Monólogos intercalados

Diálogo: dois monólogos intercalados

(Mário Quintana)

skjasfas

Daniel Galera, escritor contemporâneo brasileiro, em cujos romances nunca repousei os olhos demoradamente, disse em uma entrevista a que eu assistia que é muito difícil construir diálogos interessantes em literatura. Um diálogo, ele explicou, não pode ser escrito mecanicamente – com perguntas e respostas diretas –, porque não é assim que acontece na vida. Aquilo ficou comigo e me lembrou a epígrafe do post, de Mário Quintana, que li despretensiosamente certo dia… mas isso já é outra história.

Desde então, me ponho a observar os diálogos de terceiros e quartos com curiosidade, e embora eu queira provar Quintana errado, isso tem se mostrado bem difícil.

Mas não acredite em mim. Teste. Repare nas conversas que você tem e que você pode acompanhar: no trabalho, com amigos mais-ou-menos-próximos, com colegas. A distância entre o que se fala e o que se entende é enorme. Que dirá daquilo que se responde. São dois monólogos em que cada um deixa o outro ocasionalmente falar para variar o ritmo, o que raramente significa que são dados ouvidos aos monólogos alheios.

Não vou tentar me aprofundar nas formulações filosóficas disso, porque 1) não seria capaz e 2) não quero. De qualquer forma, para exemplificar, Kundera usa uma metáfora genial – cuidado com metáforas, elas são muito poderosas – n’A Insustentável Leveza do Ser, que é o léxico interpessoal. Em linhas gerais, ele detalha como o significado de algumas palavras, para dois personagens que se relacionam, são completamente diferentes e quase sempre contraditórios. Para isso, ele conta com toda experiência de vida e de formação deles, afim de explicar como aquela palavra viria a tomar tal significado. Essa retomada à história de cada personagem é o que caracteriza a não-linearidade do romance. Mas este post não é uma crítica desse livro, esse é.

Se você assistiu a Gravidade, assista a Aningaaq, um curta feito por Jonas Cuarón. Ele representa isso de uma forma cruelmente cômica e reforça, irônico, em longos takes – assim como seu pai em Gravidade – a solidão que é se relacionar. Em uma caricatura sutil, Jonas mostra que a comunicação é muito menos aquilo que é falado e muito mais aquilo que desejamos e/ou podemos ouvir. No curta, nós vemos o outro lado da linha de rádio de Sandra Bullock na cena em que ela quase desiste da vida. Aningaaq, o esquimó que sintoniza seu rádio com o dela, não entende uma palavra do que ela diz, se limitando a imitar um cachorro e, literalmente, ignorá-la. E, ainda assim, salvar sua vida por lhe permitir ao acaso ouvir o estridente choro de um bebê.

E eu acho que Kundera justifica os pontos de Galera, Quintana e Cuarónzinho. É raro – raríssimo – encontrar alguém que dê ouvidos ao que você está falando. Quase sempre as pessoas estão pensando no que comeram, no que vão comer, nas poucas horas que dormiram, no trânsito que vão enfrentar, no cheiro que estão sentindo ou no que poderiam postar na internet; dificilmente estão lhe dando ouvidos. E, quando estão, ainda não é certo que vocês já afinaram a música – como diria Kundera novamente – e estão tocando a mesma partitura; se o léxico está alinhado.

Por isso, cultivo com muito carinho a convivência daquelas pessoas que me são caras; elas são provavelmente as poucas a quem consigo comunicar verdadeiros sentimenos, com o mínimo de ruídos de transmissão possível. São as poucas com quem eu posso conseguir, de fato, um diálogo.

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