A nova identidade do Animus Mundus

O Animus Mundus retornou e decidimos marcar essa etapa com uma nova identidade visual.

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Lá em 2012, quando resolvi fazer a primeira identidade do Animus, sabia que estava pronto para isso, já que estava quase me formando em Design. Parte de mim sempre acreditara em fatos extracientíficos, por assim dizer: as sensações, a magia, a arte, a alquimia – todas essas explicações mais viscerais da realidade pareciam-me mais interessantes do que o ceticismo científico, sobretudo o vulgar. Assim, a escolha para o símbolo que nos representaria não foi uma surpresa para meus amigos.

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A representação do enxofre na Alquimia significava não apenas o avesso de uma racionalização do mundo, mas também o elemento que implica a vivência imediata: a experiência do corpo. Por isso que esse símbolo foi considerado análogo ao do demônio na Idade Média, e provavelmente devem constar em livros antigos de filmes de terror. Até instiguei isso usando o vermelho como cor principal. A tipografia que escolhi era unicase: não se diferenciam os caracteres maiúsculos e minúsculos e seus desenhos se misturavam. Isso também revelava algo da pluralidade da existência, mas sobretudo uma nostalgia dessa visão alquímica, mágica – talvez decorrente dos RPGs que joguei quando criança.

No ano passado, conversávamos que o Animus deveria voltar e achei que deveria mudar a identidade por algo mais austero, mais contemporâneo. A inspiração inicial veio da coleção Prosa do Mundo, da recém-falecida Editora Cosac Naify, que utilizava uma tipografia muito delicada com variações bem interessantes nos caracteres circulares mantendo a elegância.

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Encontrar a solução nem demandou muita pesquisa. Quando encontrei a tipografia que vocês estão vendo, sabia que era exatamente isso. Uma das principais características que não achei em algumas outras parecidas são os vértices dos caracteres, que ultrapassam suavemente as linha de base e da altura, que confere essa característica bem contemporânea e afiada. Para a utilização da marca, quis variações do lettering, para que não parecesse algo fixo – nenhuma identidade é, nem a individual. A tipografia estava decidida, e eu tinha uma ideia vaga do símbolo ou elementos auxiliares.

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Ao contrário da escolha da tipografia, chegar ao resultado foi um processo longo e muito frustrante. Acho que se passaram mais de seis meses desde que eu iniciei esse processo e me envolvia intercalando longos intervalos. Nas experiências e pensamentos cotidianos, eu me sentia cada vez mais convencido de que tudo é por complexo demais e efêmero demais e queria que isso ficasse claro na identidade.

Penso que um dos papeis fundamentais do designer é o de conferir sentido ao mundo; esta é uma tarefa comum – afinal todos realizam para existir – mas nada trivial. Uma das subáreas do design que tem ganhado espaço é a de visualização de dados. Em termos gerais, isso consiste em transmutar quantidades imensas de dados – muitas vezes provenientes de bancos de dados como Google ou NSA – em algo que possamos dimensionar. Isso, surpreendentemente, resulta em gráficos, formas, linhas e cores belíssimas.

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Segundo o Pinterest, muito próximo a esse tipo de estética está a geometria sagrada: formas, sólidos e relações geométricas com características e proporções intrigantes. Órbitas dos corpos celestes, galáxias, sólidos que são soluções de equações polinomiais, funções caóticas, attractors, fractais… e fui me perdendo nas pesquisas. Uma dos principais problemas dessas referências é que, para mim, seria incrivelmente difícil de chegar em algo que carregasse o conceito do blog e que possibilitasse uma identidade fluida, com variações.

A solução apareceu através do software Processing, para fazer algo que se aproxima de generative art ou algorithmic art, um tipo de arte que integra códigos e computação e matemática para a criação artística. Eu não aprendi a escrever códigos (mas deveria, isso é o futuro). Todavia, muitos programadores liberam códigos para o Processing e fui testando vários, durante muito tempo, para chegar a soluções que começassem a se parecer com o que eu imaginava. Apesar de ter tido vários problemas técnicos e ter sido bem frustrante, esse parecia-me o caminho certo, uma vez que integrava características de nós três que integramos o blog.

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Eventualmente a solução veio. Um dos significados de Animus mundus é alma do mundo. Com tantos desejos, sonhos, histórias e sentimentos na existência, não consigo imaginar nada mais irrepresentável ou inexprimível. Sequer é possível cercear a existência de um indivíduo: somos moldados por nossas experiências tanto quanto as moldamos, sejam elas voluntárias ou não. A única constante da alma do mundo é ser um mero truque de palavras, pois não há algo que possa ser capturado por elas. Há vidas, há existências, há histórias, dores e alegrias – e eu sei que há algo em meu íntimo que nomeio de alma. Assim, o que seria a alma de vivências tão diversas, inexplicáveis?

A escolha das cores foi um tanto mais técnica e intuitiva – características tão próprias das cores. Queria aproveitar a plataforma digital com cores difíceis de chegar nos impressos e conferir certa leveza e energia. As formas complexas que compõem a identidade representam, de alguma forma que não sei apontar direito, o caos do real. De certo modo, também parecem-me nossos corpos ou nossas almas ao longo do tempo. Parecem-me indivíduos, sempre iguais, mas sempre diferentes. Talvez sejam as memórias que nos compõem e as memórias que esquecemos. Parece-me tudo isso ou outra coisa. Ou nem uma coisa nem outra.

Cada dia meu tem apenas um objetivo: coincidir minha alma com meu corpo no mundo. Nesses raros momentos, não há metafísica. Apenas desejava, através da visualidade,  marcar essa nova etapa das nossas vidas – que bem gostaria saber onde vai dar. Não sei. Resta-me apenas deixar marcas e pegadas por onde eu passei; quem sabe eu possa encontrar-me nisso.

 

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One thought on “A nova identidade do Animus Mundus

  1. Primeiro de tudo, WOW! Ta muito bonito. Pure Awesomeness!

    To dando F5 até agora, tentando encontrar algum padrão na mudança – no “movimento”. To assustado com quanto trabalho tu não teve pra fazer isso, e aos pocos esse susto vai se tornando em “eduardo é doido”, e depois em “eduardo é incrível”.

    Velho, parabéns por isso e por todo o resto!

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