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Passo pelos mesmos caminhos esperando encontrar algo que nunca está lá. Sou eu mesmo a quem procuro. Não sei falar de nada que não a ausência de mim. E a quem isso interessaria? Se escrevo, é porque em conversa comigo não me importo, por isso preciso vomitar em palavras. Aquilo que me interessa se encerra em estase, sensação; a boa disposição não necessita de metafísica. A completude não precisa ser comunicada, rejeita linguagem. Buscamos em símbolos o que é ausente na realidade imediata. A arte é a materialização – agora quase sempre imaterial – do vazio, a articulação da ausência.

Tudo o que me é repugnante transforma-se em registros: textos, desenhos, pinturas. Gestos sempre falhos de tocar alteridades através de mim. O gesto meu é sempre do outro. Por isso quero confundir a identidade com o gesto, mas é impossível. Alcançar a diferença através da repetição. Mas o que mais me resta? Escrevo como quem, com uma xícara, tenta esvaziar o navio que afunda. Nenhum de nós pediu para existir, mas acredito que os outros sabem lidar muito melhor com as contingências.

O tempo que passou corta-me. O tempo que resta estilhaça-me. Eis o futuro.

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