Oblomovismo enquanto potência

Uma versão reduzida desse texto pode ser encontrada aqui

É uma coincidência interessante que Oblómov tenha sido traduzido diretamente do russo em 2013 pela Cosac Naify. A excelente nova tradução de Rubens Figueiredo de uma obra de 150 anos demonstra como a literatura é capaz de recontextualizar e ser recontextualizada. Portanto, embora a análise mais superficial do romance encare a inação do protagonista uma caricatura do declínio da nobreza com o fim da servidão na Rússia, defendo que ela pode ser encarada como uma estratégia de potência estética e resistência política, colocando-o ao lado do consagrado Bartleby de Herman Melville.

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Em seu curto texto Sobre o que podemos não fazer, Giorgio Agamben apresenta a potência não apenas como (1) aquilo que podemos fazer – a possibilidade de realização – e seu oposto (2) aquilo que não podemos fazer – a negação da potência, a impotência. Todavia, a negação da potência possui ainda outra face oculta: (3) aquilo que podemos não fazer – a possibilidade de negar a realização. A operação de poder, segundo o Deleuze de Agamben, é a separação brutal que põe, de um lado, o indivíduo e, de outro, as suas possibilidades de realização, seja “porque são privadas das condições materiais que o tornam possível ou porque uma proibição torna esse exercício formalmente impossível”.

A terceira face da potência, a mais sutil, pode ser também a mais disruptiva. A negação foi exemplarmente incorporada em Bartleby por Herman Melville desde 1853, apresentando esteticamente – tanto no nível literário-linguístico quanto no nível político-social – o poder de ser estático conjugado ao simples “acho melhor não”. Segundo o Aristóteles de Agamben, que revelou a adynamia em toda dynamia – ou seja, o poder-não-fazer diante de cada poder-fazer – o Bartleby que impõe sua escolha de sempre não fazer é o Bartleby que mais plenamente exerce sua potência, escolhendo não realizá-la. Desse modo, a potência torna-se contraparte do ato: se realizada, a potência deixa de ser possibilidade e transmuta-se em ato funcional. Portanto, se não há ato apolítico, o mesmo vale para potência.

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O nobre Iliá Ilitch Oblómov, de Ivan Gontchárov, fica ao lado de Bartleby, tanto estética quanto cronologicamente. O romance russo de 1859 define o oblomovismo como o modo de vida do seu protagonista: cansar-se apenas ao preparar-se,planejar, sonhar e imaginar possibilidades, sem nunca realizá-las. O termo, apresentado pelo melhor amigo e contraparte de Oblómov, o descendente alemão Andrei Ivánitch Stolz, torna-se uma palavra nefasta que incorpora toda imobilidade que, por fim, leva à suposta desgraça social do protagonista. Enquanto Stolz é incrivelmente eficaz, “era todo feito de ossos, músculos e nervos (…) não fazia movimento supérfluos”, Oblómov desistira de escrever uma carta para administrar sua propriedade por repetir dois ou três “o qual”.

Uma análise vulgar apontaria que a adynamia de Oblómov é a metonímia da nobreza russa da época, enquanto a eficiência alemã de Stolz é uma ode à burguesia capitalista que crescia com o fim do regime de servidão. Gontchárov não poderia estar mais distante de tal didatismo. A perícia com que ele passa um terço do romance narrando um dia ocioso de Oblómov e as visitas que lhe fazem – às quais ele sempre pede para manter distância, devido ao frio – é o que põe o personagem em relevo. Ironica e deliberadamente, Gontchárov não faz de Stolz seu protagonista, tornando-o apenas uma parede sobre a qual projetam-se as sombras da personalidade tridimensional do idílico Oblómov.

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Diante disso, o capítulo O sonho de Oblómov – publicado como um conto dez anos antes do romance – transfigura-se. Em vez de uma simples nostalgia infantil que justificaria a ansiedade adulta da impotência de Oblómov, passa a significar uma utopia estético-filosófica. Ao contrário de voltar à infância, o sonho tece uma ficção especulativa de uma comunidade que separou-se da metafísica; uma comunidade que Alberto Caeiro poderia ter imaginado e sobre a qual ficaria satisfeito em ter escrito. As pessoas em Oblómovka vivem sempre e apenas no hoje, sem contrariar a natureza das coisas ou das pessoas, levados pelos dias como folhas pelo vento. Esse sonho literaturiza a cosmovisão de Oblómov como utopia, mas fundamenta sua resistência como ato estético-político.

As exaustivas análises do escrivão de Melville apontam-no como uma negação não apenas política – enquanto símbolo da desobediência civil de Thoreau – mas também de uma estética literária: a negação do modo tradicional de conceber o personagem na narrativa. Bartleby se reconhece como um mero conjunto de letras, não como uma pessoa, e está no romance para impedir a ação. A seu modo, Oblómov também aponta para a negação política de um modo de vida teleológico, como Maiakóvksi iria se opor ao cotidiano no Futurismo. A presença de Bartleby é uma parede de tijolos, uma âncora na sequência de acontecimentos, enquanto que Oblómov é o centro de gravidade que mantém os acontecimentos do romance em órbita.

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Bem ao contrário de ser um personagem plano, Oblómov incorpora os opostos da potência e opta sempre pelo terceiro caminho, a via da resistência. Embora sempre ocioso, Oblómov se destaca e é levado a outro plano de tratamento estético, conforme sutilmente apontado na capa da edição da Cosac Naify (2013). Um dos principais diálogos entre as duas cosmovisões incorporadas em Oblómov e Stolz aponta que, longe de uma inocente preguiça, o protagonista é antes um Dionísio fatalista, capaz de ver que aqueles que trabalham vão para lá e para cá, incomparavelmente mais presos ao cotidiano do que ele à sua impotência – que lhe oferece apenas possibilidades. Entretanto, ele também paga por seu modo de vida: sua angústia, embora não raro desdenhada pelos outros personagens e pelo narrador, é tratada esteticamente como sentimento humano extemporâneo.

Agamben defende, por fim, que pior do que a separação entre o indivíduo e o que ele pode fazer, o contemporâneo é ainda mais brutal: separa-nos do podemos não fazer. Aquilo que ele identifica como a “flexibilidade que é hoje a primeira qualidade que o mercado exige de cada um” é o estranhamento da impotência: não somos capazes de ver o que não podemos e o que podemos-não-fazer. Esse é o traço que impede a resistência na contemporaneidade. Negar a ação e conciliar-se com a impotência torna-se estratégia política e regime estético a um só tempo.

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Uma existência governada pela teleologia é meramente um conjunto de gestos vazios. Cada vez mais veemente na pós-industrialização, a noção de eficácia, incorporada em Stolz, mostra-se como o principal agente das estruturas que já estão em movimento. Se não é permitido conciliar-se com a impotência, não é permitido criar ficções, nem refletir sobre os atos; não é permitido viver esteticamente. É diante da impotência – seja a impossibilidade de realização ou a possibilidade de não-realização – que se inscreve a estética: a possibilidade de potência de toda e qualquer arte consiste na sua própria impotência diante da teleologia.

Nenhum interesse estético pode partir de uma demanda externa, de uma superestrutura burocrática. Assim, a estética política transcende um discurso vulgar de bem comum no qual a imposição da burocracia e o funcionamento das estruturas é priorizada sobre a vivência do coletivo. Para além de uma indulgência narcisística, Bartleby e Oblómov são duas perspectivas de um mesmo gesto estético, pois ambos apontam para a negação como estratégia de resistência que é, ao mesmo tempo, mais e menos político do que qualquer gesto.

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