A desumanização

Valter Hugo Mãe tenta desvendar qual é a metafísica que nos torna humanos quando a paisagem é brutal como um deus.

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A desumanização fala sobre a morte: a morte como uma das mais importantes forças que se confrontam para constituir o constante movimento da vida. Assim, ao lado do amor, da solidão e dos sonhos, a morte é um aspecto da humanidade – não o conjunto de todos os indivíduos, mas aquela propriedade indizível que nos torna seres humanos. Afirmativamente, humanos; negativamente, não somos nem animais, nem deuses.

“Os melhores livros inauguravam expressões. Diziam-nas pela primeira vez como se as nascessem. Ideias que nasciam para caberem nos lugares obscuros da nossa existência. Andávamos como pessoas com luzes acesas dentro. As palavras como lâmpadas na boca. Iluminando tudo no interior da cabeça. (…) As palavras deixavam-nos mágicos.”

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A humanidade se diferencia de outras espécies de animais, além dos polegares opositores, pelo uso da linguagem como ferramenta para mediação – e não apenas com a realidade imediata, mas com as imaginárias e abstratas. É a divindade em nós: o verbo. Não por acaso, tentamos sublimar a existência através das artes, nos aproximar de qualquer-coisa transcendente através do belo. Escrever e sermos escritos. Marcar para sempre os nossos semelhantes. É assim que temos contato e dialogamos com pessoas de séculos atrás e deixamos rastros para os futuros. Apesar disso, palavras são apenas palavras; não florescem no corpo.

“As palavras não são nada. Deviam ser eliminadas. Nada do que possamos dizer alude ao que no mundo é. (…) As letras da palavra cavalo não galopam, nem as do fogo bruxuleiam.”

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Os poemas têm todas as propriedades distintas às do corpo. Atravessam séculos, mas não ocupam um lugar no mundo. Os poemas não têm potência se não uma imaginária, um berço distante de sentimentos que nos conta como chegamos onde estamos, e molda o que nos tornaremos – mas nunca são a realidade da carne. Não à toa, nos faltam palavras para descrever dor ou alegria profundas; entretanto teimamos em aproximar as palavras ao mundo com imagens literárias e metáforas. Apelamos em justapor o corpo e o poema. E ressoa em nós – nos humaniza.

A divindade em nós é um absurdo. Ritualmente associamo-la à arte, pois é tudo que nos enche de potência; por afirmação, ela nos torna propriamente humanos. No entanto, é igualmente uma possibilidade sem realizações, uma utopia sem presente. É aquilo que encaramos como o mais frívolo e o mais valioso; é o ínfimo que nós aprendemos e ensinamos uns aos outros. É uma alma sem corpo, justamente por ser o que nos distancia dos impulsos do corpo e nos traz à realidade da alma. Por negação, é o que não dos deixa ser impulsivas bestas tampouco onipotentes deuses.

“Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia.”

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Não desumanizamos apenas quando abandonamos o corpo pela morte, mas também, quando em vida, abandonamos a alma. A obra de Valter Hugo Mãe é a história de uma criança que constitui sua humanidade nas múltiplas e divinamente insignificantes desumanizações que vive e a que assiste ao seu redor. Ela se constitui humana. seja por transbordar sua fúria assustando ovelhas inocentes – e não acredito que a imagem cristã do cordeiro esteja aqui por acaso – ou por buscar materializar a própria Islândia como um poema.

A narrativa em primeira pessoa não deixa muito claro em que época se sucedem os eventos, mas a opção não parece ser por acaso. Essa vila na Islândia nos é contada como um lugar isolado, quase primitivo pelo tratamento anímico da paisagem, dos fiordes, da geografia, das pessoas e dos animais. A presença da igreja luterana cria um sincretismo verossímil e (justamente por isso) paradoxal quando trata das necessidades viscerais e emocionais de deus – assim, minúsculo mesmo.

“Deus ou a palavra nascendo primeiro, não sabíamos. (…) Qualquer deus, por ternura ou decência, quereria existir a partir da sua perfeita beleza. Da beleza das palavras. E renascia espontaneamente diante de nós.”

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No mais, A desumanização é repleta de mitológicas imagens esculpidas pelo autor. O modo como nos conta da natureza vulcânica dos fiordes do oeste islandês – a um só tempo brutal e serena – é o paralelo que reforça as tensões da narrativa. A própria Islândia é um personagem, muito mais longevo que as pessoas dali, mas igualmente solitário. Mesmo assim, ele nos conta: “A solidão não existe. É uma ficção das nossas cabeças.”

Não acredito. A atmosfera de solidão foi o que me fixou nessa leitura, porque queria entender como se constituíam os laços afetivos entre os personagens: são frágeis. Tanto quanto, eu acho, que são entre todas as pessoas. Não apenas porque podem se quebrar com facilidade, mas antes porque são miúdos demais, irrelevantes demais para a Islândia, para deus, para o universo. E, porquanto paradoxo seja, são tudo o que temos.

Por fim, recomendo a leitura com a trilha sonora de Sigur Rós – palpite que só tive a meio caminho do livro, mas que foi uma das influências islandesas do autor. Conhecia apenas os dois últimos álbums, Valtari e Kveikur, que têm um quê místico, solitário. Mágico, eu acho. Os fiordes e os longos invernos devem ter isso.

Todas as imagens que ilustram esse texto são detalhes de pinturas de Eduardo Stupía.

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