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Acordar-se não é fácil. Sequer lembro da última vez que foi. É muito difícil medir o que importa, se importar com o que importa, em geral a gente se importa com o que não é importante. O mínimo, o minúsculo. Tanto tempo mergulhado faz você perder a medida das coisas. Quer dizer, você não, eu. Só falo por mim quando falo – não sei da sua natureza. Imagino apenas as sensações. É difícil, sei lá.

Acordar-se significa atuar no mundo. Ter existência. Reconhecer a existência. E todo ato no mundo, que existe, é pesado. É difícil afirmar algo. A experiência humana é tão plural, mas tão igual. O que falo aqui, por mim, pode jamais se aplicar a você, sabe? E a existência só me aponta que nunca vai se aplicar a você, seja você quem for. Essas cartas para ninguém, que coloco em garrafas e jogo ao mar, não compõem a existência. É volátil: quando é escrita, evapora, as moléculas se tornam uma outra coisa qualquer que tem existência, mas não são mais algo.

Acordar-se significa procurar explicações. Estruturar raciocínios, derivar lógica. Justificar. Como fazer isso num mundo sem explicação, razão, lógica ou justificativa? Estamos dançando uma valsa afônica no grande salão de um castelo de papel em chamas. Giramos, falando das mesmas coisas. Giramos, existindo do mesmo modo. Giramos, perguntando as mesmas perguntas. Giramos, dando as mesmas respostas com entonações diferentes. Giramos, esperando que algo mude. Giramos enquanto queima o castelo, e o grande lustre de papel e cinzas cai vagarosamente no meio da dança. Mas giramos.

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