Dualidades, unicidade e Dracula

Dando continuidade à série do Coursera, agora temos Dracula. Estou novamente uma semana atrasado, porque acabei de receber a nota de Frankenstein.


Dracula é uma obra incrível e não tem nada a ver com nenhum dos filmes e/ou representações genéricas. Ele dá margem a muitas interpretações riquíssimas. Entretanto, fugi de defender alguma tese interna ao livro para algo externo: porque é tão forte a imagem do Conde em nosso inconsciente coletivo. Há outros fatores envolvidos– que entendi principalmente depois de assistir às aulas –, mas acho que isso é um ponto forte na obra.


Uma das coisa que notei muito marcantes no pouco-mais-da-metade-de-obra que li, foi como muitas dualidades se cruzavam. Dessa maneira, a história se tornou uma obra bem densa e complexa; a classificação de história de terror se deu porque a dualidade mais presente é a vida-morte. De todo modo, as outras dualidades que aparecem ao longo do livro existem para fortalecer a imagem de Dracula e essa dualidade principal.





Como acontece nos contos de fadas, coisas impossíveis para nossa realidade objetiva se tornam aceitáveis depois do era uma vez. Stoker nos leva a tempos antigos quando pedidos ainda ajudavam através do terror, usando a justaposição de realidade-fantasia; usando o fantástico com maestria.


Por isso, a história é tão envolvente. Além disso, a realidade-fantasia é combinada com a dualidade de passado-presente do qual se fala ao longo de toda história. No capítulo 3, Johnathan vai nos dizer:

“É o século XIX nos dias de hoje em busca de vingança. Assim, a não ser que meus sentidos estejam me enganando, os séculos passados tinha, e têm, poderes que a mera ‘modernidade não pode destruir.”

Mais pra frente, Stoker nos dá ainda outras dualidades: a de guerreiro-burocrata, por exemplo, é representada pelas características complementares de Johnathan e Dracula, presentes no mesmo castelo. E, ao misturar guerreiro-burocrata com passado-presente, a dualidade belicoso-pacífico:

Sangue é uma coisa muito preciosa nesses dias de paz desonrosa; as glórias das grandes raças são como contos a ser contados.


“Life is extremely overrated.”

Tudo parece nos levar a esses opostos: não é coincidência que Dracula seja tão velho a princípio, seu castelo descrito muito, muito antigo. Portanto, ele vai em busca de sangue, que representa a juventude. Ainda para reforçar, uma das passagens mais frio-na-espinha do livro – quando Johnathan encontra com três vampiras – é uma representação claríssima da dualidade freudiana de erosthanatos.



Dracula retrata a morte não só no sentido de horror e medo, mas também como o velho dando lugar ao novo, a morte à vida, de novo reforçando a dualidade. Entretanto, é o círculo da vida, o conflito das gerações, que há de se repetir até quando durar a humanidade; as dualidades, na verdade, são unas. A morte está sempre ao nosso lado, seja ela assustadora ou cheia de esperança, porque, no final, a vida sempre ocorre.





Dracula presents us with dualities that often cross and multiply. Thus, the story turns into a dense and complex work of art classified as a horror story, for the most prominent is the life-death duality. Nonetheless, other dualities appear throughout the story in order to enforce the image of Dracula in our collective unconscious and back up the idea of life and death.
As we have seen on fairy-tales, things impossible to our daily life become acceptable after the once upon a time. Stoker leads us to olden times when wishes still helped through horror, by using the juxtaposition of reality-fantasy; which states his mastery on manipulating the continuum of the fantastic. For that, the story becomes so thrilling. Furthermore, this reality-fantasy is combined with the past-present duality mentioned all along the tale¹, thus creating a depth that could not be achieved by a representation alone. 
Throughout the book, Stoker underlays yet others: the warrior-idle for instance, represented by doppelganger characteristics of Johnathan and Dracula. And as a crossing of warrior-idle and past-present, the bellicose-peaceful² arises.
All seem to point towards these opposites: it is not a coincidence Dracula himself appears at first of old age, his castle described as very ancient. Therefore, he seeks blood, which stands for youth. As yet reinforcing, one of the most thrilling passages of the book – when Jonathan sees the three vampires – is a masterful representation of Freud’s duality of eros-thanatos.
Therefore, Dracula portrays death not only in the sense of horror and fear, but also as the old giving place to the new: the circle of life, the conflict of generations. Death is always at the doorstep, be it terrorful or hopeful for in the end, life triumphs at all costs.


¹ “It is the nineteenth century up-to-date with a vengeance. And yey, unless my senses deceive me, the old centuries had, and have, powers of their own which mere ‘modernity’ cannot kill.” (chapter III, 15 may)
²“Blood is too precious a thing in thee days of dishonourable peace; and glories of the great races are as a tale that is told.” (chapter III, midnight)

  

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