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Não me doeria tanto se não me importasse. Mas me dói até mesmo ter que admitir que me importo; eu não queria me importar. Mas algo me força, empurra meus olhos, abre minhas pálpebras e abraça meu cérebro, rastejando devagar, começando pela nuca, subindo pelas têmporas, fechando o ciclo em meus olhos. Se não precisasse aceitar esse mundo…

Mentiroso aquele que diz que não é necessário. Não é, por outro lado, suficiente. Sequer consigo dar o primeiro passo em direção à Vida. Sou incapaz das emoções, sem muleta possível. Minha experiência limitada é, também, minha prisão. Quero chorar e não posso. Quero desaparecer e não consigo. Quero vomitar minhas sensações e ficar com o estômago vazio de existência, usar os rins da consciência e mijar, horas a fio, todas as memórias. A evolução não me deu um sistema digestório da experiência e tenho, todos os dias, diarreia de lembranças. Nada absorvo, nada retenho, nada aprendo; apenas existo na angústia perpétua da minha cela.

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