Andrew Wyeth – Christina’s World

16.1949

Antes de começar a ler esse texto recomendo que você tire alguns minutos para visualizar a pintura acima. Olhe, sinta, interprete por conta própria. A sua interpretação da obra será tão válida quanto a minha, uma vez que não nego que a minha leitura de Christina’s World é altamente idiossincrática (e, convenhamos, a sua também será).

Faz três dias que estou envolvido num ritual com o melancólico Christina’s World (1948), de Andrew Wyeth. Tenho observado esse quadro duas vezes ao dia, sendo uma vez pela manhã, assim que acordo, e outra pela noite, um pouco antes de dormir. A cada observação, que dura de 5 a 15 minutos, tento desvendar o mistério que envolve a personagem. Eu me pergunto: Quem é Christina? Por que ela está rastejando na grama? Como são os traços do seu rosto? A pintura nos fornece nenhuma pista para as respostas dessas perguntas, e talvez sequer devesse, tendo em vista que Christina pode ser uma figura impessoal, sem história nem concretude. Mas esse não é o caso. Depois de uma breve pesquisa, descobri que Christina foi uma vizinha de Wyeth, que tinha uma casa de campo no interior de Maine, nos Estados Unidos. Acredita-se que a personagem foi infectada pela poliomelite, doença que atrofiou os músculos de suas pernas ao final de sua segunda década de vida. A partir de então ela deixou de andar mas, por escolha, rejeitou fazer uso da cadeira de rodas e passou a rastejar pelo campo, sem nunca ter saído de sua cidade natal para conhecer as metrópoles ou perseguir o custoso sonho americano, criando para si um mundo particular.

É desse mundo que Wyeth quer tratar. De um mundo que, aos olhos de um moderno, é limitado, provinciano e desinteressante. Da visão de uma paraplégica que se recusa a usar máquinas, em uma década em que já existiam aviões supersônicos e era mandatório ser visionário. Christina’s World é, nesse sentido, uma pintura conservadora. (Ou será que ela era, pelo contrário, revolucionária, uma vez que se recusava a executar o compasso modernista?) A melancolia que me invade ao contemplar essa obra não emerge da condolência que sinto por Christina, mas da minha impossibilidade de partilhar do mundo em que ela vive. Wyeth me colocou, enquanto espectador, dentro da pintura. Eu estou na grama, rente à personagem. Mas a observo por detrás, sem ver as feições do seu rosto, sem enxergar a parte em que seu vestido rosa está sujo de terra. Apesar da proximidade, não há interação entre a personagem e o espectador. Christina não está me estendendo a mão para que eu possa segui-la, e muito menos para que eu a leve a um centro urbano. Ela está retornando para casa e, assim, mostrando que existe um abismo entre o meu mundo e o dela. Estaremos eternamente distantes. As nossas mentes continuarão a ser insondáveis.

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4 thoughts on “Andrew Wyeth – Christina’s World

  1. Antes de falar sobre o texto, eu queria deixar claro que fiz o que você aconcelhou e parei por uns minutos para observar a pintura antes de ler.

    Sobre a minha interpretação: Apenas me questionei sobre o que estava acontecendo, sobre o que ela estava fazendo, tentei “ler” realmente o quadro, antes de sentir alguma coisa. Minha linha de raciocínio foi bem simples, eu achei que a postura dela demonstrava uma certa inquietação, como se ela estivesse atrasada para entrar na casa, disso me veio a ideia de que ela adormeceu no campo e ao acordar percebeu que era tarde, tentei examinar as sombras no corpo dela para desvendar que horas do dia é, foi quando notei que o céu estava escuro e bem nublado, pensei então que ela notou uma chuva e precisava voltar para casa, foi quando me bateu, essa pintura não me parecia em momento nenhum triste, mas eu tava me sentindo triste ao examiná-la, me senti assim e julguei que as cores que ele escolheu eram as culpadas, cores levemente escurecidas… imediatamente fiquei me sentindo numa contradição, minhas ideias eram felizes, mas eu me sentia triste…
    Após ler sobre a história de Christina, fiquei feliz em ter sido honesto comigo mesmo

    Sobre o texto: Muito bonito velho, sou romântico, então vou acreditar na revolucionária que eu não concordo muito!
    Eu não sei até que ponto posso invadir teus pensamentos mas, essa melancolia não deveria te seguir a todos os teus encontros? E eu não conheço muito de pintura, acho que já te disse que sem o contexto a maioria das obras não fazem muito sentido pra mim, mas depois desse teu post, consegui ter uma experiência bem diferente com relação a uma pintura!

    Obrigado Italo!

    1. Eu que agradeço pelo teu comentário, Arthur. Tu entendeste bem o novo espírito do blog, que é o de criar uma comunidade de discussão na qual cada um possa se expressar de acordo com o seu horizonte de compreensão. É verdade que abordei elementos historiográficos nesse texto, e que tais elementos tendem a unificar os discursos e a criar uma distância entre “a interpretação subjetiva” e “a objetiva”. Mas, como me conheces, sabes que eu considero essa distinção uma balela. Ainda assim, eu achei muito interessante teres tomado o céu cinzento como o ponto de referência da tua leitura. Eu tinha observado o céu, mas não tinha dado tanta importância a ele, uma vez que o cenário campestre me saltava aos olhos. Mas, agora que falaste isso, parece que uma nova pintura se abriu: não só pelo fato de que Christina pudesse estar voltando apressadamente para casa, mas também porque, por exemplo, é possível que ela estivesse rastejando numa grama molhada, sujando a si e a seu vestido, e que, depois disso, tivesse que tomar um banho e lavar e estender as roupas. Mas como ela faria tudo isso? Não sei, mas tudo que concebo nesse momento ocupa um lugar que é exclusivo da minha imaginação.

  2. muito boa interpretação, italo! não há idealização, o céu não é azul, nem a grama é verde como nos sonhos. a distância que christina precisa se arrastar é a mesma que nós poderíamos andar, em um fração do tempo que ela levaria, mas ela se arrasta com as mãos segurando com força na terra. o corpo é calmo como se tivesse acabado de acordar, como arthur apontou, mas inquieto e bruto, com os braços magros e os dedos ossudos. no entanto, como tá bem delinado no teu texto: nunca vemos seu rosto, nem a parte suja de seu vestido.

    fiquei surpreso com o impacto que o quadro me causou: me deu uma sensação de fantasia; quase uma alice no país das maravilhas ao contrário. quando li a história dela, tive pena e um pouco de inveja, confesso. quem me dera aceitar a vida como christina aceitou.

    1. Muito bem apontado, Dudu! O teu comentário abriu margem para que eu possa acrescentar mais duas informações sobre o quadro. A primeira delas é que Christina tinha 55 anos quando foi pintada e, com isso, é provável que o seu corpo não fosse tão jovial quanto esse que é retratado na tela. Wyeth pintou, na verdade, o corpo de sua mulher, Betsy, que tinha 20 e poucos anos nessa época, quem sabe para nos dar a impressão de que não há uma relação causal entre Christina ser paraplégica e ter um corpo com pouca vitalidade. Outra explicação pode ser a de que se trata de uma pintura regionalista e, com isso, Wyeth precisaria reafirmar essa forma de vida como sendo autossuficiente. A segunda e última informação que quero passar é que, como tu deves saber (ou, se não sabes, foi um bullseye), as obras de Wyeth estão na categoria de “realismo mágico”. Então faz todo o sentido quando falas, de um lado, que não há elementos idealizados e, do outro, que nos sentimos como se estivéssemos num “país das maravilhas ao contrário”.

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