Deriva no Recife ou O que fazer para fugir da rotina

Estou há uns 10 minutos tentando começar a escrever esse post sem ser muito chato, teórico ou metido a filosófico demais – como eu normalmente faço –, mas não acho que tenha conseguido. Enfim. Fato é que nós somos uma sociedade doente. Mecanizada demais, segmentada demais, individualista demais. Mas não se preocupem: não vou falar sobre a abolição do capitalismo ou da libertação do espírito humano para o retorno ao Éden. Não hoje.

Quero falar de coisas muito mais simples, de pessoas comuns, de coisas que vi, senti e não achei que existiam mais fora da lembrança da geração dos meus pais.

Tudo começou com um filme – um filme daqueles de máquina fotográfica analógica, 35mm, lembra? ou nunca conheceu? – e foi razoavelmente fácil achar um lugar que fizesse isso na Conde da Boa Vista. Quando deixamos na loja para revelar, a mulher disse que demoraria 2 horas para ficar pronto. “Amanhã, então”, pensei. Mas claro que não seria assim; se fosse, esse texto não existiria.

Gabriela, sem muito esforço nem hesitação, sugeriu que esperássemos duas – duas – horas por lá pra pegar o as fotos reveladas logo e ir felizes para casa. “Meu Deus, o que a gente vai fazer durante duas horas na Conde da Boa Vista?”. Saímos da loja e andamos alguns passos, quando ela quis ir no Beco do Fotógrafo. Nós já tínhamos ido lá; só tinha um monte de lojinhas velhas em um prédiozinho estranho que não ia ter nada pra a gente ver lá durante duas horas.

E tinha muita coisa.

Só uma pausa aqui na história, pra explicar o que é psicogeografia. Antes de mais nada, não foi algo que fizemos hoje. Bom, não por definição, apesar de nós termos decidido que foi. Essa definição ficou mais conhecida a partir de um filósofo-artista – ou artista-filósofo – Guy Debord e tinha como objetivo conhecer a cidade de maneira subjetiva.  E a técnica para isso seria a deriva:

Na deriva, uma ou mais pessoas durante um certo período esquecem seus motivos usuais para se movimentar e agir, suas relações, suas atividades de trabalho e lazer e se deixam ser atraídos pelo terreno e os encontros que acham lá… Mas a deriva inclui ambos se deixar ir e sua contradição necessária: a dominação da variação psicogeográfica através do conhecimento e cálculo de suas possibilidades.

Desculpem a coisa chata, mas precisei citar esse trecho.



Ou seja, se deixar levar pela cidade e pelas situações.

Entramos na primeira lojinha do Beco do Fotógrafo. Era uma lojinha que era parecida com aquelas lojas Tabira ou outra de revelar fotos, só que não revelava: só vendia produtos relacionados. Fomos atendidos por um cara simpático e muito constrangido. Não sei se é bem essa a palavra, mas ele não me parecia agir com muita naturalidade. Gabi, como às vezes ela faz, tornou muito mais divertida e complexa a simples tarefa de comprar um fone de ouvido: fez dezenas de perguntas sobre a durabilidade, qualidade, garantia, “tem como testar, moço?“, se era stereo… eu sempre acho isso engraçado e dessa vez não foi diferente. Depois de mais algumas perguntas sobre um filme e eu pedir um produto qualquer, ela conseguiu pechinchar – pasmem – um real no final. Tá, isso não é muita coisa, mas o simples ato de conseguir pechinchar já é algo muito raro nos nossos dantescos shoppings.

Saímos de lá e fomos seguindo pelo beco. E chegamos em uma loja – que também já tínhamos visto – com milhares de máquinas fotográficas. Velhas, Canon, novas, Polaroid, lentes, inteiras, quebradas, Chine, Nikon, flashes. Todo. Tipo. De. Máquina. Entramos, eu ainda sem interesse e Gabi com uma curiosidade infantil pela qual tenho muita admiração. A loja era bem longa, mas entre a vitrine e o balcão não tinha mais de 1 metro e não cabiam mais de três pessoas. Uma velhinha estava ao balcão testando uma câmera. “Oi, vocês tão procurando o que?“, disse a velhinha. Flash. Ela não era rude, mas também não tinha muito tato. “Nada exatamente… queria só dar uma olhada“, Gabi tentou amansar, mas não adiantou muito. Flash.

A velhinha lá, que descobrimos ser Vilma, ficou um pouco mais simpática, embora sempre fosse bem objetiva. De repente, chegou seu Luís, o dono da loja, que nos contou sobre seu sonho de fazer um museu com as câmeras  – algumas delas não usavam nem filme em rolo, de tão antigas. Entre a conversa, ele disse que só vendia os modelos de câmera dos quais ele tinha mais de uma e nos mostrou uma que, segundo ele, já havia recebido centenas de ofertas monstruosas. Ficamos bem surpresos com a paixão, o conhecimento e a humildade dele, que repudiou a sugestão que demos de tentar entrar em algum edital do governo para realizar a exposição.

Saímos e entramos em uma loja de CDs. Sim, loja de CDs. O dono, de poucas palavras, ficou ajeitando alguns dos milhares de produtos que eu não faço ideia de como cabiam naquele espacinho tão aconchegante. Vimos várias capas antigas, novas; todas impecavelmente embrulhadas e conservadíssimas. E, só de ouvir aquele barulho nostálgico de caixas de CD batendo umas nas outras quando você procura em uma fila gigante, já valeu a pena saber que algumas tradições ainda existem.

Quando saímos, ficou apenas uma pergunta no ar: o que motivava essas pessoas? Por que razão eles levantavam todos os dias e iam trabalhar?

Passeamos mais um pouco pelo beco e passamos por uma loja de óculos. Dois senhores conversavam, e um deles tinha uma barba e bigodes muito peculiares; um Dalí quixotesco de cabelos razoavelmente longos. “Visse que véio estiloso da porra?“, falei pra Gabi, sem saber que logo o chamaríamos de seu Antonio, o técnico de uma das grandes óticas de Recife por mais de 50 anos. Passamos por ele e, na volta, Gabi viu uma armação que a interessou. Seu Antonio conversava com um amigo, calmamente, e fez questão de nos deixar à vontade para provar quaisquer coisa de sua loja, olhando com um certo desdém para os óculos descascantes de Gabi e mostrando um que ele “queria ver descascar desse jeito“. Lembrei que meus óculos escuros estavam sem, segundo ele, praquetas e perguntei quanto custava.

Cinco reais já tá resolvido! Pode ver ali na tabela da outra loja da esquina: praqueta importada custa mais de dez reais!“, cantando vitória. Não poderia discutir e, enquanto ele mexia nos óculos, ficamos provando vários outros, modelos que nunca tinha visto antes, óculos de John Lennon, Ray Bans e por aí vai. De repente, ele me entrega os meus óculos, que coloco na camisa dobrado e ficamos conversando um pouco, discutindo sobre as armações muito duradouras, modelos antigos ainda novinhos em folha. Ele nos mostra alguns modelos muito baratos de óculos incríveis, polarizados, discute o preço de lentes. Prometemos voltar pra comprar alguns óculos depois e fomos saindo. De súbito, eu lembrei que tinha esquecido de pagar e pegamos o dinheiro e o entregamos, “Eita, quase esqueci de pagar as plaquetas!“, ao que ele respondeu que “qualquer coisa, pagava na próxima“. “Na próxima, a gente só paga os óculos!“, ao que ele riu.

Quando saímos andando na rua, que peguei meus óculos de novo, notei que ele não só tinha colocado as plaquetas de silicone importadas, como tinha apertado as pernas – que já estavam toda desreguladas –, desentortado o óculos e limpado a lente. Por cinco reais dos quais ele sequer faria questão.

Vagarosamente voltando para o mundo real, ficamos invariavelmente satisfeitos de ter esperado quase duas horas pela revelação daquele filme. Ali, deu até pra pegar naquele sentimento nostálgico que faz as pessoas estarem ali, sim, por paixão; também por hábito, mas principalmente por paixão. Todos eles faziam o que faziam com gosto, disso eu tenho certeza: caso contrário, não teriam nos impactado tanto.

E é isso que eu quero fazer.

Portanto, minha gente, saiam de seus carros. Deixem de seguir pelos mesmos caminhos todos os dias, para ir e voltar do trabalho. Peguem ônibus, conversem com pessoas, andem por ruas diferentes – mas cuidado quando for fazer isso: infelizmente, nossa deriva tem que ser bem contida. As cidades são organismos vivos: seus carros estão entupindo as vias do Recife. Não vamos esperar que ele tenha um infarto fulminante, vamos mudar nossos hábitos e valorizar nossas pessoas, nossa cultura, nossa tradição. Isso nós temos de sobra.

 

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2 thoughts on “Deriva no Recife ou O que fazer para fugir da rotina

  1. Dudu, eu penso demais nisso. Já fui ao beco do fotógrafo muitas vezes, mas confesso que só reparei que havia essa loja de CD na última vez que passei por lá. Foi completamente nostálgico, como dissesse. Ouvir o barulho das capas batendo uma na outra, enquanto procurava por algo que você nem sabe exatamente o que é, dá uma saudade de uma época que – confesso – talvez nem tenha desfrutado tanto. Tipo quando escuto Oasis e me remeto a um tempo em que eu nem tinha consciência de que Oasis existia. Parece que já comecei a praticar a deriva aqui haha

    Mas enfim, o que eu sinto das pessoas que trabalham no beco é realmente uma tentativa de manter viva a tradição. A fotografia analógica, CDs, posters… E acho que a motivação deles deve ser nutrida pelo interesse que a gente demonstra por essas coisas, sabe?! Eles devem enxergar na gente uma forma de não deixar morrer paixão que eles mantêm até hoje. Acho engraçado que tem gente que acha que fotografia analógica (lomografia inclusa) tá “na moda”. Bem, pode até estar, mas pra uma parte bem restrita da sociedade. Com certeza eles não se mantêm com o dinheiro que ganham pela revelação dos nossos filmes.

    Fiz, praticamente, um outro post aqui nos teus comentários hahaha Mas olha, acho muito válido a gente se juntar um dia pra praticar a deriva em outros lugares. A gente faria uns registros bem iniciais sobre a experiência e postaria em algum lugar. O que tu acha?

  2. Comentário nunca é extenso demais, hahahah! Mas é, tem isso também, eu acho que eu não aproveitei o suficiente – e até certo ponto, nem aproveito hoje em dia – esses detalhes que meio que compõem um certo tempo, uma certa geração. Principalmente agora, é complicado ter essa relação com alguns “artefatos”, né. Mas isso é outro post, hahahah!

    Muito foda isso que tu levantou! Existe uma deriva psicológica que é uma coisa muito boa e que acendem outras faíscas completamente diferentes.

    Exato! Acho que é a paixão pelo que eles fizeram a vida toda mesmo, po. Já me disseram que seu Luís se preocupa porque nenhum dos filhos dele quer pegar a loja, sabe? E, po, o que vai acontecer quando ele morrer, po? Toda essa memória vai simplesmente se espalhar, ser vendida por aí? O fator tradição é muito mais valioso aí e eu acho que ele vem se perdendo no meio dos espigões, carros, Big Bens e Subways daqui.

    Po, acho muito foda! Tem muitos lugares que eu gostaria de conhecer em Recife. Eu sinto que eu mesmo não conheço a fundo a cidade, nem as pessoas, nem os lugares, nem nada, hahahaha. Eu acho uma coisa que é muito fácil de fazer e que pode dar uns resultados muito fodas!

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