Soul carne

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Essa é mais uma daquelas postagens que vai precisar ser reescrita, já que nunca li algo sobre a carne. Eu sei que tudo está logo ali: A lógica da sensação do Deleuze, ou O visível e o invisível do Merleau-Ponty, é só buscar. Mas nunca os li, e sei que em instantes vou dormir, amanhã cedo vou acordar e, quando for reler esse texto num final de tarde, vou desejar que ele fosse notas numa folha de papel, para que eu pudesse amassá-la e jogá-la no lixo. O que muda, na verdade, é que esse vai ser o meu primeiro texto sobre o assunto, e agora existe uma historiografia, uma marca, um caminho que vai me levar a algum lugar – mesmo que ele acabe aqui como um rastro medíocre.

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Andrew Wyeth – Christina’s World

16.1949

Antes de começar a ler esse texto recomendo que você tire alguns minutos para visualizar a pintura acima. Olhe, sinta, interprete por conta própria. A sua interpretação da obra será tão válida quanto a minha, uma vez que não nego que a minha leitura de Christina’s World é altamente idiossincrática (e, convenhamos, a sua também será).

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Retorno ao Animus Mundus

Eu criei o blog Animus Mundus em meados de 2009, aos 18 anos, antes mesmo de iniciar a graduação em Filosofia, no Recife, minha cidade natal. A minha intenção, ao criar o blog, era a de escrever sobre assuntos sobre os quais eu tinha pouco domínio, uma vez que estava disposto a experimentar coisas novas, me forçar a pesquisar sobre um tema específico, refinar os meus argumentos e, também, formar uma comunidade de discussão online. Eu – e depois o meu amigo Eduardo Souza – escrevia sobre temas filosóficos e políticos, que iam da possível inexistência do mundo exterior até a notas sobre a legislação do porte de armas de fogo. Tudo isso era novidade para mim, e eu encarava com bastante entusiasmo o desafio de escrever sobre o que me era desconhecido. E, por um tempo, o projeto deu certo. Principalmente em 2010, quando o Animus Mundus teve um boom de visitas e foi indicado à categoria de “melhor blog do ano” – mas não que isso tenha tido qualquer importância para mim.

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“Restore Now”, de T. Hirschhorn: a arte como arma

Parece-me que a arte contemporânea se tornou um evento estético e político do qual ninguém pode se esquivar. Se, de um lado, desde A Fonte de Duchamp, tudo que é exposto num contexto de galerias e museus se tornou arte – o que culminou na relativização do próprio conceito de arte -, do outro, os artistas obtiveram uma autonomia inegável na produção de artefatos e na realização de performances que excedem até mesmo o espaço museológico. Thomas Hirschhorn, artista plástico suíço, certamente está ciente do espírito do nosso tempo, e foi em julho do ano passado, em uma visita ao museu de Inhotim, que eu tive a oportunidade de conhecer a sua instalação de Restore Now.

Eu desejava escrever sobre Restore Now desde o meu primeiro contato com a obra mas, se me permitem a franqueza, o meu desejo estava mais vinculado à tentativa de expurgar a angústia gerada por esse contato do que realmente à arguição do problema apresentado por Hirschhorn. Como não costumo fugir dos meus temores pela porta dos fundos, eu esperei alguns meses para que pudesse, ao invés de cicatrizar as feridas causadas pela exposição, absorver este trabalho como parte da minha experiência artística. Em suma, Restore Now se tornou um marco para mim: foi depois de ser literalmente atropelado por esta composição que eu senti o poder esmagador da arte contemporânea.

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Her, um filme sobre compaixão

her_xlgHer foi, da remessa cinematográfica de 2013, o filme que me causou o maior impacto. Isso se deu não só por conta da direção de Spike Jonze, da trilha sonora feita pelo Arcade Fire ou das atuações de Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson – inclusive, deixarei de lado todos esses detalhes mais técnicos –, mas pelo espaço para pensamento que o filme oferece. Então vamos ao ponto: do que trata o filme? Do relacionamento de um humano do sexo masculino com um sistema operacional? Bem, pode-se dizer que sim; mas essa não seria a interpretação mais interessante, ao menos em minha singela opinião. Se esse não é o caso, então sobre o quê é o filme, afinal? Her, dentre tantas outras coisas, é um filme coroado pela compaixão que floresce quando se explicitam os limites [atuais] da existência humana.

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H.P. Lovecraft – Existência, Desespero e Cinismo

“O medo é a emoção mais antiga e forte da humanidade… 

… e o tipo mais antigo e forte de medo é o medo do desconhecido.”

– H. P. Lovecraft

Quando eu era uma criança, entre os meus 8 e 12 anos, o medo do oceano me consumia. As razões para tanto eram duas, sendo a primeira a minha inabilidade em nadar – o que me deixaria à mercê do movimento das ondas -, e a segunda o meu receio de que em águas profundas habitassem criaturas assombrosas que pudessem emergir e destruir a minha cidade – sim, Godzilla style. Digo que o meu medo durou até os 12 anos porque foi com essa idade que eu fui matriculado em aulas de natação e tive a minha primeira lição de biologia marinha, o que me dava a sensação de que tais temores eram não apenas irracionais, mas também frutos da minha inexperiência. Assim, a técnica e o conhecimento científico afastaram o meu pavor do oceano.

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Montaigne – Da potência destrutiva da tristeza

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Os estudos dos ensaios de Michel de Montaigne (1533-1592) são escassos e, em certos nichos universitários, sequer são considerados filosóficos. As razões para essa negligência costumam ser três: [1] a ausência de um sistema tripartido em lógica, física e ética; [2] o estilo ensaístico experimental; e [3] as temáticas de tom idiossincrático. Estas razões, ao contrário de serem um demérito, são os motivos pelos quais Montaigne é um autor valioso, uma vez que, a partir de conceitos, ele criou um novo estilo de se fazer filosofia; estilo este que influenciou a escrita e as ideias de filósofos como Blaise Pascal, David Hume e Friedrich Nietzsche, ao ponto em que este chegou afirmar que “O que [Montaigne] escreveu aumentou o meu prazer continuar a viver na Terra.”¹

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