Por uma resposta sempre-provisória

Desde setembro, eu achava que escreveria até semanalmente para o blog, já que eu iria começar a estudar um tanto mais para o mestrado. Quanto mais conteúdo eu tivesse para ler, mais eu escreveria; eu teria muito mais matéria-prima para trabalhar os textos e eles ficariam mais ricos… mas nada disso aconteceu. Muito pelo contrário, eu nunca fiquei tão travado.

Nós humanos somos criaturas muito curiosas. Entre as capacidades que nosso cérebro desenvolvido e nossos polegares opositores nos proporcionaram, há, em nosso processamento, armadilhas e mecanismos muito interessantes. Um deles é o efeito Dunning-Kruger, muito eficaz para entender diversos fenômenos humanos, desde o comportamento em redes sociais (como os trolls) ao aprendizado de qualquer habilidade.

Esse efeito cognitivo pode ser relatado de diversas formas; uma delas é a “inabilidade do destreinado para reconhecer sua inaptidão”, conforme a Wikipedia. Ou seja, a habilidade necessária para você saber que não é tão bom assim em algo é exatamente a mesma para você, de fato, fazê-lo. Eu prefiro dizer que “as pessoas às vezes são tão estúpidas que elas não sabem o quão estúpidas elas são” e, por isso, nunca se esforçam para deixar de sê-lo. Isso se dá em vários níveis e momentos. Desde algum hater em comentários pela internet ao velho Sócrates.

E aconteceu comigo da mesma forma: só quando eu encostei o dedo do pé na água é que eu levantei a vista para ver o oceano. E, claro, deu um frio na barriga. Eu comecei a entender a responsabilidade que era escrever algo, assumir o conteúdo, e isso me fez ser muito mais criterioso para escrever e afirmar algo. Todos os rascunhos que fiz, de repente, me pareceram frágeis demais, sem densidade; até sem propósito. Muitos textos morreram prematuros, por que eu via que, para justificar aquilo que queria dizer, demandaria uma leitura que eu não tenho e/ou uma pesquisa que não poderia fazer.

Inevitável que eu tenha chegado à conclusão que, dado que eu já reconheci o quão estúpido eu sou diante desse tipo de conhecimento, é preciso uma dose generosa de pretensão e ingenuidade para se reportar a uma questão qualquer em um texto como esse. Esses valores, acredito, são bons por que geram diferença, na esperança de responder de uma maneira nova. No entanto, essa pretensão sempre traz o perigo de acreditar demais na resposta—de se levar a sério demais— e, na verdade, cegar.

Por outro lado, nós poderíamos encarar uma afirmativa sempre com um ceticismo agressivo, uma suspensão de juízo. Esse pirronismo como uma ferramenta filosófica me parece muito forte. Todavia, apesar de não determinar, é possível entendermos que essa postura pode levar a uma inação, sobretudo quando estamos lidando com juízos um tanto práticos como a relevância de um texto como esse ser lido por alguém nesse site. É de se notar que lidar exclusivamente com dúvidas dificulta tomar decisões.

Se, no entanto, encararmos aquela pretensão heroica sempre com abertura para o ceticismo, um duvidar constante, vamos ter uma ferramenta muito potente, a meu ver. Gerar afirmativas que se atrevem a certezas sempre em vista de uma dúvida em potencial criam um tipo de resposta sempre-provisória que se arroga nunca ser levada completamente a sério nem declarar uma única verdade.

E isso é este texto: uma tentativa de dar uma resposta da qual eu posso duvidar, mas que, por ser suficientemente ingênua, tem a permissão de existir.

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