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Há palavras que sinto vontade de comê-las. Não pelo prazer do paladar, nem pelo gosto das sílabas, mas pela pulsão de tornar-me eu mesmo as palavras. Como o desejo animístico de comer quem se perdeu para levar consigo na corrente sanguínea. Minhas veias correndo com palavras, meus músculos consumindo tinta e letras e a ínfima eletricidade que faz o cérebro pulsar. Com o tempo, desmaterializar-se como palavra, flutuar no vento em ondas para logo ali dissipar-se, morrer talvez sem ser ouvido, como a palavra sussurrada em pânico ou sem ser lido como a palavra escrita às pressas para desafogar-se de lágrimas e dor. Pousar no ouvido alheio como palavra de amor ou empurrar lágrimas olhos afora como palavra de esperança. Consolar. Tornar-me eu múltiplos sentidos, esse corpo estático em um campo de possibilidades hermenêuticas. Abandonar de submeter-me aos abusos da gravidade e da ação, ser-me autônomo, simbiótico-sintático, infinito. Ser-me abstrato de forma, de sentido e de existência.

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