O Mito de Noé

Por mais estranho que possa parecer para nós do mundo ocidental, a religião cristã tem, também, sua mitologia: símbolos, heróis e mitos. Apesar disso, desde a morte de Deus, esse repertório simbólico permaneceu quase intocado pelos storytellers enquanto mito. Noé, entretanto, decidiu vasculhar esse baú e ressignificar uma mitologia cujo sentido tem sido desgastado.

Aronofsky se propõe a testar o que pode fazer como épico, sem abandonar o thriller psicológico que executou com primor em Cisne Negro; em muitos sentidos, esse filme são dois em um. Parece não ser por acaso que o filme passe da água para o vinho; a dualidade está presente em todos os seus aspectos. Portanto, Noé é um bom mito e um filme ruim.

Se você ainda não assistiu ao filme, não recomendo a leitura do texto. Spoiler alert.

Untitled-1

O filme

O roteiro de Aronofsky e Ari Handel também expressam forte dualidade; enquanto a simbologia ganha força marcante na narrativa, as individualidades de cada um dos personagens parecem se diluir na jornada para o novo Éden. Cada um deles deixa muito a desejar, assim como a atuação de todo elenco – exceto Hopkins e, talvez, Crowe. Saído do drama essencialmente intimista, Aronofsky parece se perder na imensidão de um épico, embora mantenha sua força de operação com o simbólico.

Por outro lado, o filme tem recursos visuais narrativos de muita força e expressão e a fotografia é fantástica. A onipotência de Deus não é uma questão – como nos mitos, aquilo é a realidade – e cada uma das cenas em que milagres ocorrem, os animais indo à Arca, o Paraíso; tudo corrobora. Em oposição, as cenas de quase-stopmotion nos tiram daquela realidade para nos fazer pensar como poderíamos atualizá-la à nossa. Em termos cinematográficos, Aronofsky não deixa passar despercebida a influência de Peter Jackson e eu não duvido de os mesmos estúdios terem feito os SFX de ambos.

_1640-in-front-of-noah-s-ark-giovanni-benedetto-castiglione

Após Deus se manifestar pela primeira vez para Noé – uma gota de água cai de um céu límpido e uma flor brota instantaneamente –, ele tem visões em sonho e parte numa jornada para procurar Matusalém (Hopkins), com sua mulher e três filhos. No caminho, ele encontra a criança Ilia (Emma Watson) sobrevivente de um saque e a adota.

Na fuga de outros homens, se depara os watchers – anjos que deixaram o Paraíso e vieram à Terra junto com Adão e Eva. Os anjos caídos, ressentidos com a raça humana, não se importam com mais um homem; entretanto, a presença de Noé frente aos sinais do Criador os convence a ajudar na construção da Arca.

_Dore_arch_noahNoé, portanto, cumpre – de forma secundária na narrativa, enquanto tentamos nos aprofundar nos personagens – a construção da Arca e coloca todos os animais dentro. Novamente, a consciência de Aronofsky de encarar o mito de forma simbólica não se preocupa em fornecer dados irrelevantes para a narrativa; por exemplo “como ele atrai os animais?”, ou “como ele os coloca para dormir por tanto tempo?”. Aquilo que é contado como realidade, e é a realidade daquele outro mundo; não há razões para questionar.

Na segunda parte, o filme – em que a água se torna vinho – se transfigura de um épico com nuances psicológicas para o thriller em uma realidade épica. Aronofsky parece estar em solo seguro aí, e enquanto o mundo se afoga, a Arca seria sua casa. O roteiro, entretanto, sucumbe e desmorona. A cegueira de Noé para cumprir o que ele acredita ser a missão divina não consegue ser transmitida em toda sua angústia devido à superficialidade dos personagens e a atuação de todo elenco; Connelly se perde em um overacting de uma personagem vazia e a gravidez de Emma Watson é um milagre quase risível.

Ainda assim, o filme poderia ser bem sucedido apenas com o mérito de reviver um mito já morto, mas é impossível se esquivar de uma abordagem política, por mais que eu tenha tentado. Não é um salto distante defender que, se o filme não trata de uma limpeza étnica, a presença exclusiva de caucasianos – os descendentes de Adão, feito à imagem e semelhança de Deus, logo, Deus… – não passa batido, mesmo para mim, que não costumo debater esse tipo de questão. Ao se tratar de um filme que lida com uma cultura fundamentalmente patriarcal, militar e tão própria do ocidente, esse cuidado deveria existir. Conspirador, não posso deixar de imaginar se os grandes grupos religiosos conservadores não financiaram esse filme.

_007Além disso, mesmo o veganismo dos descendentes de Seth – a linhagem de Noé – não me parece despropositado. Por mais que seja um recurso para se contrapor ao espírito homem-dominador dos descendentes de Cain – aqueles que corromperam a Terra –, não há como não pensar que há uma agenda muito contemporânea. Principalmente devido à supressão de um evento central no mito de Noé: o sacrifício de um cordeiro como sinal do juramento com Deus de que ele não inundaria a Terra novamente.

O mito

Apesar de tudo isso, se o foco for direcionado à estrutura narrativa, como todo mito bem contado, Noé, trata de uma jornada do indivíduo para dentro de si, utilizando metáforas e símbolos. Dessa forma, algum distanciamento é necessário, pois essa a mudança na interpretação da história pode esbarrar em nossos pre(con)ceitos já formulados acerca da religião cristã.

De antemão, é preciso ter em mente as dualidades constantes que ocorrem na narrativa. Ainda além, elas não devem ser interpretadas apenas em um nível, mas sempre com desdobramentos em outras dualidades; esse é um ponto forte do filme. A forma e o conteúdo – nesse sentido – se mesclam. Uma ressalva é que essa interpretação é, sobretudo, relativo ao arquétipo do herói do mito, Noé.

Desde o começo, a Terra em questão é estrangeira. Não é o mesmo céu, nem a mesma natureza, nem as mesmas pessoas que estão naquele mundo; tudo é estranho para nós. Para muitos fatos, não há explicação, – como a pedra que eles quebram para obter fogo – mas a naturalidade com que tudo é encarado na narrativa faz crer que tudo aquilo simplesmente é daquela forma; e, enquanto mito, é. Isso, novamente, é fruto da consciência e aceitação da expressão mítica da narrativa.

As visões dos sonhos de Noé têm muita força simbólica e visual. Enquanto mensagens de Deus, elas não são diretrizes do que deve ser realizado; o sentido da comunicação é atribuído por ele. Ao identificar a imagem da montanha em que vive Matusalém, a jornada para encontrá-lo se inicia. Devido a um chá de seu avô, ele embarca novamente em um sonho para saber o que deve fazer, dada a inundação do mundo.

cobra

Aqui, novamente, não há uma comunicação direta com Deus; Ele não fala, nem manda construir uma Arca. Aquilo que Noé busca e realiza é fruto de seu próprio desejo e atribuição de significado ao que lhe é dado – assim como fazemos em nossa realidade. Além disso, a comunicação não se dá em uma realidade material – como acontece, por exemplo, n’O Príncipe do Egito –, mas em sonho, o que nos fornece indícios de que Noé segue seus próprios desejos – vide Freud. Aqui, é posta pela primeira vez a dúvida: Deus realmente é uma entidade externa? Essas imagens vêm de seu inconsciente? Seu inconsciente é Deus?

E nada poderia simbolizar melhor a autonomia humana do que plantar a semente do Éden, e, então, ter subsídios para construir a Arca. Ou seja, quando a semente – o Desejo – brota nas terras áridas – a Vida, vazia e sem significado –, nasce a matéria-prima que vai permitir ao indivíduo a realização da sua missão. E aqui, a presença dos watchers se faz notável: eles representam o transcendente – a Luz – unido ao material – rochas.

A reunião dos animais representa o espírito selvagem – natural – em harmonia com aquilo que mais define a natureza humana, a Arca – criação de algo através da Técnica. Uma vez que a Arca está construída e a chuva começa, os watchers lutam para defender a Arca da invasão dos “homens corrompidos”. Aqui, temos o clímax das dualidades que se entrecruzam: homem-natureza, controlado-animalesco, técnica-caos, corrompido-puro, transcendente-material, divino-profano.

_noah3

Entretanto, o descendente de Cain, Tubal-cain, consegue entrar e é mantido vivo por Cam, um dos filhos de Noé; a vida do maior inimigo do patriarca cultivada dentro do lar. Essa linha da história é interessante porque estabelece uma relação direta e material com a Queda, em consonância com o provérbio hermético “as above, so below”.

Primeiramente, não é à toa que Tubal-cain fica em meio às cobras, sempre com o sibilar e chocalhos por trás de sua fala nas sombras. O fruto proibido, dessa vez, é podre; a moeda de troca dessa relação é a vingança de Cam e o complexo de Deus de Tubal-cain. E aqui, temos o primeiro indício da ilusão das dualidades: a Queda não é algo restrito ao Paraíso. Ou ainda, a dimensão transcendental da primeira parte do filme se repete aqui no interior da Arca, de forma humana e material. Afinal, todos os dias nós passamos por inúmeras privações e tentações, como no Éden; isso dá uma dimensão muito mais tangível ao mito.

Paralelamente, Noé tem que lidar com muitas contradições. Para salvar o natural, cumprir sua missão divina, ele teve que se utilizar daquilo que sempre havia evitado em seu modo de vida, a causa da corrupção da Terra, o humano. Eles próprios também são humanidade, então eles também precisam ser extintos. Aquilo que Noé entendia como Deus também o abandona: não há mais sonhos, nem sinais. Não há mais milagres. Tudo se torna muito humano.

fruto

Mesmo a harmonia estabelecida com os animais da Arca parece distorcida agora: nenhum deles realiza as funções básicas de vida – se alimentar, defecar, beber água, urinar, etc. Noé se torna tão corrompido que em certo momento, exacerba o humano ao dizer que “só nós podemos acordá-los [os animais]”. Não há, portanto, harmonia. Há dominação. E é na cegueira de realizar a missão divina e resolver as dualidades que Noé jura a morte da geração que vai nascer de Ilia, e o filme se transforma em um drama psicológico muito humano – onde o roteiro fraqueja.

Monta-se, então, uma conspiração para matar Noé: dois de seus filhos e Tubal-cain. Quando nada mais poderia salvar Noé, a Arca bate em uma pedra, possibilitando que ele se salve e mate seu inimigo. Entretanto, é posta a dúvida: foi Deus que fez a Arca bater? Não teria sido “Deus” até agora o acaso? Exceto, talvez, o primeiro sinal divino – a flor brotar instantaneamente –, é seguro afirmar que toda jornada foi fruto do desejo de Noé. Onde estaria Deus, então?

Na transfiguração de Deus no Acaso, Noé assume o arquétipo do herói em vez do profeta: ele transcende aquilo que havia sido posto – por ninguém além dele mesmo – por um bem maior, coletivo. Sua decisão é não matar suas netas gêmeas e manter a humanidade no Novo Mundo. Ele, no entanto, ainda não reconhece isso e enfrenta a frustração plenamente humana de lidar com o fracasso da missão divina, tornando-se um bêbado. Estamos, para Aronofsky, no mundo atual, meramente humano. Por isso, Noé é tão falível; no mito original, ele é o primeiro homem a provar vinho, e isso só atesta a transcendência que ele conquista  – vide a simbologia do vinho com Jesus.

_2504-the-great-flood-bonaventura-the-elder-peeters

Mas a missão era divina? A conclusão que a narrativa nos deixa é que Deus pôs nas mãos de Noé a decisão de manter a humanidade viva. De fato, a decisão estava nas mãos de Noé, mas nunca foi Deus que a pôs lá; ela sempre esteve. Ele poderia sequer ter construído uma Arca. A inundação é o Caos, a desordem, a imprevisibilidade, pois sem isso também não há existência – sem a água, também não há vida. Utilizar a Técnica – aquilo que nos faz fundamentalmente humanos – para navegar por tudo isso é o que fazemos todos os dias para dar sentido a esse feixe de percepções ininterruptas que chamamos de Vida.

Ao final, temos a consciência da fragilidade de todas aquelas dualidades que encontramos ao longo da narrativa. Deus sempre foi ambivalente – Acaso e Desejo –, o humano é igualmente natural, o microcosmo de Noé é também o Cosmos. Tudo que, em algum momento, se opôs a algo, sempre também o conteve. E o mundo recomeça, para ser corrompido novamente.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s