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Todos os dias, ecoo as mesmas mentiras que ouço na minha própria mente. “Amanhã vai ser diferente”, “preciso mudar isso”, “é possível alcançar”, “você precisa continuar indo”, “persista, os resultados virão”. Não sei de quem são essas vozes. Não quero mais ouví-las, mas essas mãos com unhas sujas vêm de dentro e abrem-me a boca à força para fazer reverberar as mentiras. Apenas faço o que posso: repito-as baixo e só no quarto escuro, a cabeça afogada no travesseiro. Ninguém mais deve contaminar-se. Se pudesse materializar essas palavras, as queimaria. Se pudesse esculpí-las, faria com o cuidado de uma mãe que assiste uma criança febril, e depois lhes assistiria incendiar: eis o único prazer que elas me proporcionariam. Essas palavras são meu câncer, uma ilusão que nunca desejei gestada por um sonho que jamais alimentei. Mas não consigo expulsá-las, bem como não se consegue vomitar o próprio estômago. Se pudesse, me desfaria.

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