O fim das ilusões

Vocês devem ter notado que o mundo está enlouquecido. Não digo isso partindo de uma nostalgia de que já foi melhor, nem de uma conspiração apocalíptica de que está para acabar. Este é o melhor dos mundos possíveis e o fim do universo ocorre a cada novo instante de vida. Mas, veja, o mundo está louco.

Basta dar uma olhadela na história para notar que o ouro da virada do milênio já se derreteu: os 20 anos de pleno desenvolvimento tecnológico e “absoluta paz já chegaram ao fim para dar lugar à efeverscências sociais e instabilidades políticas e bélicas. Para mim, que cresci celebrando a liberdade de expressão vinda com o fim do combo Ditadura Militar+Guerra Fria, preciso admitir que, por mais que a ideia de democracia plena e liberdade nunca me tenham convencido totalmente, a ilusão de que isso era sequer possível se dissipou. Caiu o véu, e por trás estava algo que se parece com um rosto. Um rosto que acredito ser da desesperança.

Não quero ser raso e simplesmente xingar a humanidade; dizer que por isso prefiro cachorros. Tendo sempre a reconhecer no outro apenas alguém que, segundo suas experiências, tenta navegar o oceano caótico do mundo, em busca de algo que lhe preencha. Mas veja, tá bem difícil.

Em escala local, a luta que tem recebido mais minha atenção é a do Movimento Ocupe Estelita – que já falei por aqui – e que faz parte de uma dinâmica muito mais ampla, global. Acredito ser interessante, no entanto, associar esse tipo organização social não apenas com outros movimentos sociais – como o Parque Augusta ou a Casa Luiz Estrela – mas com lutas recorrentes, como a greve de rodoviários e professores, por exemplo. Não porque suas “pautas” sejam coincidentes, mas porque há algo em comum que essas movimentações buscam destruir: um modus operandi.

Ou seja, o “inimigo comum” não é o Estado, nem uma empreiteira X ou veículo de comunicação Y. Nem “O Sistema”. Acredito que, em escala global, o que precisa ser erradicado – em um cenário ideal – é o processo de articulação através do qual governos e empresas se misturam para o favorecimento dos 1%. Isso me parece ser o que perpassa a mentalidade de um dono de empresa de transporte urbano que oferece um “reajuste” de 5% – abaixo, portanto, da inflação – e a de um veículo de comunicação que tenta se apropriar de uma música que é patrimônio cultural, com interesses políticos. Essa luta parece grande. Parece romântico demais. Certo?

Esse é o argumento mais automático de um  ” ” ” “cético-pessimista” ” ” ” que você, caso já tenha tentado argumentar contra alguma prática estabelecida, provavelmente conhece: “você está sendo muito romântico”. À parte de tentar entender como esse termo acabou caindo no gosto popular, prefiro tentar pensar sobre o que isso significaria e, sobretudo, a quem esse discurso interessa.

Há boatos que dizem que a melhor maneira de organizar sua produtividade – logo, seu tempo, atividades, objetivos, etc – é listar tarefas o mais específicas quanto for possível – ter inputs claros e simples –, afim de que você consiga um feedback positivo e, assim, manter o ritmo de produção. A ideia é que, quanto maior você visualizar uma tarefa, mais distante você vai ter uma resposta, e mais procrastinação isso vai gerar. Por exemplo, essa perspectiva diz que, se eu pensar “preciso escrever um post” vai me deixar muito mais vulnerável a distrações – veja como é vago; sobre o que, com quantos parágrafos, etc – do que se o direcionamento for “escrever um parágrafo sobre produtividade”.

(…) Todos sabemos que a função da mídia nunca foi eliminar os males do mundo, não. Seu trabalho é nos persuadir a aceitar que esses males existem e nos acostumar a viver com eles. Os poderes querem que nós sejamos observadores passivos.

Pessoalmente, nunca tinha acreditado na mídia de massa – como se sua existência dependesse da minha fé. Até hoje, na verdade, não acredito muito em propaganda, em como se diz que ela é capaz de modelar nosso pensamento, nossa cultura. Talvez seja uma falta de noção acerca de multidões; eu não o que significam, que espaço ocupam, o que são capazes de fazer 10 mil pessoas, por exemplo. De qualquer forma, comecei a entender isso em junho de 2013. Ficou brutalmente claro o posicionamento das mídias e como ele era capaz de direcionar o monstro da opinião pública.

Em nosso contexto, mesmo que o jornalismo quisesse, ele não seria capaz de sintetizar e explicar de forma satisfatória para um público tão amplo eventos tão complexos como o conflito entre Israel e Palestina. Nem as manifestações de 2013. E, além disso, a “massa” – eu, você, a família e os colegas de trabalho – já tem seus problemas cotidianos e dificilmente querem saber de ainda mais no fim do dia, olhando para William Bonner.

Então, por que tornar complexo o que já pode ser mastigado, inclusive, com o humilde direcionamento do veículo de comunicação em questão? Por que tornar específico o que pode ser genérico? Por que tornar tangível, cotidiano, o que pode ser excludente, individualizado? Portanto, a narrativa da mídia se torna justamente se travestir de imparcialidade para apenas comunicar o que ocorre no mundo, e, nesse processo, tentando se mostrar como a verdade dos fatos e não se reconhecendo como apenas mais uma narrativa. Esse é o grande salto conceitual, na minha opinião, de uma organização como o NINJA, que já carrega em seu nome a consciência de que são uma narrativa, no caso, independente.

Pois bem, a mídia tem um papel importante na manutenção das coisas como são porque visa naturalizar situações e contextos que são artificiais e passíveis de mudança. Acostumar. Pensar que sempre foi assim. Tornar grande demais. O papel da mídia, sobretudo das grandes corporações de veículos de comunicação, é de transmitir esse sentimento de impotência individual, ao passo que possibilita uma espécie de catarse, também subjetiva, de piedade; talvez até de sofrimento genuíno. Isso, na soma, tende a neutralizar a capacidade de ação de um indivíduo junto aos demais. Tende a fazer parecer que um indivíduo apenas é incapaz de mudar algo e esconde a possibilidade de união, mobilização, mudança.

Essa sensação, por fim, faz com que um discurso de que é possível intervir nas relações sociais pareça demasiadamente irreal, inatingível. Romântico. E essa, ao meu ver, é a maior das crueldades nessa cadeia de narrativas: o pensamento romântico foi o que provocou a mudança drástica de pensamento pelo qual – em essência – vivemos até hoje. A individualidade, a subjetividade e a emoção como a entendemos hoje nunca seria se não houvesse o ideal romântico.

Nesse engendramento, o romântico é pervertido. O indivíduo valorizado em meio ao coletivo – narrativa que me parece ser a da Revolução Francesa – é substituído pelo indivíduo valorizado acima do coletivo – que acredito ser o que temos hoje. Ora, se eu sou sempre maior que os demais, por que razão deveria me incluir no meio deles? Se O Sistema é tão grande e inatingível, por que hei de gastar(!) minha vida – que é a mais importante – para não desfrutar de benefícios? Não é melhor, já que eu não faria diferença no movimento contrário, pegar carona na onda?

Daí vem aquele discurso tão comum de “você é muito jovem, e não sabe o que é preciso para viver”. Depois de começar a atuar conforme o roteiro da narrativa padrão, não sei bem se por ressentimento ou medo de cair a máscara, a única saída possível é o riso desesperado, a ironia cínica (no mau sentido) de que esse romantismo se resume à inocência. São meros sonhos pueris, imaturos. Por isso, a mídia sempre frisa que quem faz parte desse ou daquele movimento são estudantes. São aqueles que, adquirido o diploma, vão tomar juízo na vida e trabalhar. De então em diante, é só deixar o tempo e o peso desses arquétipos pervertidos cair sobre cada um, que a normatização – aquela naturalização doentia da mídia – vai tomar conta de acabar com esse romantismo.

Apesar de genuína a minha surpresa em ver como essas reduções ao absurdo ainda são eficazes hoje em dia, já é de se esperar que seja normatizada uma polarização entre jovens estúpidos pueris de um lado e velhos sábios corrompidos de outro. Daí para “a manifestação era pacífica até que grupos violentos (…)” vire a opinião pública contra qualquer reunião de indivíduos que buscam outro modo de vida em sociedade. E, de novo em um pulinho, permite prisões como as que vimos acontecer na semi-final da Copa. Permite, com a ajuda dessa mesma mídia, sugerir dizer que “a manifestação vai bombar” significava hostilizar com bombas a Polícia. Permite que um veículo de imprensa tenha acesso a dados, gravações e documentos que advogados não puderam ter.

Quando as regras do jogo estão sob o poder de um dos jogadores, fica difícil ser do outro time. E nesse contexto em que estamos, somos todos alvos. Em todos os aspectos no dia-a-dia. Somos submetidos a situações de altíssima pressão para não conseguirmos nem olhar nos olhos um do outro na rua, nos ônibus. É o baixíssimo salário do motorista. São R$5,71 de almoço por dia que é concedido aos rodoviários aqui em Pernambuco. São os 20 centavos de 2013. É o metrô lotado, é ficar horas preso no trânsito. Tudo isso precisa ser naturalizado – mas não tanto – para que fiquemos inertes quando decidirem prender pessoas que querem exercer seu direito de protestar, sem garantias nenhuma de que o poder público fará algo de diferente.

Me parece, então, que esse é o ultimato que me permite dizer que o mundo está louco. E por louco, não quero dizer que lhe falta coerência; isso nunca houve, nem vai haver. A existência é caótica. O que me permite atestar a loucura do mundo é ver pervertida noções básicas de modos de vivência do mundo, de individualidade, de sociedade. É ter a qualquer-coisa, que demorou séculos para ser posta à mesa, corroída.

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