cria um diálogo constante com o leitor tanto por falar conosco diretamente como por deixar muito da história aberta a interpretações. Isso nos leva a um dos principais traços da história: realidade e relatividade. Alice completamente desconstrói nosso senso de realidade, sempre tratando os acontecimentos com relatividade. Ou o poço era muito fundo ou ela estava caindo muito lentamente“: isso destrói nossa realidade objetiva em que a aceleração da gravidade é aproximadamente 9,8m/s². Além disso, Carroll consegue subverter a linguagem, reduzindo-a a meras convenções, já que todo o jogo de palavras e trocadilhos – e há muitos – servem pra confundir e duplicar sentidos, tanto por fonética quanto por morfologia.
Por ser professor de matemática, Carroll constrói toda a narrativa de Alice através de lógica. Também não é coincidência que os dois livros usam jogos lógicos e extremamente estratégicos como ponto de partida: cartas e xadrez. Através da lógica, ele destrói e subverte a realidade. E isso chama a atenção de crianças, já que elas são os mestres em fazer isso: criar realidades alternativas que fazem todo sentido dentro de si, mas que para nós, mentes crescidas, não fazem sentido em relação ao mundo objetivo.

“Would you tell me, please, which way I ought to go from here?”
“That depends a good deal on where you want to get to,” said the Cat.
“I don’t much care where –” said Alice.
“Then it doesn’t matter which way you go,” said the Cat.

Entretanto, é para os adultos que ele fala também. Ao criar jogos – o croquet, a caucus race – em que ninguém ganha, ele está subvertendo, também, as convenções sociais. Carroll desdenha até mesmo da vida adulta e da sociedade vitoriana em que vivia. Com isso, o seu objetivo era cultivar sua criança interior e nos mostrar que precisamos cultivar nossas, também, pois ao final, ele nos deixa uma pergunta: Alice realmente passou por todas aquelas aventuras? 
Ou talvez estejamos só fazendo o papel da Duquesa: tentando achar uma moral sem sentido em um delírio infantil completamente sem sentido.

Pra manter a sequência, vou pôr o texto em inglês novamente 🙂

Alice’s writings are, above all else, very clever narratives. Carrol has done a remarkable work by playing with meaning, logic, language and society to conceive a story that’s maybe the first masterpiece of literature that is disguised as children’s books. 
Carroll creates a dialogue with the reader by both talking to them directly and leaving most of the understanding of the novel to us. Which brings us to our thesis: reality and relativity. Alice starts deconstructing our sense of reality by bringing everything into relative terms. “Either the well very deep, or she fell very slowly”: our tangible reality is obliterated; why would she fall slowly? Isn’t she under the laws of gravity? Furthermore, he transformscommunication itself on relative conventions, for all the wordplay – and there are many – is aimed at confusing and often subverting meaning, both through phonetics and morphology.
As a consequence – or maybe as a cause – he uses mathematical logic to build up all narrative. We know Carroll has also published many logic games and he does not fail to use them on Alice. Also, it is not a coincidence both books are related to highly strategical and mathematical games: cards and chess. He manages to use logic as a background for shattering reality. And that is appealing to children, as they’re capable of creating alternate realities that do make sense inside itself.
Nonetheless, he aims at adults as he does that. Also by creating games that nobody ever wins, he is playing societies structures. I believe Carroll mocks the adult life and society. Maybe his goal was to nurture his inner child and, above all else, tells us to nurture ours; for in the end he only throws us a question: has Alice really been through all that?
Or maybe, we’re just playing the Duchess: trying to find a senseless moral in a completely senseless child’s dream.

Os irmãos Grimm e a Alquimia

Os contos de fadas dos irmãos Grimm carregam imagens fortes que lidam diretamente com símbolos arquetípicos. Entre os contos do livro, Faithful John me chamou muita atenção. A história desenvolve – através de metáforas, referências e símbolos – a jornada do auto-conhecimento.


A história se inicia quando o rei, em seu leito de morte, chama seu criado mais fiel: John e o pede para cuidar do príncipe. Com a morte do rei, John personifica o arquétipo do mentor, ao mostrar ao Novo Rei seu castelo paterno. Chamar o castelo de paterno já nos mostra uma relação de dependência da figura paterna, que deverá ser dissolvida, para que o Novo Rei possa se tornar um homem de verdade


Entretanto, o Rei havia proibido a entrada em um único quarto: aquele no qual estava o retrato da Princesa do Palácio Dourado, pois o jovem rei iria se apaixonar perdidamente e pôr tudo em risco para conseguí-la. Esse quarto é o inconsciente, o id freudiano; o se apaixonar perdidamente, um eufemismo para a pulsão básica da libido. Além disso, se apaixonar pela Princesa e tê-la como rainha significa para o jovem rei sair da sombra do seu pai: tornar seu o castelo paterno. Além disso, há um quê do mito de Pandora aqui, pois o jovem Rei se recusa a se mover da frente da porta se John não a abrir. E, mesmo tendo sido avisado que atrás daquela porta haveria uma coisa horrível, ele não se contentou até entrar no quarto.


Apaixonado o novo Rei, pede ajuda a John para conquistar a atenção da Princesa. Ele propõe usar todo o ouro do reino para criar várias peças e levá-las à princesa. A Princesa é o anima e o ouro é metafórico: trata-se de uma referência direta à alquimia. Usar o ouro é o processo de obter individualidade e descobrir o self jungiano.


Ao velejar ao castelo da Princesa e conseguir atraí-la até o barco do Rei – a união entre anima e animus – John iça as velas enquanto a Princesa está vendo as peças de ouro. Isso é legal porque destrói a falsa noção de que contos de fadas são morais. A Princesa é, literalmente, sequestrada. E ela fica desesperada porque acha que foi sequestrada por um mercador, mas quando o Rei se identifica, ela relaxa e aceita se casar com ele. Só isso já dá panos para fazer uma análise social da época.





Enquanto velejam, John toca música na proa do navio e vê três corvos os sobrevoando e conversando. Esses três corvos provavelmente são figuras que dividem a mesma raiz do conto registrado por Thomas Ravencraft, Three Ravens. Talvez, por falarem do futuro, esses corvos tenham o mesmo papel das três irmãs fiadeiras do Destino da mitologia grega. De qualquer maneira, John, por alguma razão, é capaz de escutá-los.


Eles conversam que ao chegar à terra, o Rei encontrará um cavalo vermelho-raposa e quando ele o montar, irá morrer. Um outro cavalo vermelho bem conhecido é aquele em que Guerra, do Apocalipse bíblico vem montado. E o único modo de evitar a tragédia é se alguém montar no cavalo antes dele e atirar em sua cabeça, e, ainda assim, aquele que o fizer, se tornará pedra do joelho até o pé.


Ainda prevendo o futuro, eles dizem que, ao chegar no castelo, o rei encontrará uma camisa de noivado que parecerá ser feita de ouro e prata, mas que na verdade é enxofre e piche e ele queimaria ao vestí-la; o único jeito de salvá-lo é pegar a camisa e jogá-la no fogo. Isso significa a falsa transmutação, o falso self, e o fogo é a transformação capaz da real transmutação. Nesse caso, aquele que conseguir queimar a camisa, se tornará pedra do coração ao joelho.





E, por último, a Princesa irá cair no chão e morrer e o único jeito de salvá-la é tirar três gotas de sangue de seu seio direito. Isso é uma metáfora que simboliza a capacidade feminina de dar vida. Aquele que o fizer, se tornará pedra da coroa da cabeça ao dedo do pé.


Ao chegar em terra, John consegue salvar o rei de todas as situações; mas em todos os casos, os outros servos do Rei, que não gostavam de John, se indagavam como ele poderia ter feito aquelas coisas. Na última situação, o Rei perdeu a paciência e o condenou à morte. Na manhã seguinte, antes de ser enforcado, ele contou toda a história dos corvos e virou pedra. O Rei se arrependeu tão amargamente de punir um servo tão fiel que colocou John petrificado em seu quarto.





Durante muitos anos, o Rei olhava para a estátua de John e se lamentava de ter feito aquilo. Anos depois, quando já tinha filhos gêmeos – e os gêmeos sempre representam a dualidade –, o Rei disse que faria qualquer coisa para ter de volta seu servo tão fiel. Nessa hora, John falou que ele poderia, se cortasse a cabeça de seus dois filhos e banhasse o banhasse com o sangue. O Rei se encheu de horror, ficou hesitante, mas fez o que John havia pedido. Ele, então, não só voltou à vida, como também reviveu os gêmeos. Essa passagem lembra uma bíblica, a que Deus decide testar a fé de Abraão e o manda cortar a cabeça de seu filho. Já com a faca no pescoço de Isac, o anjo desce e pede para Abraão parar e diz que sua fé foi provada. Só que os irmãos Grimm foram um pouco mais viscerais.

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Aqui vai a versão em inglês, de 320 palavras que foi enviada lá no curso. Ela é bem mais condensada pelo limite e porque todo o público do texto – supostamente – havia lido o conto.



The Grimms’ fairy tales portray strong images for they deal greatly with archetypal symbols. Among the stories, Faithful John caught my attention. I believe the story shows — through layered metaphors, references and symbols — the journey one must go through in order to discover oneself.
John plays the role of the mentor archetype by showing the new king his paternal castle; on his deathbed, the old king forbade John of showing the room in which hang the Princess of the Golden Palace’s picture. That room is the unconscious; also, to fall in love for the Princess implies the son to leave his father’s shadow and create a life of his own. Despite the old king’s warning, the new king wouldn’t give up seeing the inside, an allusion to Pandora’s box.
Afterwards, in order to get the Princess’ attention, John thinks of working up all gold of the kingdom. Which takes us to hermetic alchemy and jungian psychology: transmuting into gold, the process of attaining individuation and discovering the self archetype.
Having brought the Princess to his ship — union of the anima and animus — and setting sail, John listens to three ravens — Thomas Ravencraft’s, “Three Ravens” — about how the king might die once he come to land. A fox-red horse (Bible Revelations’ War), a bride-shirt looking like it’s woven in gold and silver (but is sulphur and pitch: false transmutation) and the death of the Queen (three drops of blood of her right breast, about motherly love) might come and he who knows and does something shall become stone.
Being faithful and saving his king, John turns into stone. Many years later he tells the king he must behead his twins if he can live again, as a test of faith, leading us to The Binding of Isaac. Once the king does, he is rewarded, as does Abraham, as his children live again.

Coursera: Fantasy and Science Fiction

Há muito não passo por aqui, mas volto com boas notícias.
Nós, aqui do blog, estamos participando de um curso muito, muito bom no Coursera, chamado Fantasy and Science Fiction: The human mind, our modern world.

O Coursera é um site que fornece cursos online das melhores universidades do mundo nas mais diversas áreas. De graça. Para conhecer mais do projeto, só dar uma olhada nesse TED Talk.

Para esse curso, nós estamos produzindo um pequeno ensaio acerca de cada uma das histórias estudadas na unidade (na semana). Nós concordamos que é uma ótima oportunidade pra compartilhar nossos textos e os resultados do curso.

Na primeira unidade, nós lemos a coletânea de contos dos irmãos Grimm, Household stories, traduzido por Lucy Crane e ilustrado por Walter Crane, importante designer do movimento Arts and Crafts.

Daqui pra frente, postaremos um director’s cut dos nossos textos traduzidos, pois nossos ensaios estão limitados a 320 palavras no curso. E nós queremos explorar um pouco mais os tópicos aqui no blog.