O legado de Alice Pleasance Liddell

Continuando a série do Coursera, como ensaio da semana passada tivemos que analisar os dois livros de Alice, Alice’s Adventures in Wonderland e Through the Looking-glass. 
Posso começar dizendo que Lewis Carroll é um gênio. Ele é um mestre em lógica e linguística, pra dizer o mínimo. As análises que o professor Eric Rabkin faz do livro e – especialmente – dos poemas de Carroll são fantásticas. Caso se interesse, entra lá no Coursera, se cadastra e pode assistir às video-aulas sem estresse.
Antes de mais nada, Alice é uma história nonsense. Isso não significa que é sem sentido. Muito pelo contrário. Um nonsense bem feito deve ser cautelosamente lógico. Vamos ver a comparação de Eric:

A primeira frase é fácil decorar, porque há uma estrutura gramatical por detrás desse conjunto de palavras. Mas a segunda é bem mais difícil, porque não há contexto, não há uma estrutura por trás, embora ambas frases tenham o mesmo número de palavras. Um nonsense bom tem que ter uma estrutura lógica por baixo.

Ambas histórias de Alice são muito, muito inteligentes. Charles Lutwidge atingiu um nível de maestria linguística e lógica espantoso. Por essa razão, assim que puder, leia Alice em sua língua original; muito se perde quando é realizada qualquer tradução, por melhor que seja. Toda essa brincadeira torna Alice talvez a primeira obra-prima de literatura considerada infantil.



Ao longo do Adventures in Wonderland, – não consegui nem começar a ler o Through the Looking-glass em uma semana – Carroll cria um diálogo constante com o leitor tanto por falar conosco diretamente como por deixar muito da história aberta a interpretações. Isso nos leva a um dos principais traços da história: realidade e relatividade. Alice completamente desconstrói nosso senso de realidade, sempre tratando os acontecimentos com relatividade. Ou o poço era muito fundo ou ela estava caindo muito lentamente“: isso destrói nossa realidade objetiva em que a aceleração da gravidade é aproximadamente 9,8m/s². Além disso, Carroll consegue subverter a linguagem, reduzindo-a a meras convenções, já que todo o jogo de palavras e trocadilhos – e há muitos – servem pra confundir e duplicar sentidos, tanto por fonética quanto por morfologia.
Por ser professor de matemática, Carroll constrói toda a narrativa de Alice através de lógica. Também não é coincidência que os dois livros usam jogos lógicos e extremamente estratégicos como ponto de partida: cartas e xadrez. Através da lógica, ele destrói e subverte a realidade. E isso chama a atenção de crianças, já que elas são os mestres em fazer isso: criar realidades alternativas que fazem todo sentido dentro de si, mas que para nós, mentes crescidas, não fazem sentido em relação ao mundo objetivo.

“Would you tell me, please, which way I ought to go from here?”
“That depends a good deal on where you want to get to,” said the Cat.
“I don’t much care where –” said Alice.
“Then it doesn’t matter which way you go,” said the Cat.

Entretanto, é para os adultos que ele fala também. Ao criar jogos – o croquet, a caucus race – em que ninguém ganha, ele está subvertendo, também, as convenções sociais. Carroll desdenha até mesmo da vida adulta e da sociedade vitoriana em que vivia. Com isso, o seu objetivo era cultivar sua criança interior e nos mostrar que precisamos cultivar nossas, também, pois ao final, ele nos deixa uma pergunta: Alice realmente passou por todas aquelas aventuras? 
Ou talvez estejamos só fazendo o papel da Duquesa: tentando achar uma moral sem sentido em um delírio infantil completamente sem sentido.

Pra manter a sequência, vou pôr o texto em inglês novamente 🙂

Alice’s writings are, above all else, very clever narratives. Carrol has done a remarkable work by playing with meaning, logic, language and society to conceive a story that’s maybe the first masterpiece of literature that is disguised as children’s books. 
Carroll creates a dialogue with the reader by both talking to them directly and leaving most of the understanding of the novel to us. Which brings us to our thesis: reality and relativity. Alice starts deconstructing our sense of reality by bringing everything into relative terms. “Either the well very deep, or she fell very slowly”: our tangible reality is obliterated; why would she fall slowly? Isn’t she under the laws of gravity? Furthermore, he transformscommunication itself on relative conventions, for all the wordplay – and there are many – is aimed at confusing and often subverting meaning, both through phonetics and morphology.
As a consequence – or maybe as a cause – he uses mathematical logic to build up all narrative. We know Carroll has also published many logic games and he does not fail to use them on Alice. Also, it is not a coincidence both books are related to highly strategical and mathematical games: cards and chess. He manages to use logic as a background for shattering reality. And that is appealing to children, as they’re capable of creating alternate realities that do make sense inside itself.
Nonetheless, he aims at adults as he does that. Also by creating games that nobody ever wins, he is playing societies structures. I believe Carroll mocks the adult life and society. Maybe his goal was to nurture his inner child and, above all else, tells us to nurture ours; for in the end he only throws us a question: has Alice really been through all that?
Or maybe, we’re just playing the Duchess: trying to find a senseless moral in a completely senseless child’s dream.
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