Livro dos começos

Noemi Jaffe fia teoria estética, filosofia, literatura e existência em um livro que nos põe diante da irrealidade do real, com seus paradoxos e multiplicidades expostos – desde os começos.

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As fotos do livro foram retiradas do portfolio de Flávia Castanheira, designer do projeto gráfico

“Por onde começar?” Essa é provavelmente a pergunta literária por excelência, apesar de carcomida pelo cotidiano. Um início presume uma literaturidade suprema porque a vida não tem começos, meios ou fins: apenas é o que é, e não há nenhum significado vinculado a isso. Mas é através das ficções e da imaginação que conferimos a esse caos amorfo atributos como continuidade, significado e identidade. Isso implica na natureza paradoxal da existência: (quase) nada é algo, mas pode ser (virtualmente) qualquer coisa.

Parece-me que Noemi Jaffe tinha tudo isso diante de sua visão enquanto elaborava o Livro dos começos (Cosac Naify, 2016). À medida que escolhemos e, simultaneamente, somos escolhidos pelos começos de sua obra, estamos realizando um ritual muito semelhante a qualquer tipo de profecia: cartomancia, quiromancia, piromancia, necromancia, numerologia. Essa obra nos dispõe frente à anatomia da leitura enquanto ato divinatório: não há significado fixo. A criação de significado é um ato que varia ao temperamento do leitor e as palavras que vão bater no ouvido da mente e ecoar à sua própria revelia são frutos do acaso e da complexidade – o que não implica que a literatura seja caótica como a vida.

Pelo contrário, a literatura ordena. A literatura é hiperreal pois confere realidade à vida irreal. Assim, ela estabelece e “fica concretizada a convicção de que a ciência nunca passou de ficção […] além da ideia de que a ficção está mais próxima do real do que parece”. Ao nos ensinar que começar é interromper o fluxo da existência e, ao mesmo tempo, ao nomeá-lo, dar-lhe ordem, Noemi flerta com uma filosofia e uma teoria estética embrionária:

[O começador] está em busca de um começo, isso é sabido. Pensa que uma frestra no muro e no chão é sum um bom começo. Pensa que todo começo é uma fresta e uma sombra de fresta. (…) Por um lado, todo começo é uma fresta porque por ele se enxerga o que está por vir e porque ele é uma existência autônoma – mais íntegro do que a continuação, pois ainda não corrompido. Toda fresta é muito mais bonita do que aquilo que se permite entrever – uma vez transpassada a passagem, a visão do intervalo, só o que vem a seguir é o ato duro de percorrer as coisas. Por outro lado, todo começo também é uma sombra de fresta, já que o começador somente pensa que está começando, para logo em seguida se dar conta de que não, não houve começo algum – apenas ilusão.

Por isso, “o começo é o mais triste, porque sempre se começa não porque se quer, mas porque é preciso” ao mesmo tempo que exalta “como é bom começar”. “Ao mesmo tempo” aqui não é mera figura de linguagem. O Livro é simultâneo em sua existência física. Todas as páginas são as primeiras páginas, últimas páginas. A ruptura material que o projeto gráfico impôs ao livro é fundamental para sua estética: o Livro é uma coletânea de folhas soltas, de cartas – de tarot, por que não? – que nos revelam a nós mesmos e à realidade diante do espelho literário. A ordem em que lemos é aleatória-a-ser-ordenada, quer queiramos, quer não – tal como a existência. Enquanto lia, me peguei pensando como ela pode ter organizado essa sequência tão bem, como, talvez, alguém pense dos deuses. Não poderia ter sido organizado. Eu criei, como quem cria o futuro na palma da mão ou nos búzios.

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Incansável em infinitos começos, o Livro realiza uma discussão metaliterária enquanto aprofunda na figura do leitor-começador. Ora exaltado, ora ensinado, ora rejeitado, ora obliterado, ora nem uma coisa nem outra. A palavra, o começador e o começo estão entremeados uns nos outros à medida que percorremos as linhas de Noemi: “Para começar é preciso um salto. Saltar o começo, que se planta na página e que está pronto para a ordem, solícito”. Começar é tanto um suicídio, é acriançar-se, é fácil, é “uma mera interrupção do que já vinha ocorrendo, mas que ainda não tinha recebido nome”. Por isso, “não começar é mais desafiador do que o contrário. A vantagem é que o sofrimento é menor, embora o desgaste tático seja maior”.

Começar são todas essas coisas ao mesmo tempo, que se agrupam em literatura. Noemi é  literarissimamente consciente. Ela configura a realidade a partir de sua palavra, ela começa. Ela ordena, ela impõe uma frase, uma linha, um parágrafo – mas nunca passa de uma folha. Seu procedimento é multiconfigurar a realidade, dando-lhe um pouco mais de dignidade, por aproximá-la à literatura – que, como os começos, são, negam, renegam-se e acabam por ser reestruturar enquanto paradoxo.

Diante disso, estamos nós, os leitores-começadores. Não importa quantas vezes comecemos, por onde ou como. Temos com os começos uma relação erótica, pois ele é “a fronteira que mistura revelação e ocultamento”, “nunca é por inteiro; só aparenta ser”. Ainda assim – e talvez justamente por isso – vivemos pelos começos: “O começo não quebra, não tem falhas, é um bloco de alegria. Mesmo que as coisas sejam feitas tateando-se, sem certeza nem razão, ainda assim elas são cabais. Cada passo mínimo que se dê já é completo”. Mas, ao mesmo tempo, se entendermos “que tanto faz como tanto fez começar ou não começar, que tudo não passa de capricho numa tentativa desesperada de perdurar, então saberão que cada um de seus gestos são só parte de uma máquina que nos governa, nos manipula e ri de nós,  e que o nome dessa máquina é tempo, ou ainda, morte”. O que nos sobra é simplesmente navegar entre eles.

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