Sobre escrever

Tenho me debatido muito sobre o ato de escrever. Não como em um debate dialógico, mas como um peixe fora d’água.

manuel-estheim-25

Quando eu iniciei o mestrado, em agosto de 2014, cri que iria escrever um bocado: iria estar lendo, estudando e não me faltaria material para trabalhar e transformar em posts, textos, artigos, ensaios. Não foi bem assim. A lógica causal de que mais input resultaria em mais output não funcionou matematicamente. Coisas da natureza humana – ou, pelo menos, da minha.

A ansiedade que se fermentou no ato de leitura foi se transfigurando e procurou outros modos de ser externada. Às vezes pelo desenho, às vezes por garranchos ininteligíveis no diário, às vezes pelo puro não-sair-da-cama. Muito disso foi o que me instigou a reconfigurar o blog e prometer que escreveria um post por semana (e eu ainda achei pouco quando me planejei), sem falar nas outras colaborações de que tenho passado ao largo durante muito tempo agora.

Não saberia explicar se me pedissem. Me observo às vezes como quem observa uma tempestade: posso ver que vai acontecer, posso ver como acontece, mas por trás da janela, não há muito que possa se fazer. Hoje lembrei que há anos não tomo um banho de chuva, e eu adorava. Há muita diferença na postura com que escrevo esse post e aquele com que escrevo os fragmentos da minha dissertação. A dificuldade é a mesma, no entanto, é verbalizar. Transformar em palavras, em comunicação, aquele sentimento mais ou menos vago sobre algo da realidade sensível ou da imaginação íntima. Precisar uma vagueza através do verbo.

É difícil descrever, porque parece que de repente tudo comprime e oprime. Esse lugar parece diminuir, minhas costas parecem pesar e a mente foge de qualquer foco. A memória não funciona bem e eu não consigo articular nem mentalmente, nem verbalmente qualquer coisa que seja. As palavras uma seguida da outra se tornam opacas, como se ao ler, desse de cara com a parede.

A partir daí, o ciclo se reinicia: (tentar) escrever dói – fisicamente, até –, ora evito, ora não consigo. Se desisto, culpa e angústia. Se insisto, dói. De qualquer modo, nunca pareço completar nada.

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