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boogeyman-big

Quem dera rebaixar minha vida para subsistência. Viver apenas do que há à mão, passar pelo tempo fazendo o que amanhã terá que ser refeito. Contentar-se com o dia de hoje. Não planejar amanhã, nem se arrepender de ontem. Aceitar a chuva ou o vento, tanto faz, é a carne que é a vida. Queria apenas observar o tempo apagar as pegadas que por ventura eu deixasse ao andar descalço pela terra, e tentar andar mais leve para não incomodá-lo. Queria passar pela vida como uma brisa fria num dia abafado, que percorre o rosto de uma jovem – e que talvez até lhe dê um sorriso. Ou como a cegueira luminosa de uma criança curiosa ao olhar diretamente para o sol, doendo um pouco e marcando a vista por alguns segundos, para depois esvair-me.

Essa existência que imaginaram para mim, não estou qualificado. Minha vida não suporta tantas vidas. Não compreende tanta existência. Quem dera me descolar, apenas sobreviver: sem passado, sem futuro, sem memória nem esperança nem desejos nem virtudes nem sonhos nem dor nem peso nem saudade nem inveja nem existência. Porque só se existe no outro, com outro, enquanto outro. Se eu pudesse só subsistir.

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