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Sinto nas costas as garras daquele pássaro. O abraço por cima dos ombros e as presas perfuram minhas espáduas, atravessam meu peito e me trespassam. Esse pássaro não precisa de asas para voar porque é feito de sombras, daquilo meu que escondo de mim, mas ele as tem para que possa me cobrir os olhos, a face, o corpo, e me envolver como uma mãe carinhosa. No seu berço é frio e ouço ecos de soluçar por mais que eu pensasse que estivesse em silêncio. Talvez sejam choros do passado, porque aqui tempo parece não significar nada. Na escuridão vazia das asas dele, vejo e toco nuances de medo como se acariciasse a pele de quem se ama. Ao contrário do que poderia pensar, o medo não fura, não queima, não rasga e não arranha: ele acaricia. O medo afaga, conforta. Às vezes, como agora, pesa. Mas que amor não pesa? Que relação não cria afetos? Ele não chega inoportuno, apenas atende meu chamado. É atento aos sons da minha respiração rasa, atrasada, sensível ao peso nos meus olhos, à fraqueza nas pernas. As garras não me atravessam por maldade, apenas são o que são e obedecem à sua natureza. Além do mais, é um preço pequeno para se pagar por tanto.

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