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Me pergunto como viver, se não fui feito para a vida. Fui feito para a arte, mas a vida me atrapalha. Fui feito para sentir ficticiamente, como se fora uma sucessão de palavras em um romance ou um conjunto de manchas de uma pintura. Fui feito para mergulhar na palavra, me afogar em imagens e chorar como se fossem lágrimas. A vida é um espinho e o corpo é fronteira. Não quero limites. Não, quero a fluidez da etimologia, viajar pelas bocas que moldaram as palavras e as imagens trançadas ao som. Quero a vivacidade de um pigmento, da terra misturada ao óleo, quero me espalhar pela fibra dum papel, tela ou madeira qualquer. Quero sobrexistir, transcender o apodrecimento da carne, o cansaço das vísceras, a fraqueza da fome, o esticar-e-encolher dos tendões, a dureza ôca dos ossos, a coagulação do sangue, a fibra dos músculos. Quero a eternidade de uma pincelada, a sensação extemporânea da palavra, passear pelas eras e vidas humanas, olhando-as como se observasse formigas vagarem sem objetivo pela terra. Quero ser apenas o que transcende a mim. Quero ser não-eu, além-de-mim.

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