H.P. Lovecraft – Existência, Desespero e Cinismo

“O medo é a emoção mais antiga e forte da humanidade… 

… e o tipo mais antigo e forte de medo é o medo do desconhecido.”

– H. P. Lovecraft

Quando eu era uma criança, entre os meus 8 e 12 anos, o medo do oceano me consumia. As razões para tanto eram duas, sendo a primeira a minha inabilidade em nadar – o que me deixaria à mercê do movimento das ondas -, e a segunda o meu receio de que em águas profundas habitassem criaturas assombrosas que pudessem emergir e destruir a minha cidade – sim, Godzilla style. Digo que o meu medo durou até os 12 anos porque foi com essa idade que eu fui matriculado em aulas de natação e tive a minha primeira lição de biologia marinha, o que me dava a sensação de que tais temores eram não apenas irracionais, mas também frutos da minha inexperiência. Assim, a técnica e o conhecimento científico afastaram o meu pavor do oceano.

As “criaturas assombrosas” que mencionei acima, na verdade, eram somente uma, e ela entrou em meu imaginário no dia em que eu observei um grupo de amigos se entreterem com um jogo de cartas. No topo de uma carta específica, que um dos meus amigos sacara com tanta perícia e entusiasmo, estava escrito “Cthulhu: O Grande” e, não bastassem os arrepios causados por este nome de difícil pronúncia, a ilustração de uma espécie de titã alado de cor esverdeada, extensão quilométrica e rosto de cefalópode me tiraram algumas noites de sono. Esta foi a primeira vez em que me lembro de ter sentido medo, e o oceano virou um lugar a ser evitado: era o lugar mais inóspito do planeta.

cthulhu

Nesta época, o meu contato com a literatura se dava, quando muito, pelos livros de Pedro Bandeira e Rachel de Queiroz, e era muito improvável que eu soubesse que Cthulhu era um dos ícones mais aclamados da literatura fantástica. O criador desta narrativa, Howard Phillips Lovecraft, foi um dos primeiros a fazer uso do gênero horror (que tinha na tradição nomes como Horace Walpole e Edgar Allan Poe) a partir de postulados científicos; e se Mary Shelley e Bram Stoker não podiam ser considerados os melhores “cientistas da literatura”, o mesmo não se aplicava ao espírito matemático de H.P. Lovecraft.

Lovecraft acreditava que o medo era a mola propulsora das histórias de horror e que quanto mais verossímil fosse a narrativa, maior seria o impacto causado nos leitores. Em termos fisiológicos, o medo é um sentimento que é acionado quando o corpo percebe a possibilidade de que alguma coisa danosa possa acontecer a ele – o que torna este sentimento uma espécie de “estado de alerta”. Entretanto, lidar com o medo não é algo simples; principalmente quando se nota que tudo ao nosso redor pode nos causar algum tipo de dano: desde a ingestão de um alimento cujo prazo de validade expirou até a picada de um minúsculo inseto. Sem falar, ainda, dos medos de origem emocional. Para lidar com este medo radical, que chegaria a impossibilitar o desenvolvimento da espécie, o homem passou a contar estórias que, quando não pretendiam ser <sobre> o mundo, diziam-se <o próprio> mundo. Temos, como exemplo, as religiões, as ciências e até mesmo o Estado. Dentre essas formas de narrativa, a que parece propiciar o maior conforto, isto é, afastar o medo, é a de que o mundo fora criado para que o homem pudesse fruí-lo, ou seja, de que tudo que existe tem como propósito o bem-estar humano – seja lá o que se entenda por “bem-estar”. Esta ideia antropocêntrica, por sua vez, é um dos elementos mais ironizados nas obras de Lovecraft, que afirma em um de seus ensaios sobre o filósofo Friedrich Nietzsche que “a única realidade cósmica é o destino sem propósito e indesviável – automático, amoral, inevitavelmente incalculável.”

Howard Phillips Lovecraft 4

O que eu não sabia ao reparar a imagem de Cthulhu é que o meu medo era menos da sua estética repulsiva do que da metáfora que representava. Cthulhu, assim como os Shoggoths em Nas Montanhas da Loucura, é assustador porque transmite a ideia de que os homens podem ser destruídos com facilidade, explicitando assim o seu papel desprezível perante o curso da natureza. “No cosmos a existência ou não existência da Terra e de seus miseráveis habitantes é algo da mais completa indiferença. Arcturus ainda brilharia alegremente se todo o sistema solar fosse varrido do universo”, diz Lovecraft.

Esta indiferença cósmica, também chamada de cosmicismo, que assegura que a existência humana é não apenas desnecessária, mas talvez até um acidente de percurso da natureza, foi influenciada por um texto de juventude de Friedrich Nietzsche intitulado Sobre a verdade e a mentira em um sentido extra-moral. Nele, as primeiras palavras do filósofo alemão são: “No desvio de algum rincão do universo inundado pelo fogo de inumeráveis sistemas solares, houve uma vez um planeta no qual os animais inteligentes inventaram o conhecimento. Este foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da história universal, mas foi apenas um minuto. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta congelou-se e os animais inteligentes tiveram de morrer”, o que sugere não somente uma sátira perante a insignificância da existência humana, mas também um ataque àquilo que o espírito moderno prezava como mais nobre: o conhecimento científico – o mesmo conhecimento que afastou o meu medo dos oceanos.

Lovecraft defendia algo bastante semelhante ao irrealismo nietzscheano¹, pois, para ambos, além da realidade absoluta ser considerada uma ficção esdrúxula, o aparato perceptivo humano seria excessivamente limitado para captá-la caso ela existisse. Segundo Nietzsche, as verdades são “ilusões que se esqueceram que eram ilusões”, e as palavras seriam “metáforas que se desgastaram” em um mar de perspectivas parciais que clamam por um ponto de vista privilegiado. Lovecraft, por sua vez, traduz esta mesma noção no conto Do além (From Beyond) quando o cientista Crowford Tillinghast afirma que “os nossos meios de receber impressões são absurdamente escassos, e as nossas noções dos objetos que nos cercam infinitamente curtas. Nós vemos as coisas somente como nós fomos construídos para vê-las e não podemos formar qualquer ideia de suas naturezas absolutas”. Neste mesmo conto, em um ato de licença poética, Tillinghast constrói uma máquina capaz de aumentar o poder perceptivo dos homens, fazendo com que eles se tornassem aptos a enxergar o mundo de um ponto de vista absoluto, afastando o “véu das aparências”, transcendendo as limitações fisiológicas. Entretanto, neste mundo de delírios platônicos, esse conhecimento leva os personagens à destruição. Em suma, como uma espécie de Górgias depressivo, Lovecraft sustenta que nós não podemos conceber a realidade porque tal coisa não existe; e, se existisse, ela não poderia ser conhecida; e, se pudesse ser conhecida, ela nos destruiria.

Dessa forma, toda a relação do homem com o mundo que o cerca ou, quem sabe, com o mundo que é formado por suas percepções, é debilitada; e se esta máxima pode se estender para o campo da moral, então os juízos sobre o que seria o bem e o mal são expedientes locais e somente verdadeiros ou falsos a partir de um ponto de vista extremamente circunscrito. Lovecraft pensa que a quebra desses valores – essa postura niilista – torna a vida humana “fatigante, insatisfatória e sardonicamente sem finalidade” e que quem procura por um paraíso de formas perfeitas e realidades imutáveis é somente um “fantoche dos mitos ou de sua própria imaginação”. Essa perspectiva amoral do mundo culmina na eliminação de todos os valores, denunciando-os não somente como arbitrários, mas frutos de um processo de decadência, o que torna a existência humana algo meramente mecânico e reduzido às interações fisiológicas de prazer e dor, sendo o único objetivo da vida a mitigação do sofrimento. E, se se pergunta o porquê de tudo o que acontece, talvez este seja o sinal de uma doença, pois, como Fernando Pessoa na voz de Álvaro de Campos escreveu no poema A Tabacaria, “a metafísica é uma consequência de estar mal disposto”.

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“A coisa mais misericordiosa no mundo, eu penso, é a inabilidade da mente humana em correlacionar todos os seus conteúdos. Nós vivemos em uma plácida ilha de ignorância no meio de um oceano negro infinito, e não nos foi destinada a capacidade de navegar tão longe. As ciências, cada uma julgando em causa própria, têm nos causado pouco mal até agora; mas algum dia esse mosaico de conhecimento dissociado nos legará um terrível panorama da realidade e de nossa amedrontadora posição neste lugar, tão terrível, que ou bem nós ficaremos loucos diante da revelação ou fugiremos desta luz para a paz e a segurança de uma nova Idade Negra”.

Ainda assim, o conhecimento científico tem um papel importante nas obras de Lovecraft, sendo a melhor forma que dispomos para nos relacionar com o mundo. Nós formamos crenças de caráter científico a fim de prever a ocorrência de fenômenos naturais e, com isso, aumentar as chances de nos adaptarmos às condições ecológicas, evitando, assim, a destruição da espécie. Por exemplo, se um vulcão está previsto para entrar em erupção, então um toque de emergência é acionado para que os habitantes da cidade não sejam dizimados. Os grandes percalços desse projeto seriam a busca por informações desnecessárias para a sobrevivência, e a concepção dessas descobertas humanas como se fossem leis que supostamente pertencem à natureza do mundo, propondo a ele uma <essência>. A confusão e, consequentemente, a falha dessas projeções antropomórficas podem causar uma espécie de desespero existencial, uma vez que tudo se torna desconhecido e, portanto, temível, pois, pode nos causar danos severos. E, em meio à nossa ignorância, não há ciência ou técnica que nos conforte em um cosmos que é indiferente à nossa existência e que não hesitaria sequer por um segundo em nos exterminar, caso esta fosse a contingência em ação. Mas até mesmo hesitar é uma ação humana ou, no máximo, um verbo no infinitivo – o que acontece é o que acontece e qualquer juízo sobre o acontecimento é uma mera interpretação. 

Por outro lado, tanto o Nietzsche (da fase do Zaratustra) quanto Lovecraft pensaram em uma saída para este desespero. Nietzsche estrutura o projeto do Übermensch, isto é, do homem que está além do homem. Neste projeto o filósofo sugere que se criem novos valores, e que eles sirvam de farol para a elevação da potência do homem a fim de torná-lo ainda mais forte, vigoroso e disposto a afirmar a vida. Lovecraft, por outro lado, parece não estar de acordo com o caminho nietzscheano. Para o escritor, não há saída para o homem a não ser a morte ou o cinismo. Na linha de Schopenhauer, Lovecraft está convencido de que o mundo e o homem seriam melhores se nunca tivessem existido mas, já que existem, é melhor tomá-los como uma espécie de piada de mau gosto. “O homem sábio”, diz, “é um cínico risonho; ele leva nada a sério, ridiculariza a seriedade e o zelo, e nada deseja porque ele sabe que o cosmos possui nada que seja merecedor de desejo. E, ainda, sendo sábio, ele não é sequer um décimo tão feliz como um cachorro ou um lavrador que não tem vida [social] ou aspiração acima do simplório plano animal”. Em suma, viver é um fardo que não vale o esforço que reivindica, e tornar a vida um objeto de riso é a única forma de não sucumbir ao desespero de existir. “É bom ser um cínico – é melhor ser um gato contentado – e o melhor é não existir em absoluto”.

Portanto, se é possível extrair uma filosofia das obras literárias de Lovecraft, ela exprime a condição de que o universo não fora criado por uma inteligência divina que prescreveu aos homens um propósito – que recebe o nome de <verdade absoluta>. O cosmos é imperiosamente indiferente aos homens, e estes se debatem em suas próprias limitações fisiológicas na busca de sentido para as suas existências insignificantes (isto é, sem significado intrínseco). Assim, os monstros viscosos ilustrados com uma linguagem arcaica e sombria, que brincam com o limiar da sanidade humana, são uma metáfora para a frágil posição ocupada pelo homem; e, se o autor busca infundir o medo em seus leitores, isso se dá não por entretenimento, mas pela intuição de que a vida é um sinônimo para o medo, já que tudo é desconhecido e destruidor. Para escapar do medo, é preciso não existir. Ou escarnecer a própria existência.

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Mais informações:

Para o texto Sobre a verdade e a mentira em um sentido extra-moral de Friedrich Nietzsche em português, clique aqui.

Para os contos completos de H. P. Lovecraft em inglês, clique aqui.

Para a animação do At the Mountains of Madness (dublado em italiano e legendado em inglês e espanhol) de Lovecraft, acesse o vídeo abaixo:

Notas:

¹ Isto é, a posição de que não existe uma realidade que seja independente da cognição humana; ou, em termos um tanto mais técnicos, a posição de que não haveria uma realidade que seria condição de possibilidade para a experiência humana.

Observações:

Todas as citações das obras de H. P. Lovecraft foram traduzidas por mim a partir dos textos originais do autor. Não pretendo, porém, possuir os direitos autorais das traduções, sendo permitido o uso dos trechos para qualquer fim.

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One thought on “H.P. Lovecraft – Existência, Desespero e Cinismo

  1. Ótimo texto, expões bem a “filosofia” oculta por trás dos contos de Lovecraft.Creio que já tenha lido “A chave de prata”, nela há uma boa exposição da filosofia de vida do autor, seria interessante algo sobre ela.
    Gostaria de pedir um link do texto de onde tirou a citação “a única realidade cósmica é o destino sem propósito e indesviável – automático, amoral, inevitavelmente incalculável”

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