Soul carne

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Essa é mais uma daquelas postagens que vai precisar ser reescrita, já que nunca li algo sobre a carne. Eu sei que tudo está logo ali: A lógica da sensação do Deleuze, ou O visível e o invisível do Merleau-Ponty, é só buscar. Mas nunca os li, e sei que em instantes vou dormir, amanhã cedo vou acordar e, quando for reler esse texto num final de tarde, vou desejar que ele fosse notas numa folha de papel, para que eu pudesse amassá-la e jogá-la no lixo. O que muda, na verdade, é que esse vai ser o meu primeiro texto sobre o assunto, e agora existe uma historiografia, uma marca, um caminho que vai me levar a algum lugar – mesmo que ele acabe aqui como um rastro medíocre.

Penso, logo sou carne. Sou tudo que tem odor: carne pensante, carnis cogitans. Mas é incrível como eu costumo me esquecer disso diariamente. Do contrário, não passaria horas e horas a fio na frente de um computador escrevendo uma dissertação de mestrado. Não, não, eu iria aumentar as potencialidades do meu corpo: iria dançar, iria cantar, iria… Tomo, sem o saber, a herança de que sou uma alma, uma alma que possui linguagem e que pela linguagem desvela o mundo. Que ingênuo! E ainda acuso o cristianismo dessa maldição! Mas que injusto é acusá-lo disso, logo a religião que fez o verbo se tornar carne. Pra quê criticar os católicos, que canibalizam-se e celebram a deglutição do corpo e do sangue do seu salvador aos domingos. Porém, o ritual não é espiritual, porque disso estamos vazios.

Se durmo por poucas horas, meu raciocínio e a minha respiração ficam descompassadas. Se me alimento mal, meu humor fica tão irritadiço que pareço uma besta, um animal antissocial. Mas se amo, me torno um deus e as minhas percepções se tornam mais coloridas e as sensações mais intensas. Quando amo, sequer pergunto pelo sentido de atribuir sentido às coisas. O sentido é sentido, e “a metafísica é a consequência de estar mal-disposto”. Ainda assim, posso me tomar como um sujeito idêntico a mim mesmo, o que significa que não mudo no decorrer do tempo, pois, minha substância, meu substrato, é alma. Como se não precisasse beber água no mundo, como se não tivesse que devolver essa mesma água para o mundo, como se 65% da minha carne não estivesse navegando e se afogando.

Ainda assim sou uma carne criadora em decomposição. Com um braço mecânico, sou um ciborgue. Com um câncer de esôfago, um desesperado. Espera-se que eu me comporte como se não fosse uma máquina desejante, como se eu não fosse carne em movimento. Meu cérebro é carne, minha língua é carne, e também o é meu pênis. Por isso sou potente, por isso sou frágil e vulnerável ao mundo. Tudo que me compõe me destrói. “Tudo que não me mata, me fortalece”. Meus encontros não são meus, são do mundo; minhas potências não são minhas, são do corpo. A diluição do eu-água em óleo. A mistura da carne com carne, e secreções que umedecem o corpo. Carne com pele que forma um rosto. Orifícios da fala: boca. Letra na carne: tatuagem. Carne em movimento no mundo: existência.

 

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