O Alfabeto dos Pássaros

Apesar de uma estrutura incerta, Nuria Barrios traz imagens contundentes  – reforçadas pelas ilustrações de Catarina Bessell – para demonstrar o papel das histórias na criação de nosso lugar no mundo.

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Hesitei um pouco em escrever sobre O Alfabeto dos Pássaros, de Nuria Barrios, porque a meio caminho da leitura passei a acreditar que eu não era o público-alvo; me sentiria desconfortável em falar de algo com o qual eu supostamente não deveria me relacionar. Não sei; escrever isso faz parecer mais frívolo do que parecia na minha cabeça. À medida que a narrativa foi sendo digerida, acho que acabei encontrando o vínculo que procurava, embora ainda não saiba precisar.

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O texto tem imagens bem fortes, apresentadas através das fábulas que a mãe de Nix a contava para aquietar sua curiosidade: isso foi o que me fisgou. Logo no começo, ao contar a viagem de volta da China, onde se encontrou com sua filha, a Mãe alimenta a imaginação fértil da menina, transformando uma tempestade em um dragão que tentava recuperar seu tesouro – a própria Nix.

200-200-129-58_bNuria Barrios é delicada ao tratar dos sentimentos não apenas de uma criança que foi adotada, mas também da mãe que a adotou; isso por si só já é digno de reconhecimento. A inquietação da mãe com a inquietação da filha requer sutileza para ser delineada e o vínculo que elas encontram em seus momentos mais difíceis são as fábulas e metáforas. A menina Nix, por sua vez, quer apenas responder à pergunta fundamental de onde veio e consegue sua resposta, em larga medida, através dos sonhos que tem a partir das histórias que sua mãe conta.

Por outro lado, a narrativa é construída como um conto de fadas tradicional. Uma das principais características do gênero, segundo Vladimir Propp, é que os personagens e situações existem para cumprir funções narrativas. Como consequência, os personagens não são construídos como em um romance, com personalidade e identidade – ele não está ali para ser alguém, mas para fazer algo. Isso fica bastante evidente na ausência do pai e da irmã também adotada, o que me incomodou um tanto. Assim, a narrativa oscila entre um romance e um conto de fadas de uma maneira que não me pareceu consistente; e passei um bom tempo pensando como um livro de quase 300 páginas se adequaria ao público de contos de fadas.

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A contribuição expressiva de Catarina Bessell, embora não amplie as possibilidades interpretativas, sublinha a qualidade gráfica (e linguística) e dá espaços de reflexão para a narrativa, fazendo-nos perder em meio às colagens e manchas e pingos e respingos. As soluções de colagem que ela encontrou para envolver o conceito do projeto gráfico e da narrativa são divertidas de observar, conservando o tom poético.

A principal dificuldade de me relacionar à narrativa se deu pela estrutura; me parece que ela ficou a meio caminho de ser realismo fantástico e conto de fadas, e não de maneira interessante. O fim dá um tom maduro que me agradou, embora contradiga toda estrutura e linguagem do texto. Ainda assim, fica evidente o sentimento de não-pertencimento de Nix e a maneira que as histórias são fundamentais para entender e aceitar seu lugar no mundo. Esses foram os vínculos que me fizeram pertencer à narrativa e me deram a liberdade de escrever sobre ela.

Todas as imagens que ilustram esse texto foram retiradas do portfolio de Catarina Bessell.

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