(22)

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Quando estou aqui, parece que volto ao passado. Mas não sou nostálgico. Me sinto acorrentado pela sombra que fala sem mexer a boca. A voz que ecoa na minha mente. Não sei o que dizer, porque sinto que todas as palavras já saíram; o poço secou, não há nada mais em mim. Só consigo ficar parado. Sinto a dor nos meus ombros, é a sombra que se apóia nas minhas costas. Que sobe nas minhas costas, envolve minha cabeça com os braços e tapa meus olhos com os dedos. É uma sensação conhecida. Pudera eu nunca ter conhecido. Sinto a dor. Sinto apertar minha nuca, sinto deslizar por entre as fibras dos meus músculos.

Algum dia, vou esquecer dessa dor. E jamais fará parte de mim de novo, vou exorcizá-la. Vou deixar de ver a sombra, vou deixar de sentir o peso, nem que seja só por um momento. Vou ter minha redenção. Vou olhar tudo indo embora, do meu trono, do meu reino em chamas, vou ver o fim disso.

Mas por enquanto, sinto o coração apertar. Me concentro. Sou eu e é minha a dor. Quero amá-la, quero adorar a dor, porque ela sou eu. Ela me constrói, me fez. Se não, não seria eu, não haveria nada do que há. Só há pela dor. Que seja, vou aprender a amá-la, porque é minha e porque é. Mesmo que haja só pela dor, a dor é sensação, a sensação e a vida, pois a morte não se sente. Se vivo, vivo pela dor.

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