Montaigne – Da potência destrutiva da tristeza

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Os estudos dos ensaios de Michel de Montaigne (1533-1592) são escassos e, em certos nichos universitários, sequer são considerados filosóficos. As razões para essa negligência costumam ser três: [1] a ausência de um sistema tripartido em lógica, física e ética; [2] o estilo ensaístico experimental; e [3] as temáticas de tom idiossincrático. Estas razões, ao contrário de serem um demérito, são os motivos pelos quais Montaigne é um autor valioso, uma vez que, a partir de conceitos, ele criou um novo estilo de se fazer filosofia; estilo este que influenciou a escrita e as ideias de filósofos como Blaise Pascal, David Hume e Friedrich Nietzsche, ao ponto em que este chegou afirmar que “O que [Montaigne] escreveu aumentou o meu prazer continuar a viver na Terra.”¹

Pretendo, nesta seção, versar sobre o segundo capítulo do primeiro volume dos seus ensaios, isto é, sobre a tristeza. Montaigne, neste capítulo, conta a história do rei egípcio Psammenitus que, ao perder a guerra para o exército persa liderado pelo rei Cambises, viu a sua filha e o seu filho desfilarem na sua frente: a primeira como escrava do império persa, o segundo como prisioneiro a caminho da sua execução fatal. Psammenitus observou os seus filhos com austeridade e, sem levantar a sua cabeça, não derramou uma lágrima sequer. Entretanto, quando um amigo que frequentava o seu palácio estava se dirigindo para ter o mesmo fim de seu filho, o rei do Egito pôs-se a movimentar energicamente, mostrando-se como vítima de uma extrema desolação.

Em um primeiro momento pode-se imaginar que a reação do rei Psammenitus se deu em função do excesso de tragédias que tomavam lugar, e que não foi por conta do seu amigo em detrimento de seus filhos que o rei se submeteu aos prantos, mas que este último evento teria sido apenas a gota d’água que fez transbordar o balde de suas emoções. Mas, na verdade, como conta Montaigne, o rei persa Cambises questionou o porquê do rei egípcio não ter se comovido ao ver a catástrofe que acontecia com os seus filhos; e o rei Psammenitus, atordoado e sem o vigor que lhe era tão característico, respondeu: “É que apenas este último desgosto pode se externar por lágrimas; os dois primeiros ultrapassam em muito qualquer meio possível de expressão.

A tristeza, segundo Montaigne, tem o efeito de imobilizar o espírito humano e de esvaziar a vontade de quem está acometido por essa paixão. Os seus efeitos são tão avassaladores que são capazes de roubar o poder de ação de um rei, e de tornar morosa a tentativa de se expressar, sequestrando até mesmo a fala de um ilustre retórico. Timanto, pintor grego, reconstruiu em cores o sacrifício de Ifigência (imagem abaixo), pintando as emoções dos personagens envolvidos no evento de acordo com a afabilidade que cada um tinha com a vítima; mas, ao retratar o pai da mulher (à esquerda), Timanto se viu forçado a esconder o seu rosto, uma vez que nenhuma emoção poderia ser apropriada para descrever o que se passava em suas entranhas.

Sacrifício de Ifigênia
Sacrifício de Ifigênia.

Montaigne pensa que este pode ser o mesmo motivo pelo qual os poetas, como Ovídio em suas Metamorfoses e Higino nas suas Fabulae, contaram que Níobe, ao ser punida por Ártemis com a morte de seus quatorze filhos, tornou-se uma estátua de pedra. A causa dada pelos poetas à petrificação de Níobe é o escudo de Medusa, providenciado por Ártemis como parte do castigo, mas Montaigne defende que essa é uma metáfora que indica que Níobe ficou paralisada não por poderes sobrenaturais, mas por algo natural: a tristeza.

“Quem pode dizer o quanto arde ainda está em fogo baixo”, afirma Petraca no soneto de número CXXXVII.

Portanto, para Montaigne “a força de um desgosto, para ser extrema, deve aturdir toda a alma e impedir-lhe a liberdade de suas ações; como nos advém, ante o aviso de uma notícia muito má, que imediatamente nos sintamos invadidos, transidos e como tolhidos de todo movimento.” Ou seja, a tristeza priva o homem da sua liberdade (entendida em um sentido bastante intuitivo) e que, dessa forma, diminui a sua capacidade de agir. Então, diferentemente do que se pensa, Montaigne sustenta que a tristeza não pode ser uma fonte de sabedoria ou consciência, como comumente se pensa, mas de decadência. Esta é uma paixão que não se deixa digerir, mas que digere quem a sente, ou, nas palavras de Sêneca: “as dores pequenas falam; as grandes se calam”.

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Mais informações:

Para as ilustrações dos Ensaios de Montaigne por Salvador Dalí, clique aqui.

Para as ilustrações da petrificação de Níobe, clique aqui.

Notas:

¹ Em “Schopenhauer como educador”.

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